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    MÊS DO ORGULHO


    Amazonas é o terceiro estado com mais mortes violentas de LGBTI+

    Junho é o 'Mês do Orgulho' para pessoas LGBTI+, mas membros desta comunidade no Amazonas não tem muito do que se orgulhar. O Estado está entre os que mais registra homotransfobia

     

    Marcha LGBT realizada na Ponta Negra, em 2017
    Marcha LGBT realizada na Ponta Negra, em 2017 | Foto: Divulgação


    MANAUS - Novo relatório publicado pelo Grupo Gay da Bahia mostra que o Amazonas está em terceiro lugar no ranking de estados brasileiros com mais mortes violentas de pessoas LGBTI+. Os dados se referem a 2020, durante a pandemia de covid-19 e apontam apenas os casos veiculados em notícias oficiais. 

    Além do terceiro lugar no ranking nacional, o Amazonas, com sete mortes violentas registradas, ocupa a primeira posição quando a comparação é feita apenas em estados da região Norte do País. Em seguida, vêm Pará (4),  Tocantins (3), Roraima (2), Rondônia (2), Amapá (1), Acre (1).

    Para alcançar os dados, o Grupo Gay da Bahia coletou informações em sites de notícias, associações LGBTI+ e postagens nas redes sociais. O perfil das vítimas e a causa das mortes também foram catalogados na pesquisa, quando os dados analisados continham essas informações.

     

    Minoria LGBTI+ é vítima de preconceito e outras violências
    Minoria LGBTI+ é vítima de preconceito e outras violências | Foto: Divulgação
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    É inegável o rastro de sangue LGBTI+ derramado em território nacional, a ponto do país aparecer na liderança de tais crimes no mundo, sem que haja por parte do Estado brasileiro uma sinalização quanto às medidas mais urgentes para evitar essa tragédia neste grupo específico, apesar de existirem ações voltadas à população em geral "

    Grupo Gay da Bahia, Relatório 2020

     

    De acordo com os dados,  das 237 mortes no Brasil documentadas pelas pesquisa, 215 foram homicídios (90,71%), 13 por suicídio (5,48%)  e nove latrocínios (3,79%). As principais formas violentas de morte foram por disparo de arma de fogo (88), esfaqueamento (48), espancamento (19) e estrangulamento (13). 


    Seres humanos

    Assim como na pandemia de covid-19, o excesso de números pode prejudicar a visualização do cenário, em especial quando há vítimas. Mas, as pessoas apresentadas no relatório eram filhos(as), irmãos(a), namorados(a) e possuíam outras relações de parentesco e companheirismo.  

    O caso mais recente de homotransfobia que ocorreu em Manaus é datado de abril. No dia 24, a jovem Andresa Santos foi assassinada a pauladas no Centro da cidade. A irmã da vítima, Evalcilene Santos, acredita que a motivação da morte tenha sido o preconceito.

     

    Andresa foi morta em abril deste ano
    Andresa foi morta em abril deste ano | Foto: Reprodução

      O sonho de Andresa era terminar os estudos e se tornar esteticista.  

    "A Andresa sofria muito preconceito, mas como diziam as amigas dela, a minha irmã não baixava a cabeça. Eu imagino que, durante a noite de sábado, ela tenha sofrido ataques transfóbicos e tenha reagido. Por isso, foi morta a pauladas", afirmou a irmã, em entrevista anterior ao EM TEMPO.

    Segundo a parente, o sonho de Andresa era não morrer cedo, como ocorre com outras mulheres trans e travestis. A expectativa de vida deste grupo é de 35 anos. A jovem foi morta aos 36. O caso ainda está sendo investigado pela Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS).


    Corpos trans alvos de violência

    O perfil de Andresa está em primeiro lugar no número de mortes violentas, segundo o relatório do Grupo Gay da Bahia. Dos 237 óbitos em 2020, 161 (70%) eram de mulheres trans ou travestis. 

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    O principal motivo é que essas pessoas são as de corpo mais exposto. A partir do momento que você se assume trans, o corpo começa a passar por uma série de violências. E quanto mais você se expõe, maiores serão os ataques "

    Joyce Lorane, presidente da Associação de Travestis, Transexuais, e Transgêneros do Amazonas (Assotram)

     

    Ela explica um conceito chamado 'passabilidade', que significa quando um membro da comunidade LGBTI+ consegue passar despercebido pelos espaços, sem que outras pessoas notem sua sexualidade ou identidade de gênero. Quanto mais uma pessoa é 'discreta', ou 'se parece' com uma mulher não trans, menos chance ela terá de sofrer preconceito. 

     

    Para entender a diferença entre identidade de gênero e orientação sexual
    Para entender a diferença entre identidade de gênero e orientação sexual | Foto: Waldick Junior/Em Tempo


    Perfil das vítimas

    Do total de mortes registradas (237), a maioria é de jovens (32,91%), seguidos por uma faixa etária de meia-idade, 31 a 35 anos (24,89%). Por fim, pessoas de 46 anos ou mais representam 8,2% das perdas de membros da comunidade. 

     

    Orientação sexual ou identidade de gênero das vítimas
    Orientação sexual ou identidade de gênero das vítimas | Foto: Divulgação

    Do total de mortes registradas (237), a maioria (34,18%) não contava com a idade da vítima. Dentre os casos com essa informação, as perdas de jovens ficaram em primeiro lugar, representando 32,91% dos óbitos. Em seguida, estão as pessoas de meia-idade, entre 31 a 45 anos (24,89%) e vítimas acima de 46 anos (8,02%). 


    Homotransfobia velada no Amazonas

    Para encontrar mais dados específicos sobre o Amazonas, o EM TEMPO solicitou dados de crimes de homotransfobia ocorridos no Estado, desde 2019, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) tipificou o delito como crime de racismo. O pedido foi feito à Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM), órgão responsável por gerir informações sobre crimes no Amazonas. 

    A secretaria retornou a solicitação com a informação de não terem sido registrados, oficialmente, crimes de homotransfobia em 2019, 2020 e 2021, no Amazonas. Esse dado da não existência dos casos vai ao desencontro do que dizem entidades, como o Grupo Gay da Bahia e Assotram, já apresentadas nesta reportagem. 

     

    Delegacia geral de Polícia Civil do Amazonas
    Delegacia geral de Polícia Civil do Amazonas | Foto: Divulgação

    Para a ativista Karen Arruda, o Amazonas não registra dados oficiais de homotransfobia por falta de instrução e até dificuldade das entidades públicas em reconhecer a existência desses crimes. Ela é presidente do Manifesta LGBT, grupo que atua em defesa de políticas públicas para LGBTQI+ em Manaus. 

    "Acredito que o principal problema é a falta de instrução dos servidores ao atender essas populações durante as denúncias. Por causa desse despreparo, muitas pessoas LGBT têm medo de denunciar violências que sofreram, porque sabem que não serão tratadas como deveriam", afirma ela.

     

    O Manifesta LGBT presta assistência a pessoas da sigla em vulnerabilidade social
    O Manifesta LGBT presta assistência a pessoas da sigla em vulnerabilidade social | Foto: Divulgação

    Segundo Karen, mesmo quando algum membro do Manifesta LGBT acompanha o denunciante a uma delegacia, ocorrem desrespeitos. Um deles é a dificuldade de servidores em respeitarem o nome social de mulheres e homens trans. 

      "Mesmo com o acompanhamento de uma assistente social do grupo, ainda há esse tratamento ruim, imagine eles indo sozinhos?", Questiona a ativista.  

    Os únicos dados referentes à população LGBTI+ e crimes são a quantidade de boletins de ocorrência registrados por essa população no Amazonas. Não há tipificação oficial por homofobia ou transfobia, como dito, mas os principais delitos da lista dão a entender que os registros podem envolver preconceito. Isso porque, as principais ocorrências são ameaça, injúria, calúnia e difamação. Ao total, foram 22,3 mil boletins, em apenas um ano (março de 2020 a março de 2021). 


    Como procurar ajuda

    Caso sofra violência LGBTfóbica e queira formalizar a agressão, o primeiro passo é ir à Delegacia Especializada de Ordem Política e Social (Deops), localizada na Avenida Pedro Teixeira, 180, Conjunto Dom Pedro l, Planalto. O número para contato é o (92) 3214-2268.

    Na delegacia, haverá o registro do boletim de ocorrência onde a vítima poderá identificar seu nome social; nome civil; informar sexo e identidade de gênero. Em seguida, o caso é encaminhado para exame de corpo de delito, no Instituto Médico Legal, quando se trata de agressão, e posteriormente à Justiça, para os trâmites legais. 

    Leia mais: 

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