Fonte: OpenWeather

    CRISE DE OXIGÊNIO


    "BR-319 teria ajudado a trazer oxigênio", diz doutor em Transportes

    Rodovia que liga Manaus a Porto Velho é o centro da discussão entre os que a veem como uma alternativa de locomoção e ambientalistas que defendem o mantimento total da floresta

    | Foto: (Arquivo/Agência Brasil)

    Manaus - A crise da falta de oxigênio em cilindro que atingiu o Amazonas nesta semana poderia ter sido amenizada caso a BR-319 estivesse pronta para uso. É o que defende Augusto Barreto Rocha, doutor em Engenharia de Transportes e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Em Entrevista ao EM TEMPO, o especialista afirmou a possibilidade.

    "Com toda a certeza a estrada poderia ter sido utilizada para transportar oxigênio para distâncias mais curtas, seja entre municípios do Amazonas ou de Rondônia para Manaus. A BR-319 teria ajudado a trazer oxigênio", diz Rocha.

    Atualmente a rodovia tem trechos asfaltados, mas não na maioria. A realidade do percurso é mais composta por muita lama, árvores caídas no caminho e muita poeira. O tempo de viagem com saída de Manaus até Porto Velho é calculado entre 9h e 14h a depender da estação e fluxo de caminhões, segundo sites especializados.

    A questão da saúde da população local é justamente um dos pontos prejudicados pela falta de estrutura da estrada. Em entrevista publicada no portal do governo do Amazonas, o ex-secretário de saúde de Humaitá, Cleomar Scandolara, trouxe luz à situação. A matéria é datada de outubro passado.

    “Fica intrafegável. A logística é muito diferente e as ações de saúde são prejudicadas, porque não conseguimos chegar na BR, na comunidade de Realidade, e essa é nossa preocupação. Com isso, conseguir o asfaltamento da BR-319 vai ficar muito fácil, e a gente vai conseguir levar saúde de qualidade àquela população que realmente precisa”, diz o ex-titular da pasta.

    Entraves para a rodovia

    A BR-319 possui 885 quilômetros de estrada, dos quais os 198 km iniciais e os 164 km finais são asfaltados. Os chamados lote C (Charlie), de 52 km, e o 'trecho do meio' de 400 km não estão pavimentados.

    De volta à sua análise, Augusto Rocha explica os motivos pelos quais a BR-319 segue, até hoje, não finalizada. 

     

    Rocha é também diretor Adjunto da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas
    Rocha é também diretor Adjunto da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas | Foto: Divulgação

    "Essa rodovia, em específico, tem um embate entre questões ambientais e de orçamento da União. Ou seja, ela precisa ser recuperada no que diz respeito à trafegabilidade nos primeiros testes, principalmente ter a aprovação do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). É necessário ainda analisar seu uso no período de verão e no que diz respeito ao asfaltamento, para ela ser recuperada no  chamado 'trecho do meio', comenta o doutor em Engenharia de Transportes.

    Ele explica o passo a passo para que a rodovia finalmente seja finalizada. Os passos seriam na seguinte ordem: alocação, licitação e execução da obra.

    "No entanto, para licitar, é preciso ter autorização ambiental, e sempre há muita discussão sobre isso. Ainda não foi superada a problemática. E vou dizer, embora não concorde com essa visão, acredito que os que são contra a pavimentação da BR-319 têm argumentos muito fortes para isso. Até como professor, preciso dar esse contraste", afirma Rocha.

    O governo federal assumiu o compromisso de finalizar a rodovia em 2021, motivo que levou o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, e o governador Wilson Lima até Humaitá (AM) em outubro passado. À época, ambos assinaram a ordem de serviço para a manutenção de três segmentos da BR-319.

    Desmatamento: um risco real

    Em artigo publicado na Agência Amazônia Real, o pesquisador Philip Martin Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) criticou a reativação da BR-319. O cientista lembrou que a sigla já publicou diversos estudos que mostram os possíveis danos ambientais com a pavimentação da estrada. 

     

    Fearnside é um biólogo e cientista norte-americano atuante Manaus
    Fearnside é um biólogo e cientista norte-americano atuante Manaus | Foto: Janailton Falcão

    "Ao conectar Manaus ao 'arco de desmatamento' em Rondônia, atores como grileiros e sem-terra podem ser esperados a migrar para a Amazônia central, e de continuar pela rede de estradas já existentes para outras partes do Amazonas e para Roraima. Há planos para várias estradas laterais ligadas à BR-319 que levariam os desmatadores para além das áreas protegidas que foram criadas ao longo da rodovia. Uma dessas estradas planejadas, a AM-366, abriria o grande bloco de floresta intacta ao oeste do rio Purus, ligando a BR-319 a Coari, Tefé e Juruá. Sendo estradas estaduais, elas seriam construídas sem licenciamento federal", explica o especialista.

    Situação atual

    No mês passado, o DNIT assinou contrato para asfaltar o trecho C (Charlie) da BR-319. São 52 quilômetros que agora ficam à disposição do serviços do consórcio Tecon/Ardo/RC. A obra custou R$ 165,7 milhões e tem prazo de 1.080 dias.

    Embora a rodovia vá ver mais um trecho do seu caminho com asfalto novo, o chamado 'Trecho do Meio' deve aguardar mais um tempo para ser finalizado, caso seja. Isso porque os cerca de 400 quilômetros que o formam são os principais apontados como danosos para o meio ambiente, por isso, necessitam de aprovação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

    Leia mais: 

    Bioeconomia: alternativa para gerar renda sem destruir a floresta

    Por que os preços dos alimentos no interior do AM são tão altos?

    Comentários