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    Cheia histórica


    Moradores da orla de Manaus são castigados pela cheia do Rio Negro

    Moradores dos bairros do Educandos e São Jorge relatam o descaso em que vivem com a possibilidade de uma cheia histórica, que pode ser maior que a de 2012

    | Foto: Brayan Riker

    Manaus - Com as intensas chuvas e com o Rio Negro ultrapassando a cota de inundação severa de 29 metros, os moradores da orla de Manaus já conseguem sentir o efeito da cheia amazônica no dia a dia.

    Em relatos, feitos ao Portal EM TEMPO, a população expõe a insegurança e as condições precárias em que estão vivendo, tendo que lidar com o risco de se depararem com animais peçonhentos, além da água com forte odor dentro das casas.

    Além de terem que lidar com a pandemia do novo coronavírus, os moradores dos becos Manuel Urbano e Ajuricaba, no bairro do Educandos, Zona Sul de Manaus, vivem com pontes improvisadas, feitas com restos de madeiras das casas, e que podem despencar a qualquer momento no rio.

    “Estamos enfrentando esse problema há anos. E agora com o aumento da chuva, com certeza, a enchente vai ser grande e nós necessitamos de uma ajuda. É preciso que refaçam a ponte, pois ela é enorme. Caso não seja feita, ficaremos isolados”, relata o líder comunitário Dirceu Paes.

    Outro morador que sofre com o problema há anos é Odney Martins, de 74 anos, conhecido como ‘seu Belém’.

     

    | Foto: Brayan Riker
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    "Moro há 40 anos no bairro e nunca foi resolvido nada. Todos os anos passamos por isso. Estamos cansados e precisamos de uma ponte, de uma limpeza nesses rios, que estão poluídos. É cobra, rato e barata durante a noite. Não dormimos tranquilos. Já encontrei cobra dentro da minha casa e temos que conviver com isso” "

    Odney Martins, morador do bairro Educandos

     

    A autônoma Maria Antônia Farias, de 64 anos, pediu para a equipe de reportagem entrar na casa dela para mostrar o drama em que vive. A idosa, que compartilha a casa com mais cinco pessoas, mora em uma palafita e conta que não dá para ter móveis ou eletrodomésticos, pois em época de cheia sempre estraga tudo e acaba tendo prejuízo.

     

    | Foto: Brayan Riker

    “Eu já não tenho quase nada. Não dá pra ter sofá. E sempre perdemos as coisas, é muito triste”. A autônoma ainda mostra a marca feita com prego na parede da casa de onde a água do rio costuma atingir, podendo chegar até os joelhos dos moradores da residência. 

     A idosa ainda relata mais um drama: com um “quintal” para o rio poluído, a palafita vizinha está tombado em direção a casa dela, com o risco de desabar e causar um grande acidente para ambas as famílias. “Ao ficarmos aqui, corremos risco de tudo, mas não temos para onde ir, e o que nos resta é confiar em Deus”, revela a moradora. 

     

    | Foto: Brayan Riker

    Moradores manifestam por ponte

    “Queremos ponte” é a frase que entona a manifestação dos moradores dos becos Jesus Me Deu e Jacaré, no bairro São Jorge, Zona Oeste da cidade.

    Os moradores se reuniram com diversos cartazes na calçada da avenida São Jorge, pedindo para que o poder público dê alguma resposta sobre a condição precária em que vivem. O morador Carlos André, de 45 anos, expõe uma situação arriscada que uma criança sofreu há alguns dias devido a cheia ter se intensificado: o menino João quase foi atacado por um jacaré.

    “Se não fosse o pastor da nossa igreja, o João tinha sido comido pelo jacaré. Ia ser uma tristeza muito grande para a família desse menino”, conta.

     

     

    | Foto: Brayan Riker

    Em um local com pontes destruídas e diversos focos de alagação, a mãe de João, Patrícia de Souza, demonstra indignação pela situação e declara que a está insustentável a forma em que estão vivendo.

    “A situação está insustentável. Estamos tendo que conviver até com jacarés. Se não fosse o pastor gritar para avisar, o animal tinha levado meu filho para o fundo. Nós só queremos uma ponte para não ter mais que passar por isso. Ficamos juntando pedaços de tábuas de cada vizinho para ter um lugar para passar, só queremos uma ponte digna, apenas isso”. 

    O pastor da igreja da comunidade, Walcir da Rocha Coutinho, que salvou o menino João de ser atacado por um Jacaré, compara o cenário com uma guerra, e não pede nem a ponte pronta. Declara que só de fornecerem a madeira já será uma grande ajuda para os moradores.

    "Nós estamos enfrentando uma guerra contra essa água que abriga jacaré, cobra, e outras coisas mais. Só precisamos de uma ponte e se não puder construir, pode mandar a madeira que nós mesmos fazemos. Se tiver a madeira, a gente faz", pede Rocha.

     

    | Foto: Brayan Riker

    A cheia de 2021 pode ser maior que a de 2012

    O Rio Negro atingiu a cota de inundação severa, chegando a 29, 03 metros, na sexta-feira (30). De acordo com o Serviço Geológico do Brasil (CPRM), a cota do Rio Negro em Manaus, pode chegar a 30,05 m nos próximos dias, ultrapassando a maior cheia da história de Manaus, registrada em 2012, quando a cota do rio atingiu 29,97 m. 

    O responsável por medir o Rio Negro, há mais de 35 anos, Valderino Pereira, acredita na possibilidade da cheia de 2021 ultrapassar a de 2012 e ser a maior cheia em 100 anos. "Há uma possibilidade da cheia de 2021, ser maior que a de 2012, porque está faltando menos de 1 metro para atingir os 29,97m, da de 2012. Caso isso aconteça, será maior cheia em 100 anos", relata Pereira. 

    Segundo os dados divulgados pelo CPRM, a previsão é que a cota mínima seja de 29,50 m, podendo variar entre 30,00 e a máxima de 30,05 metros. A pesquisadora do Serviço Geológico do Brasil, Luna Gripp, também acredita que há a possibilidade de chegar na cheia de 2012, e que a probabilidade é de 56%. 

     

    | Foto: Brayan Riker

    “É provável que a cheia chegue nas magnitudes de 2012. Temos 56% de probabilidade de encarar esse cenário, é uma probabilidade bem alta. Vamos nos preparar para que isso ocorra”, declara Gripp.

     

    O cenário já reflete nos bairros da cidade, como os expostos Educandos e São Jorge, e também começam a atingir o Centro de Manaus, como a rua dos Barés que recebeu as águas do Rio Negro nas suas vias. A pesquisadora afirma que essas áreas enfrentam a cota de inundação e a cota de inundação severa, quando os primeiros danos são observados e quando a inundação provoca danos graves.

    A previsão é que o Rio Negro pare de encher em junho. No entanto, a possibilidade pode se estender até julho ou atingir a cota máxima em maio, como foi o caso de 2012.

    "Tem diversos estudiosos estudando, mas ninguém conhece a natureza. E eu sempre me surpreendo com ela. Mas pelos dados que nós temos, cerca de 76% das cheias, atinge sua máxima em junho. 18% no mês de julho, e os 5% no mês de maio. A cheia de 2012, chegou ao seu ápice no final de maio. Então não temos um dia certo para atingir a máxima", afirma Valderino.

     

    | Foto: Brayan Riker

    Operação Cheia Manaus 2021

    Depois do alerta do CPRM, a Prefeitura de Manaus afirmou que está monitorando 15 bairros da área urbana e 17 da zona rural ribeirinha. Em nota, o comitê afirma que está trabalhando em um plano de ações emergenciais para minimizar os impactos dos moradores de áreas afetadas pelo Rio Negro.

    A Defesa Civil do Estado e município declaram que trabalham em conjunto para fazer um planejamento de ações de prevenção, preparação, resposta e recuperação dos locais que podem ser atingidos.

     

    | Foto: Brayan Riker

     “Neste alerta já temos um prognóstico mais perto da realidade que enfrentaremos na cheia deste ano. Com isso, há um planejamento para trabalharmos com a cota acima de 30 metros, com vários pontos de alagações. E a Defesa Civil de Manaus tem trabalhado desde janeiro para preparar a cidade para a maior cheia, mesmo que não tenhamos”, afirmou o secretário executivo da Defesa Civil, coronel Fernando Júnior.

    O Portal EM TEMPO entrou em contato com a prefeitura para questionar quando será feita a ação nos bairros citados ao longo da matéria, no entanto, não obteve resposta até o fechamento. 

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