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    Saúde feminina


    Mais de 150 mulheres sofreram violência obstétrica no AM, diz ONG

    Desde 2015, a ONG Humaniza Coletivo Feminista, registra casos de violência obstétrica e encaminha ao Ministério Público Federal. Apesar do número ser alto, a ONG acredita que o número pode ser ainda maior

    Um estudo da Ufam mostra que a cada dez mulheres entrevistadas, somente três reconheceram os abusos sofridos | Foto: Divulgação

    MANAUS - Um dos momentos mais importantes de uma mulher, a chegada de um filho ao mundo tem se tornado um pesadelo para as amazonenses.  O motivo é a violência obstétrica sofrida por muitas delas, causando traumas para ela e para a criança para o resto de suas vidas. Uma Organização Não Governamental (ONG) chamada 'Humaniza Coletivo Feminista' já registrou mais de 150 casos em todo o Amazonas, sendo 16 em 2020 e 39 em 2019. Mas esse número pode ser bem maior, isso porque a organização surgiu em 2015 e além disso, “há casos em que a mulher não denuncia”, conforme relata a presidente do Humaniza, Gabriela Repolho.

    A violência pode vir das mais diversas formas, segundo explica a membro do Humaniza Alessandrine Silva, desde o tratamento hostil de profissionais do hospital até a utilização de métodos já banidos pela Organização Mundial da Saúde.

    "Métodos como a episiotomia (um corte na região do períneo) e a manobra de Kristeller (técnica de pressão na região superior do útero, com objetivo de empurrar o bebê para fora) ”, afirma Alessandrine Silva. Apesar disso, há mulheres que não reconhecem as ações abusivas de alguns profissionais com violência obstétrica.

    Um estudo de mestrado da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) mostra que a cada dez mulheres entrevistadas, somente três reconheceram os abusos sofridos como violência obstétrica. “Algumas mulheres que sofrem a violência física precisam de uma cirurgia plástica de reconstrução. E na minha pesquisa eu encontrei uma mulher nesta situação. As sequelas psicológicas acontecem normalmente também, afetando a dignidade moral. Isso pode levar, inclusive, a depressão”, destacou a autora da pesquisa e mestre em Serviço Social, Maria Raquel da Silva.  

    O EM TEMPO entrou em contato com o Ministério Público Federal no Amazonas (MPF), em nota eles informaram que receberam 10 denúncias referentes a práticas de violência obstétrica em 2019 e outras 17 denúncias sobre o mesmo tema em 2020

    "Sofri violência obstétrica no nascimento da minha filha"

    Antes de ajudar a fundar a ONG Humaniza Coletivo Feminista, Gabriela Repolho teve seu primeiro filho em 2012. O que ela sofreu durante o parto motivou ela a aderir a causa. "Sofri violência obstétrica no nascimento da minha filha, em 2012. Fui proibida de ter um acompanhante no parto. Além disso, tive uma complicação e perdi a visão do lado esquerdo durante a cesárea. Isso me motivou para que em 2013, eu enviasse uma denúncia ao MPF pela Internet”.

     

    Gabriel Repolho fundou a ONG Humaniza Coletivo Feminista depois de sofrer violência obstétrica
    Gabriel Repolho fundou a ONG Humaniza Coletivo Feminista depois de sofrer violência obstétrica | Foto: Divulgação/MPF

    Apesar de ter dado início a denúncia, Gabriela acreditou que não teria continuidade. “Confesso que o fiz sem muita expectativa, pois a maioria das pessoas julgava que seria perda de tempo. Para a minha surpresa, recebi um ofício solicitando o relato detalhado do que aconteceu, pois seria aberto um procedimento administrativo para apurar os fatos”.

    A procuradora da República Bruna Menezes abraçou essa causa em parceria com o Ministério Público do Estado do Amazonas e em 2015 ocorreu a 1ª Audiência sobre o tema. Várias mulheres deram o seu depoimento, o MPF se comprometeu em realizar uma Audiência por ano. “Desde então a luta vem ganhando visibilidade”, conta Gabriela. Em uma segunda audiência ocorrida em 2016, vários órgãos assinaram um Termo de Cooperação e formaram o Comitê de Combate à Violência Obstétrica. “Foi o primeiro Comitê criado no Amazonas”, destaca a presidente da ONG.

     

    A procuradora da República Bruna Menezes participou da 1ª audiência pública sobre violência obstétrica no Amazonas
    A procuradora da República Bruna Menezes participou da 1ª audiência pública sobre violência obstétrica no Amazonas | Foto: Divulgação/MPF

    Muitas mulheres entraram na luta contra a violência obstétrica no Amazonas. Uma delas foi Alessandrine Silva. “Quando tive minha primeira filha meu marido não pôde estar comigo e quem estava era a minha mãe. Com isso, muitos profissionais do hospital me criticaram. Além disso, o médico que realizou meu parto me assediou falando que eu era muito bonita e que eu parecia com uma ex-namorada dele”, lembra Alessandrine.

    Apesar do constrangimento, a presidente da ONG Humaniza Coletivo Feminista diz que é preciso que as mulheres denunciem. "Algumas das denúncias acabam sendo arquivadas no hospital e isso incomoda. Por isso, pedimos a qualquer mulher que sofra de violência obstétrica no Amazonas procure-nos para formalizar essa denúncia", orienta. O atendimento pode ser feito no número: (92) 9882-33504.

    Denúncias podem correr na esfera cível e penal

    A advogada Ruth Rodrigues passou a se dedicar à causa da violência obstétrica quando sofreu um constrangimento no seu primeiro parto. “No nascimento da minha primeira filha, o médico quis realizar manobras que não são mais permitidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), foi a partir daí que eu vi como as mulheres sofrem em um momento tão importante”. Hoje, como advogada, Ruth defende mulheres na justiça que buscam indenização pela violência sofrida.

    Com mais de 7 mil seguidores, a página no Instagram 'Violência Obstétrica por Ruth' tem se tornado um meio de comunicação para alertar mulheres. “Muitas mulheres me relataram depois de visitar a página sobre as violências sofridas. Isso fez com que eu defendesse mulheres de todos os lugares do país”, conta ela

     

    A advogada Ruth Rodrigues criou página no instagram para falar sobre violência obstétrica após passar pelo transtorno
    A advogada Ruth Rodrigues criou página no instagram para falar sobre violência obstétrica após passar pelo transtorno | Foto: Reprodução/Instagram

    A advogada explica que a maioria das ações são conquistadas no âmbito judicial cível com indenização à vítima, mas é possível realizar pedido de indenização na esfera penal. “Em alguns poucos casos é possível indenização no âmbito penal, depende muito do caso. A maioria dos casos que eu peguei foi possível conseguir uma indenização no âmbito cível”.

    Sobre os casos 

    A Secretaria do Estado de Saúde (SES) informou, por meio de nota, que realiza sensibilização com os gestores das sete maternidades da rede estadual de saúde para adoção de estratégias no enfrentamento à violência obstétrica. Em agosto de 2020, os gestores assinaram um termo de compromisso e fizeram o juramento para garantir a implementação de medidas contra violência obstétrica, conforme rege a Lei Estadual nº 4.848/2019.

    A SES-AM  informou também que executa o monitoramento das denúncias de violência recebidas nas ouvidorias das maternidades, realiza rodas de conversas sobre o tema nas maternidades, além de trabalhar para o fortalecimento das ouvidorias e da comissão de sindicância que apura as denúncias e dá o encaminhamento necessário em cada caso.

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