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    Imunidade de Rebanho


    'Imunidade de rebanho' reacende debate em segunda onda da Covid no AM

    Estudo mostra que tal imunidade só pode ser atingida se toda a população for vacinada

    Em 2020, estudo que apontava que a população de Manaus iria adquirir "imunidade de rebanho" falhou | Foto: Lucas Silva

    Manaus (AM) - Em setembro de 2020 um preprint (resultados de uma pesquisa antes de serem publicadas como artigo científico) surgiu de forma on-line com os resultados surpreendentes de um estudo de anticorpos para a Covid-19 em amostras de banco de sangue de Manaus, capital do Amazonas. Segundo a pesquisa, 66% dos residentes podem ter sido infectados. O artigo, que mais tarde apareceria na revista Science, estimando uma taxa de infecção de 76% da população, parecia confirmar os rumores locais de que Manaus havia atingido a “imunidade de rebanho”. Porém não foi o que vimos. 

    Em abril de 2020, Manaus foi a primeira cidade brasileira a começar a cavar valas comuns. Em junho, os enterros voltaram aos níveis anteriores à pandemia. Em janeiro de 2021 atingimos inclusive em um  único dia, o número de mortes do ano anterior por síndrome respiratória aguda, nome dado pelos médicos para as mortes causadas pelo novo coronavírus.

    Intitulado “Covid-19 herd immunity in the Brazilian Amazon” (do inglês Imunidade de Rebanho, Covid-19 na Amazônia brasileira), o estudo afirmou que “A imunidade de rebanho desempenhou um papel significativo” no controle do vírus. Após a crise na saúde pública ser mostrada amplamente pela imprensa, uma de suas autoras, Ester Sabino, da Universidade de São Paulo, agora lamenta o título. “Não achávamos que haveria uma segunda onda”, afirmou ela quando questionada por jornalista.

    Para o infectologista da Fiocruz Felipe Naveca este estudo foi duvidoso. “Se criou uma lenda que poderíamos atingir a 'imunidade de rebanho' para Covid-19 quando a população atingisse mais de 70% da população infectada. Obviamente não funcionou porque estamos vendo a situação que encontramos hoje. Eu e vários pesquisadores questionamos este dado, até porque eu nunca vi os casos de não infectados ou livres da doença caírem para abaixo de 15% a 20% mesmo no período em que supostamente tínhamos imunidade de rebanho”.

    O biólogo, mestre em Biologia e doutorando do Programa de Biologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Lucas Ferrante, afirma que a segunda onda foi inclusive avisada por ele e outros pesquisadores. “Desde maio do ano passado nós prevíamos a possibilidade de uma segunda onda para Manaus. Este primeiro alerta, foi realizado em uma nota que coordenei a pedido do Ministério Público do Amazonas. Em agosto do ano passado, nosso grupo também publicou um artigo na Nature Medicine apontando que Manaus passaria por uma segunda onda de Covid-19. Embora estudos de outros grupos apontem que Manaus teria atingido a imunidade de rebanho, o que aconteceu é que estes cientistas superestimaram a porcentagem da população que de fato teve contato com o vírus. Nosso grupo estima que no início de dezembro, menos de 50% da população de Manaus de fato teve contato com o SARS-CoV-2.”.

    Para o doutorando Lucas Ferrante só é possível atingir imunidade de rebanho ainda Manaus se todos em uma região forem vacinados. “A imunidade de rebanho só poderá ser alcançada com a vacinação de toda a população. É preocupante que não sejam adotadas medidas mais rígidas para conter o avanço da pandemia, principalmente que as novas linhagens, inclusive a linhagem que surgiu no Amazonas se dissemine para outras áreas do Brasil. Neste momento, um lockdown, se faz imensamente necessário tanto para conter a pandemia em Manaus, evitando uma terceira onda, como também para impedir que esta nova linhagem continue se disseminando para fora do estado".

    No dia 12 deste mês, a cientista-chefe da OMS, Soumya Swaminathan, disse em coletiva de imprensa que levará algum tempo para atingir o nível de vacinação necessário para conter a pandemia. "Não vamos atingir nenhum nível de imunidade coletiva em 2021, porque o processo de aplicação de vacinas leva tempo". 

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