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    Drama


    Desemprego na maioridade desafia jovens não adotados em Manaus

    Ao completar a maioridade, jovens que cresceram em abrigos precisam lidar com desafios, como encontrar um lugar para viver e administrar a própria vida financeira

    Arlisson cresceu em um abrigo de Manaus. Aos 18 anos ele já é funcionário de uma empresa | Foto: Hector Silva

    MANAUS - Completar 18 anos costuma gerar nervosismo e ansiedade para alguns jovens. É neste momento que as portas do mundo adulto começam a se abrir. Para os adolescentes que vivem em abrigos até os 18, chegar à maioridade traz um motivo a mais de ansiedade: poucos sabem onde irão viver depois da maioridade.

    Segundo dados fornecidos ao EM TEMPO pelo Tribunal de Justiça do Amazonas (Tjam), Manaus possui hoje 148 crianças e adolescentes que vivem em oito instituições de acolhimento. Dessas 148 apenas 39 podem ser adotadas.

    Ainda conforme o Tjam, há também 28 crianças e adolescentes acolhidos que 'são de difícil colocação em família substituta, seja por serem portadores de deficiência crônica ou estarem acima de 7 anos de idade'.

    Em se tratando de mercado de trabalho, as pessoas com deficiência ainda enfrentam muitos desafios. João Victor dos Santos é um exemplo disso. Com 21 anos ele sonha em trabalhar com informática “Sempre gostei de computadores”, conta ele

     

     Manaus possui hoje 148 crianças e adolescentes que vivem em oito instituições de acolhimento
    Manaus possui hoje 148 crianças e adolescentes que vivem em oito instituições de acolhimento | Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil

    João cresceu no abrigo Moacyr Alves junto com outras 60 crianças. Hoje ele vive em uma pequena casa. “No abrigo em que eu vivi eu tive a oportunidade de mexer em algumas máquinas. Era muito bom”, conta João.

    Obstáculos

    O  jovem não sabe como conseguir um emprego por conta da dificuldade de locomoção e devido à pandemia da Covid-19. Durante um momento da vida, ele até quis morar sozinho, foi quando ele e um irmão de abrigo decidiram depois de adultos ir morar em uma casa alugada. Apesar de desempregado, João conseguiu uma aposentadoria. “Não é muito, mas juntei dinheiro e comprei fogão, cama e outros objetos. Porém não deu muito certo morar lá e hoje vivo com a minha tia”, conta ele.

     

    João Victor é deficiente físico. Ele viveu por toda a vida em um abrigo
    João Victor é deficiente físico. Ele viveu por toda a vida em um abrigo | Foto: Hector Silva

    A tia a qual João se refere é a dona de casa Jocinara Texeira. Ela o conheceu no próprio abrigo Moacyr Alves. Por conta de um filho que também possui deficiência física, Jocinara se apegou ao jovem e há alguns meses o convidou para morar com ele. “O João é uma pessoa muito inteligente, mesmo com as dificuldades locomotivas, ele se vira e me ajuda também. É um rapaz muito bom”.

     

    Jocinara e Luan convidaram João Victor, recém adulto, para morar com eles
    Jocinara e Luan convidaram João Victor, recém adulto, para morar com eles | Foto: Hector Silva

    O marido de Jocinara recebeu João também com muito carinho. “Eu sei que ele um dia vai querer viver sozinho, mas queremos ajudar ele. Sei como as coisas são difíceis para ele. Até hoje ele também precisa de remédios”, contou o pintor automotivo Luan Carvalho.

     Um exemplo de vida e esperança

     No bairro Colônia Terra Nova, Zona Norte de Manaus, o abrigo O Pequeno Nazareno cuida atualmente de 10 crianças e adolescentes. Meninos que tiveram de ser afastados dos seus pais biológicos ou que foram abandonados por algum motivo. Desde 2013 existente em Manaus, o abrigo realiza atividades educativas e os acompanha até a vida adulta.

    “Só tem uma forma de tirarmos os meninos do trabalho infantil e fazer eles trabalharem de maneira legal. É inserindo eles em programas governamentais como o menor aprendiz. Desde 2017 fazemos o acompanhamento adequado”, contou um dos coordenadores do abrigo O Pequeno Nazareno, Kelen Farias.

    O abrigo já formou mais de 300 meninos entre moradores do abrigo e moradores da Colônia Terra Nova e bairros próximas. “Por aqui já passaram quase 600 pessoas e aqueles que cresceram no abrigo na grande maioria conseguem um emprego até antes dos 18 anos”, ressalta Kelen.

    Um desses recém adultos que receberam acompanhamento e tiveram sucesso na vida profissional é o assistente técnico de linha de produção, Arlisson de Deus. Hoje, com 18 anos, ele sonha em cursar Direito.

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    Eu cheguei no Pequeno Nazareno em agosto de 2016, com 13 anos. E desde muito cedo eu fui privado dos meus estudos. Eu vivia com a minha mãe e um irmão, mas nessas mudanças de endereço, mudando para o interior ou voltando para Manaus, os meus estudos foram quase prejudicados. Ainda bem que eu tinha consciência de que isso era importante e consegui terminar o ensino médio. "

    Arlisson de Deus, assistente técnico de linha de produção, Desafio dos não adotados

     

    Arlisson lembra que quando chegou no Moacyr Alves ele “temia” o nome abrigo. “Eu pensava que era um lugar onde só jogavam as crianças, com um muro alto que não trazia contato com mundo. Eu chorei muito antes de ir para o abrigo. Mas eles me acolheram e hoje eu sou o que sou também graças a eles”.

    Para se sentir em “casa”, O Pequeno Nazareno fez uma arte inspirada no garoto. “Eles me deram óculos porque eu tinha dificuldade de enxergar, me levaram ao médico. E o objeto se tornou uma marca minha. Fico feliz por todo o carinho que eles tiveram por mim e inclusive, ganhei um desenho meu na parede do abrigo”.

     

    Arlisson ganhou um desenho inspirado nele nas paredes do abrigo em que cresceu
    Arlisson ganhou um desenho inspirado nele nas paredes do abrigo em que cresceu | Foto: Hector Silva

    Hoje Arlisson é a inspiração para outros adolescentes que em breve estarão no mercado de trabalho. “Ele já foi como eu, menor aprendiz e depois ele foi subindo de cargo. Foi estagiário e agora é funcionário de uma empresa. Quero seguir os mesmo passos que ele”, contou Pablo Yuri, morador do abrigo.

     Implantação de repúblicas “pouco estimulantes”

    Um relatório feito em janeiro deste ano sobre menores sob a guarda do Estado, lançado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) avalia que os resultados da implantação de repúblicas para jovens que alcançaram a maioridade são “pouco estimulantes”. A pesquisa avaliou que em 2018, existiam apenas 30 unidades que prestavam serviços de preparação de jovens crescidos em abrigos para o mercado de trabalho. Somente 19 municípios foram bem avaliados e Manaus, assim como todas as capitais da região norte e centro-oeste não possuem este serviço ofertados pelo poder público.

    Há projetos de lei sobre o tema no Congresso Nacional. Um deles, do senador Eduardo Girão (Podemos-CE), quer priorizar, na seleção do serviço militar, egressos dessas instituições.

     

    Em todo o Brasil casais tendem a adotar crianças entre 0 e 2 anos de idade
    Em todo o Brasil casais tendem a adotar crianças entre 0 e 2 anos de idade | Foto: Reprodução/Internet

    Busca da criança 'ideal'

    De acordo com Ainda segundo a juíza Rebeca de Mendonça, do  Juizado da Infância da Juventude Civil, um dos problemas no momento da adoção, pode ser considerada a busca por uma idade de criança ideal.

      "A grande dificuldade é porque há um número muito grande de pessoas habilitadas que indicam como preferência crianças de 0 a 2 anos de idade, o que é mais difícil de encontrar dentre as crianças que já estão aptas a serem adotadas e já estão inscritas no Sistema e Adoção e Acolhimento (SNA). Por isso a conta não bate”, explica.  

    O trabalho de preparar essas crianças e adolescentes não adotadas fica então por conta das Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP). Segundo o coordenador de uma das Oscips, O Pequeno Nazareno, Kelen Farias, essas crianças e adolescentes ficam sob a tutela dos abrigos.

    O EM TEMPO identificou oito instituições de acolhimento de crianças e adolescentes. A maioria informou que encaminha os jovens para o Centro de Educação Tecnológica do Amazonas (Cetam). E duas delas realizam este trabalho dentro do próprio abrigo.

    São as Oscips: o Pequeno Nazareno e as Aldeias Infantis S.O.S. Esta última, inclusive, extinguiu a função de abrigo infantil e voltou todo o seu trabalho para o apoio a estes jovens.

     

    Aldeias Infantis S.O.S realiza treinamento de jovens que vivem não só em situação de abrigo
    Aldeias Infantis S.O.S realiza treinamento de jovens que vivem não só em situação de abrigo | Foto: Divulgação/ Aldeias infantis S.O.S

    A psicóloga Ane Souza da Aldeias Infantis conta que a inserção desses adultos no mercado de trabalho é um trabalho possível, mas há casos de não adotados que possuem dificuldades. “Quando as Aldeias Infantis fecharam o abrigo, existiam dois adolescentes. Um deles foi adotado e hoje mora na França e outro adolescente possui necessidades especiais. Então ele não sabe ler, nem escrever. Inserir um jovem desse no mercado de trabalho é um desafio enorme, mas continuamos tentando. Hoje ele está no abrigo Moacyr Alves estudando e sendo cuidado. Ele ainda não atingiu a idade de 18 anos”, conta ela.

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