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    Covid-19


    Nova variante pode estar por trás do caos no AM, dizem pesquisadores

    Em meio à descoberta da nova variante da Covid-19, o Amazonas enfrenta o aumento no número de casos e mortos, além da falta de oxigênio nos hospitais

    | Foto: Michael Dantas/AFP

    Manaus (AM)- O sistema de saúde no Amazonas sofre nos últimos dias com a falta de oxigênio, de leitos de UTI e equipamentos para lidar com o forte aumento no número de internações. Pesquisadores do Amazonas acreditam que a nova variante do coronavírus identificada no Amazonas pode estar por trás do caos vivido nos últimos dias em Manaus, além das festas de fim de ano e as eleições políticas.

    Pacientes estão sendo transferidos para outros Estados e o governo amazonense está convocando a ajuda de empresas para fornecer oxigênio e materiais para os hospitais.

    “A piora em Manaus ocorreu por uma soma de fatores: o fator da variante existiu associado à circulação da população e as aglomerações do final do ano. Essa maior transmissibilidade da variante faz com que as pessoas adoeçam juntas ao mesmo tempo. E o serviço de saúde não consegue atender todos e dispor tratamento. Levando ao caos inimaginável que passamos”, enfatiza a infectologista Ana Galdina, coordenadora da comissão de controle de infecção da Fundação Hospitalar de Hematologia e Hemoterapia do Amazonas.

    A especialista explica que por conta de outras proteínas dentro da variante, a transmissão pode ocorrer com maior facilidade. “Essa variante tem proteínas diferentes do vírus naive (vírus nativo). Elas tornam essa variante mais transmissível. Passa de pessoa para pessoa com mais facilidade”.

     

    Em entrevista à Carta Capital, Galdina revelou que, com a nova variante, outros estados passarão por isso que o Amazonas enfrenta.
    Em entrevista à Carta Capital, Galdina revelou que, com a nova variante, outros estados passarão por isso que o Amazonas enfrenta. | Foto: Reprodução/Fab

    "Outros estados passarão por isso também"

     A variante, segundo Galdina, é mais transmissível, o que aumenta o risco de transferência de pacientes para outros estados. Na última sexta-feira (15), aviões da Força Aérea Brasileira começaram a levar infectados de Manaus para outras regiões.

    Segundo informações da FAB, o primeiro embarque ocorreu logo pela manhã. As aeronaves deixaram Manaus com 9 pacientes e 5 médicos com destino a Teresina, no Piauí.

    O Ministério da Saúde informou que os pacientes foram transferidos para sete capitais brasileiras e para o Distrito Federal. “Já estão garantidos – de imediato – 149 leitos: 40 em São Luís (MA); 30 em Teresina (PI); 15 em João Pessoa (PB); 10 em Natal (RN); 20 em Goiânia (GO); 4 em Fortaleza (CE); 10 em Recife (PE) e 20 no Distrito Federal”, informou a pasta.

     

    Falta de oxigênio em hospitais de Manaus
    Falta de oxigênio em hospitais de Manaus | Foto: BRUNO KELLY / REUTERS

    Em entrevista à Carta Capital, Galdina revelou que, com a nova variante, outros estados passarão por isso que o Amazonas enfrenta.  “Não acho que [a transferência] seja a melhor decisão com essa variante. Quando se leva pacientes infectados para outros estados, o risco de distribuir a cepa é muito maior. Tem a questão humanitária também. Os parentes já não podem ver o paciente no hospital e agora vão ver os doentes irem para outros estados sem condições de acompanhá-los. O mesmo voo da FAB que leva pacientes não pode trazer oxigênio?”, questiona. 

    Pobreza e infraestrutura hospitalar

     

    A situação precária da cidade tem relação com outros fatores, como as moradias da população e a infraestrutura hospitalar
    A situação precária da cidade tem relação com outros fatores, como as moradias da população e a infraestrutura hospitalar | Foto: Bruno Kelly/Reuters

    A situação precária da cidade tem relação com outros fatores, como as moradias da população e a infraestrutura hospitalar, o que colabora para a transmissão da nova variante, conforme o pesquisador Jesem Orellana, do Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia).

    “O grande pico explosivo da mortalidade se deve a vários fatores, relacionados às precárias moradias da população, a infraestrutura médica hospitalar e a grande questão da saúde pública no Amazonas. Essas condições colaboram para que se crie as condições de uma disseminação viral descontrolada e grande o suficiente, que proporcionaram a mutação dessa possível nova variante detectada e que pode ter sido um fator importante para a disseminação viral e o pico da mortalidade”, explicou Orellana.

    A nova variante foi identificada na última terça-feira (12), a descoberta ocorreu após análise de amostras coletadas desde março, quando os cientistas passaram a fazer a caracterização dos tipos de coronavírus que circulam no estado.

    Reino Unido e África do Sul também tiveram mutações do coronavírus identificadas. No caso do Reino Unido, pesquisadores determinaram que a nova variante britânica era 70% mais contagiosa do que a que existia anteriormente.

    Crise na saúde do AM

     

    Amazonas ultrapassa a marca de seis mil vidas perdidas para a Covid-19
    Amazonas ultrapassa a marca de seis mil vidas perdidas para a Covid-19 | Foto: Bruno Kelly/Reuters

    Em abril do ano passado, Manaus foi a primeira cidade do país que teve que lidar com o seu sistema de saúde colapsado diante do número de casos de infecção, na época, o número de óbitos cresceu tanto que os corpos tiverem que ser mantidos em contêineres refrigerados, aguardando sepultamento.

    Para lidar com o forte aumento no número de internações na segunda onda, o sistema de saúde da capital do Amazonas tem transferido pacientes para outros Estados e o governo amazonense tem convocando ajuda de empresas para fornecer oxigênio e materiais para os hospitais.

    Além disso, o governador Wilson Lima (PSC), na tentativa de minimizar a contaminação, decretou na quinta-feira (14), um toque de recolher, com vigência inicial de 10 dias. Pela regra, ninguém pode sair de casa entre às 19h e 6h.

    “Nós estamos em uma operação de guerra, em que os insumos, sobretudo, os oxigênios, hoje é o produto mais consumido diante da pandemia da Covid-19. Hoje, o Estado do Amazonas, que é referência para o mundo, e que todo o mundo volta seus olhares para cá, quando há um problema relacionado a preservação do meio ambiente, está clamando por socorro”, enfatizou em live sobre as medidas para conter o vírus.

    Nas mídias sociais internautas solicitaram doações de oxigênio, além de outros equipamentos de saúde, como máscaras e luvas. Além da hashtag #OxigênioParaMnaus, a palavra da cidade ficou em primeiro lugar nos trends de assuntos mais comentados no twitter diante da atual situação da capital.

    Prevenção redobrada

    Apesar da nova variante do Amazonas, os cuidados e prevenção contra o vírus devem permanecer, para evitar o aumento de infecções e hospitalizações, enfatizou a médica pediatra Monica Rocha.

    “Essa é uma máxima que estamos ouvindo desde o ano passado.  Para as infecções preveníveis por vacina, todas as pessoas devem se vacinar. Em relação à Covid, além das medidas restritivas, uso de máscara e evitar as aglomerações, devemos nos vacinar tão logo a vacina esteja disponível”, contou.

    Amazonas ultrapassa a marca de seis mil vidas perdidas para a Covid-19

     

    Amazonas ultrapassa a marca de seis mil vidas perdidas para a Covid-19
    Amazonas ultrapassa a marca de seis mil vidas perdidas para a Covid-19 | Foto: Brayan Riker

    Em novo boletim diário sobre a Covid-19, a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM) confirmou 3.151 novos casos da doença no Estado. É o segundo dia seguido com registro acima de 3 mil, um número recorde. No total, o Amazonas soma agora 226.511 casos de coronavírus. Além disso, com as 133 mortes confirmadas em 24h, o Estado ultrapassa a marca de 6 mil vidas perdidas pela doença, totalizando 6.043.

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