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    Covid-19


    Órfãos da Covid: o desafio de famílias que perderam mães para o vírus

    Amazonas registrou mortes de 63 grávidas ou puérperas, mulheres que acabaram de dar à luz

     

    Viúvos olham para suas crianças nascidas na pandemia e enxergam nelas os traços das mulheres que se foram
    Viúvos olham para suas crianças nascidas na pandemia e enxergam nelas os traços das mulheres que se foram | Foto: Arquivo Pessoal

    MANAUS - O monitoramento de grávidas e puérperas para Covid-19 no Amazonas da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS) mostra que o Amazonas registrou mortes de 63 grávidas ou puérperas em 2020, mulheres que acabaram de dar à luz e que faleceram por conta dos efeitos da presença do vírus no corpo. Desses 63 óbitos, 38 eram gestantes e 25 estavam em estado puerperal (período que vai do deslocamento e expulsão da placenta em volta do organismo materno às condições anteriores à gravidez).

    As mortes ocorreram durante cesarianas antecipadas, em ambulâncias, a caminho de hospitais. Partes das gestantes nem chegaram a receber cuidados  em UTI, outras conseguiram dar à luz, mas não conheceram os filhos.

    Os dados trazem consigo uma preocupação: como suportar a ausência da mãe? E como alimentar os bebês recém-nascidos? Agora, as famílias olham para suas crianças, nascidas na pandemia, e enxergam nelas os traços das mulheres que se foram.

    André Azevedo, técnico em informática, é um desses pais que cria uma criança sem a presença da mãe. Aos 30 anos de idade, André conta que a pequena Zoe perdeu a mãe e ele perdeu uma companheira de anos de vida. “A Anne foi a minha primeira esposa. Tivemos um relacionamento ao todo de dez anos e tínhamos sete anos de casamento", conta ele.

     O viúvo conta que sua esposa contraiu o vírus ainda na gravidez. Apesar disso, ela teve a oportunidade de conhecer a filha. A pequena Zoe, filha do casal, nasceu no dia 8 de janeiro e Ane, sua esposa, faleceu no dia 13. “O parto foi cesárea. Como ela adquiriu a covid, a doença aproveitou para avançar devido às suas condições. Ela chegou a fazer vários testes, mas todos davam negativo, mas quando foi no dia 11, um dia antes de ela pegar alta, foi detectado que ela estava com o vírus”.

    O técnico em informática conta que durante os últimos meses da gravidez ele precisou levar a esposa ao hospital. “Na semana do parto ela foi várias vezes ao hospital, porque sentia falta de ar. As enfermeiras diziam que era porque a bebê estava grande, com isso os órgãos ficavam compactos, mas eu desconfiei que era a covid”.

     

    André e Ane tiveram um relacionamento de dez anos
    André e Ane tiveram um relacionamento de dez anos | Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

    Por ser um vírus recente, não há evidências que a covid-19 seja mais nocivo em mulheres grávidas do que em outras pessoas. Dados do monitoramento da covid-19 em grávidas e puérperas no Amazonas mostram que a FVS já contabilizou 2.081 casos de grávidas que contraíram o novo coronavírus. A taxa de letalidade é de 1,8%. Em relação às mulheres puérperas foram registrados 189 casos, alcançando uma taxa de letalidade de 13,2%.

    Uma enfermeira que não quis ter seu nome identificado, disse ao EM TEMPO que é triste a situação das mulheres que procuram o Instituto da Mulher Dona Lindú em Manaus. “Muitas mulheres chegam com falta de ar estando grávidas e é preciso ter cautela quanto ao uso de medicamentos nesses casos. Além disso, sofremos com a falta de sangue já que poucas pessoas estão doando nesse período”. 

    Brasil é o país que mais concentra mortes por covid em grávidas

    A pandemia pelo novo coronavírus já vitimou mais de 90 mil pessoas só no Brasil, segundo último levantamento do consórcio de imprensa. Cada vez mais novos estudos são publicados, seja para levantar o perfil das pessoas mais vulneráveis ao vírus, como para a descoberta de um medicamento ou vacina.

    Porém, um dado silencioso ecoa no Brasil. O país concentra 77% das mortes maternas pela doença registradas no mundo, segundo um estudo publicado na revista médica International Journal of Gynecology and Obstetrics . Apesar deste ser um levantamento parcial, pesquisadores estimam um salto sem precedentes na taxa de mortalidade materna brasileira em 2020.

    Segundo o Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe (Sivep-Gripe), existe ao menos 1.860 casos da doença notificados nesse grupo de mulheres no país até o último dia 14 de julho. 201 mulheres morreram durante os últimos meses da gestação ou no pós-parto após diagnóstico da covid-19. Agora, estes dados estão sendo utilizados para um estudo dos casos por um grupo de obstetras e enfermeiras de 12 universidades e instituições públicas, entre elas, Fiocruz, USP, Unicamp e Unesp, que acompanha a mortalidade materna durante a pandemia, informou a Folha de S.Paulo.


     Miss Praia da Ponta Negra Plus Size faleceu da Covid-19

     Outra perda significativa para uma família foi o caso da Miss Plus Size Praia da Ponta Negra de 2017, Andréia Bedirbor. A miss não está nas estatísticas de grávidas e puérperas citadas na reportagem, pois teve sua filha em junho de 2020, a pequena Yasmin de apenas nove meses. Ela faleceu em janeiro deste ano.

    “O grande sonho dela era fazer o aniversário da filhinha quando ela fosse completar 1 ano. Mesmo com as dificuldades financeiras, eu vou tentar fazer uma pequena comemoração para minha neta. Espero que a minha filha veja lá do céu”, conta a mãe Aurizinete Abtibol.

     

    Mãe de Andréia guarda com carinho a última foto da filha tirada com a sua neta
    Mãe de Andréia guarda com carinho a última foto da filha tirada com a sua neta | Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

    Aurizinete conta que a filha morava com o marido na Turquia, mas veio passar as férias em dezembro de 2019 perto dos seus pais. A pandemia estourou na Europa nessa época e Andreia e o marido tiveram que continuar em Manaus.

    “Ela teve a filha dela aqui. Como a pandemia atrapalhou a volta dos dois, eles continuam aqui, passaram as festas de fim de ano de 2020 também aqui conosco. Infelizmente essa doença não permitiu que ela voltasse. O marido também está com dificuldades de retornar ao país natal”, conta ela. 

     

    Andréia era casada com o turco Kamil Abdibor
    Andréia era casada com o turco Kamil Abdibor | Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

    Além de Miss Plus Size Praia da Ponta Negra, Andréia Bedirbor foi Miss Beleza Plus Size Norte em 2016 e Miss Plus Size Humaitá. A mãe hoje guarda as faixas da filha com muito carinho. “Ela era meu tesouro. Sentimos muita falta dela”.

     

    Aurizinete ou Net,  como prefere ser chamada, guarda com carinho as faixas de miss plus size da filha. Morte precoce deixou um vazio na vida dos pais de Andréia
    Aurizinete ou Net, como prefere ser chamada, guarda com carinho as faixas de miss plus size da filha. Morte precoce deixou um vazio na vida dos pais de Andréia | Foto: Hector Silva

    “Pãe” em dose dupla

     O vendedor Anderson Lima, 26 anos, perdeu a sua esposa para a covid-19 em 2020. Ela contraiu o vírus quando estava grávida do terceiro e quarto filho do casal, as gêmeas Ana Karoline e Ane Katarine. Além da dor de perder sua esposa, Anderson ainda ficou desempregado no período da pandemia. “Não está sendo fácil”, conta ele.

     

    A esposa de Anderson ainda chegou a alimentar as filhas
    A esposa de Anderson ainda chegou a alimentar as filhas | Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

    Anderson contou com a ajuda do projeto 'Eu Amo Meu Próximo', que já ajudou mais de 30 famílias em Manaus que sofreram com a morte da mãe por covid-19. A idealizadora do projeto Glauce Galucio vem pedindo ajuda a pessoas que possam doar produtos que ajudem estas famílias.

     

    Desempregado, Anderson cuida sozinho de duas crianças
    Desempregado, Anderson cuida sozinho de duas crianças | Foto: Arquivo Pessoal

    “A lista de necessidades dos pequenos órfãos, vítimas da Covid-19 em Manaus, inclui leite nestogeno 1 e 2, leite Ninho, leite NAM 1, leite Aptamil 1, Mussilon, cesta básica, alimentos perecíveis como: frango, carne, peixe e ovos, fralda tamanho P, M,G e XG e vitamina em gotas ou efervescente”, destaca.

    As doações podem ser agendas pelo telefone: (92) 99248-0221 e entregues na sede do Instituto de Pesquisa e Ensino para o Desenvolvimento Sustentável (IPEDS), localizado na Avenida Djalma Batista, número 4836, bairro Flores, Zona Centro Sul de Manaus.

     

    Projeto social entrega cestas básicas e outros itens necessários para famílias com crianças vítimas da covid-19
    Projeto social entrega cestas básicas e outros itens necessários para famílias com crianças vítimas da covid-19 | Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

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