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    Planejamento


    Da produção ao destino final: o caminho da vacina para o Amazonas

    Início da imunização não tem data oficial no Amazonas, e após chegar no Brasil, seguirá o rigoroso processo até ser aplicada

     Brasil vai receber vacinas de três fabricantes: AstraZeneca (vacina de Oxford), Instituto Butantan/Sinovac e Pfizer
    Brasil vai receber vacinas de três fabricantes: AstraZeneca (vacina de Oxford), Instituto Butantan/Sinovac e Pfizer | Foto: Getty Images

    Manaus – A Covid-19 segue contaminando e matando milhares de pessoas em todo o mundo. Pela gravidade da pandemia, o cenário deve ser de cuidado permanente. No Amazonas, já foram 190,9 mil casos confirmados e 5 mil mortes. Em meio às perdas, cientistas correm para produzir as vacinas. Até o momento, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, afirmou que o Brasil vai receber vacinas de três fabricantes: AstraZeneca (vacina de Oxford), Instituto Butantan/Sinovac e Pfizer. A expectativa é que as vacinas cheguem entre janeiro a março. Mas, apesar das projeções, ainda não há data oficial de quando os brasileiros serão, de fato, imunizados.

    Definição de grupo prioritário, estoque de insumos, treinamento dos profissionais, transporte e aprovação da vacina são alguns dos pontos que devem ser definidos antes da aplicação.

    Vários voluntários foram necessários nos primeiros testes de segurança para garantir a eficácia da vacinação e conter a pandemia. O percurso entre o laboratório e a imunização, necessitou de meses de trabalho, que ainda continua, com a logística de países para cidades, como é o caso de Manaus- Amazonas.

    Execução da vacinação 

    Foto de 29 de abril de 2020 mostra engenheiro trabalhando em laboratório da Sinovac Biotech, em Pequim, na China
    Foto de 29 de abril de 2020 mostra engenheiro trabalhando em laboratório da Sinovac Biotech, em Pequim, na China | Foto: Nicolas Asfouri / AFP

    O infectologista da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), Marcus Lacerda, explicou que o programa nacional de imunização não funciona com uma vacina para cada estado, existe um programa nacional. "[O governo] adquire as vacinas e os insumos. E os municípios são responsáveis pela execução dessas vacinas. O estado é quem organiza toda logística e distribui. E é repassado do governo federal aos municípios”, explica.

    Lacerda diz que existe uma colaboração entre os fornecedores de vacina e que devido a realidade do país, não há como utilizar apenas uma vacina, por esse motivo, já existe no Brasil um acordo com laboratórios da produção de outras vacinas para atender a população.

    “Há uma coalizão de fornecedores de vacinas e os países vão comprar vários tipos de vacina e serão disponibilizadas para pessoas de risco. A realidade é que não há chance de vacinar a população com uma única vacina, existe uma vacina no território nacional em produção. Já existe um acordo de produção da coronavac pelo Instituto Butantan, em São Paulo, mas não se sabe se os laboratórios também vão assumir produção de outras vacinas ou se já vão vir prontas”, afirmou.

    “No Amazonas desafio será logístico”

    Antes da aplicação da vacina, é necessário a aprovação da Anvisa. Após a resposta, o Amazonas e todos os estados do Brasil estão autorizados a receber a vacina.

    O analista de logística José Luiz de Almeida, pontuou que a distribuição da vacina é limitada pelas rodovias e veículos refrigerados para preservar a temperatura da vacina. “A distribuição da vacina pelos estados é praticamente limitada pelas rodovias, por meio de veículos refrigerados, para preservar a temperatura da vacina”.

    Segundo Almeida, o descarte de resíduo biológico das vacinas é um pouco mais complicado devido a descaracterização da estrutura física. Para ele, o principal problema do Amazonas é enfrentar a logística.

    “Os estados que forem receber a vacina devem ter estrutura para armazenar, distribuir e descartar. O mais complicado é o descarte de resíduo biológico das vacinas, porque antes de realizar o descarte, o resíduo tem que passar por tratamento para descaracterizar as estruturas físicas. Após isso devem ir para aterros licenciados ou para cremação”, explica.

    O governador do Amazonas, Wilson Lima, alegou que o estado possui logística complexa e solicitou prazo mais curto ao Ministério da Saúde, para a distribuição da vacina contra a Covid-19.

    Lima pretende que a vacinação seja feita no máximo em dois lotes, prevenindo indígenas e profissionais da saúde no interior do estado. “Nenhum brasileiro vai ter mais ou menos acesso”. 

    Segundo o infectologista, serão várias vacinas distribuídas pelo país, mas não haverá desigualdade entre os locais. “Estamos nos encaminhando para uma situação de várias vacinas e elas vão ser compradas pelo PNI (Programa Nacional de Imunizações) e distribuídas igualmente pelo Brasil. Nenhum brasileiro vai ter mais acesso ou menos acesso a produtos diferentes”, enfatizou.

    O que pode dar errado?

    Diversas preocupações podem surgir durante o planejamento e execução da vacina. Além de insumos e ferramentas, desde coisas simples como a falta de seringas, algodão, luvas e outras ferramentas.

    Para o infectologista, o que pode ocorrer são eventos raros após a aplicação da vacina na população, mas isso não é peculiaridade da vacina contra Covid-19, pode ocorrer com qualquer vacina.

    “A maior parte das vacinas tem tecnologias não reconhecidas. O que pode acontecer são eventos raros, ou seja, que só vão aparecer quando milhões de pessoas forem vacinadas, mas isso não é uma peculiaridade da vacina de Covid-19, serve para qualquer vacina. É essencial que caso a pessoa tenha problema de saúde, relate ao sistema de saúde para que seja informado ao fabricante, é a farmacovigilância, vigilância de eventos raros”, explica.

    Para o especialista em logística empresarial, Deivid Kleiton, a maneira como a vacina é produzida deve ser levada em conta, se é concluída na Europa ou no Brasil, podendo haver acrescimentos nesse trajeto

    “Quando olhamos de uma forma geral, se é produzida em São Paulo e depois importada da Europa, se torna inviável. Quando se trata disso, é preciso ver a questão da produção da vacina, se é enviada com uma parte dos componentes daqui e, concluída na Europa, para depois ser trazida completa, ou se ela é produzida no Brasil, podendo ter um crescimento. Temos que levar em consideração se esse é o caso da vacina, para não haver uma conclusão precipitada”, afirmou. 

    Discursos políticos podem gerar desconfiança

    O presidente desautorizou publicamente o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, que havia anunciado a intenção de compra da CoronaVac, a qual chamou de "vacina chinesa de João Doria
    O presidente desautorizou publicamente o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, que havia anunciado a intenção de compra da CoronaVac, a qual chamou de "vacina chinesa de João Doria | Foto: Walterson Rosa

    Desde outubro, Doria e Bolsonaro estão em ‘guerra da vacina’. Doria pressiona o governo federal a incluir a vacina Coronavac no programa nacional de vacinação. O Ministério da Saúde, disse ter firmado memorando de entendimento para aquisição do imunizante chinês.

    Do lado do Planalto, Bolsonaro tem usado a vacina para atacar o governador. O presidente desautorizou publicamente o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, que havia anunciado a intenção de compra da CoronaVac, a qual chamou de "vacina chinesa de João Doria".

    Na última quarta-feira (16), o presidente tentou arrefecer a pressão do Supremo Tribunal Federal (STF) a escantear o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), na disputa da imunização coletiva contra o coronavírus.

    Durante o enfrentamento da pandemia no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro tem criticado os efeitos da vacinação contra Covid-19 no país, colocando uma dúvida ideológica e retirando a própria credibilidade científica das vacinas.

    O analista político e sociólogo, Carlos Santiago, comentou que a maior parte da população está utilizando a pandemia para continuar brigando pelo poder e afirma que desde o início da pandemia a sociedade não teve unidade de ação dos governadores.

    “A Covid-19 já matou mais de 180 mil pessoas no Brasil. A maioria da população sequer utiliza máscara e uma parcela significativa da classe política está usando a pandemia para continuar brigando tão somente pelo poder. Desde o início da pandemia, não tivemos unidade de ação dos governantes contra a covid-19, o presidente já conflitou com o Supremo Tribunal Federal (STF), governadores, prefeitos e o congresso nacional”, pontuou.

    Plano de Vacinação Nacional

    No total foram 212 pesquisas em desenvolvimento, com 48 delas sendo testadas em humanos e 11 estudos de fase 3. Quatro delas já foram testadas no Brasil: a vacina desenvolvida pela farmacêutica AstraZeneca e a Universidade de Oxford, do Reino Unido; Estados Unidos com a farmacêutica Pfizer; Alemanha com a BioNTech; Coronavac, criada pela empresa chinesa Sinovac e a última criada na farmacêutica da empresa Johnson & Johnson, com testes clínicos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

    O Plano Nacional de Operacionalização da Vacina contra a Covid-19, prevê quatro grupos prioritários que somam 50 milhões de pessoas, que receberão duas doses em um intervalo de 14 dias entre a primeira e a segunda injeção. Serão necessárias 108,3 milhões de doses de vacina, já incluindo 5% de perdas.

    A prioridade será para trabalhadores da saúde, idosos, pessoas com doenças crônicas (hipertensão de difícil controle, diabetes mellitus, doença pulmonar obstrutiva crônica, doença renal, entre outras), professores, forças de segurança e salvamento e funcionários do sistema prisional.

    O governo federal já garantiu 300 milhões de doses de vacinas contra a covid-19 por meio de acordos. Até o momento, nenhum imunizante está registrado e licenciado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), etapa prévia obrigatória para que a vacinação possa ser realizada.

    Resposta imune 

    Enfermeira foi 1ª a ser vacinada contra a covid-19 nos EUA
    Enfermeira foi 1ª a ser vacinada contra a covid-19 nos EUA | Foto: Mark Lennihan/Reuters

    Um estudo feito com 743 pacientes apontou que a Coronavac mostrou segurança e resposta imune satisfatória durante as fases 1 e 2 de testes. 

    A fase 2 dos testes de uma vacina verifica a segurança e a capacidade de gerar uma resposta do sistema de defesa. Normalmente, ela é feita com centenas de voluntários.

    Já a fase 1 é feita em dezenas de pessoas, e a 3, em milhares. É na fase 3, a atual, que é medida a eficácia da vacina.

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