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    Projeto fracassado


    Pesquisador descobre antiga Ceasa abandonada no Distrito Industrial

    Processo de investigação feito em registros históricos mostra que obra entregue em 1975 tinha além de rampa de acesso de embarcações, uma central de abastecimento de alimentos e outras vantagens

     

    Inaugurado no dia 28 de fevereiro de 1975, no governo de João Walter, o Centrais de Abastecimento do Amazonas S.A. (Ceasa)  era definido por um jornal local
    Inaugurado no dia 28 de fevereiro de 1975, no governo de João Walter, o Centrais de Abastecimento do Amazonas S.A. (Ceasa) era definido por um jornal local | Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

    MANAUS - De 1972 a 1988 o Governo Federal, por meio da então Cobal (Companhia Brasileira de Alimentos) criou um grande projeto para áreas portuárias que foi gerenciado pelo Sistema Nacional de Centrais de Abastecimento (Sinac). Eram 21 empresas de sociedade anônima, denominadas Centrais de Abastecimento S/A – Ceasa. Todas eram estaduais e uma delas foi implementada no Distrito Industrial, no coração da Zona Franca de Manaus.

    Inaugurado no dia 28 de fevereiro de 1975, no governo de João Walter, o Centrais de Abastecimento do Amazonas S.A. (Ceasa)  era definido por um jornal local como um “gigantesco complexo” devido a sua importância para os consumidores, produtores e comerciantes. A ideia da Ceasa era eliminar a figura do atravessador, deixando assim o produto mais barato. 

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    Longe de ser uma Ceasa como a que vemos hoje, que é praticamente uma rampa de acesso a balsas e pequenas embarcações, era uma Ceasa que funcionava como um centro de abastecimento "

    Thiago Oliveira Neto, geógrafo, pesquisador e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana da USP

     

    Segundo o pesquisador, o local tinha toda uma estrutura no passado. “Localizado no Distrito Industrial, próximo onde hoje é o porto da Ceasa, o local foi preparado para receber as mercadorias que vinham oriundas dos ribeirinhos e também pelos caminhões que iam começar a trafegar pela BR-319. A estrada já estava sendo concluída, inclusive com pavimentação. Era uma ligação com Rondônia e demais estados brasileiros”, destaca o pesquisador.

     

    Vista aérea no Google Earth onde era localizado a antigo Ceasa
    Vista aérea no Google Earth onde era localizado a antigo Ceasa | Foto: Divulgação

    Thiago Oliveira Neto vem se dedicando a pesquisas voltadas a transportes na Amazônia e a BR-319. Durante sua pesquisa, Neto descobriu sobre o projeto da Ceasa. “Eu estava fazendo um levantamento de informações, fotografias e recorte de jornais antigos sobre a BR-319. Foi quando eu descobri esse projeto de construção de uma Ceasa. As gerações mais novas nunca ouviram falar dessa infraestrutura que foi a Ceasa. Não enquanto porto, mas enquanto uma estrutura onde havia a comercialização de produtos. E essa estrutura hoje encontra-se abandonada”.

    Os recortes de jornais coletados por Neto em suas pesquisas mostram também que a antiga Ceasa era mesmo um local de comércio intenso. Poucos anos após sua inauguração em 1975, o local abria para a população em geral. 

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    Todas as sextas e sábados era aberta ao consumidor em geral, muitos moradores do bairro iam fazer suas compras lá, aproveitando a COBAL "

    Thiago Oliveira Neto, Geógrafo e pesquisador

     

     Nos recortes de jornal encontrados pelo pesquisador é possível encontrar também sobre a estrutura do local. “A Ceasa funcionará em sua primeira etapa com Armazém, Mercado Livre, Armazém depósito de movimentação, frigorífico, ambulatório, segurança e vestiários, oficina de manutenção, garagem e depósito, administração, lojas, restaurante, supermercado, portaria de controle interno, portaria de controle de acesso pelo rio, posto de gasolina, tanque de abastecimento d'água, via de acesso totalmente no concreto e um amplo estacionamento". (Jornal do Comércio, sábado, 25 de Janeiro de 1975)

     O abandono

    Durante os primeiros anos, a Ceasa se tornou um ponto muito frequentado por quem buscava produtos diretos do produtor, mas com o passar do tempo foi perdendo os seus clientes. “Por volta dos anos 80 a estrutura ainda funcionava”, conta o pesquisador.

    O local que foi apresentado como uma solução para o abastecimento da capital aos poucos foi sendo abandonado. A edição número 33621 do Jornal do Comércio de 4 de junho de 1985 traz uma opinião sobre a feira do Ceasa.

    “O projeto da feira do Ceasa, do Governo Federal, onde a maior acionista é a Cobal, seguida pelo Estado, a Prefeitura e a Suframa, que participam da administração, é um completo fracasso. Dos 400 feirantes, que se instalaram quando foi inaugurado em 1975, hoje restam apenas 15 no completo abandono e a espera de um comprador”. (Jornal do Comércio, terça, 4 de junho de 1975)

     

    Vista aérea mostra como era a Ceasa em 1975
    Vista aérea mostra como era a Ceasa em 1975 | Foto: Reprodução/Arquivo pessoa

    O geógrafo destaca que a feira da Ceasa teve seus anos ruins no final da década de 70 e começo da de 80. "A virada dos anos 70 e 80 teve muitos problemas”.

    O doutor em História do Programa de Pós-graduação em História Social da Universidade Federal Fluminense, Otoni Mesquita, acredita que a Ceasa foi perdendo espaço para outras feiras que surgiram na cidade. “Foram surgindo novas feiras que eram muito mais eficazes”.

    Em suas pesquisas, Oliveira Neto também constatou o mesmo. "Penso que o abandono ocorreu em decorrência da existência de outras propostas públicas que existiam nas décadas de 80-90, como a construção das vias de acesso da Manaus Moderna, deslocando os feirantes e os compradores para o centro da cidade, fazendo com que surgissem novas feiras em diversas zonas da cidade".

    Na edição 22992 do Jornal do Comércio de 22 de maio de 1980, uma reportagem mostra também que a feira do Ceasa foi objeto de debate de uma sessão legislativa na Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (Aleam). Na época, o diretor técnico e financeiro do Ceasa, Gabriel Correia, foi convocado pela casa. Na pauta haviam muitas críticas a higiene do local e os preços praticados. “Todos sabem que a Ceasa encarece os custos porque não comercializa a varejo mas só a atacado”, dizia o jornal.

     

    Jornais da época criticavam o projeto Ceasa do Governo Federal
    Jornais da época criticavam o projeto Ceasa do Governo Federal | Foto: Divulgação/Jornal do Commercio

    O terreno onde antes era a antiga Ceasa é ocupado hoje por empresas, pequenos comércios e transportadoras. Na opinião do geógrafo, o espaço poderia ter sido reaproveitado durante a cheia. “Penso que a existência de uma outra feira com um amplo local para os vendedores e compradores como era a Ceasa, é fundamental hoje, pois a cidade possui 2,2 milhões de habitantes. A feira da Manaus Moderna ficou alagada neste ano e hoje já existem diversas ruas e linhas de ônibus entre a Zona Leste e o Polo Industrial”.

     

    Vista aérea onde antes funcionava a antiga Ceasa. O local hoje é ocupado por empresas, armazém de containers e carretas.
    Vista aérea onde antes funcionava a antiga Ceasa. O local hoje é ocupado por empresas, armazém de containers e carretas. | Foto: Brayan Riker


    Resposta dos órgãos

    O EM TEMPO buscou uma resposta sobre a situação em que se encontra a antiga Ceasa e também o porto da Ceasa. A prefeitura de Manaus informou que os dois locais não estão sob os seus cuidados e sim sobre a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ). O governo do Estado não respondeu aos nossos questionamentos. Também tentamos entrar em contato com a Antaq e não tivemos retorno até o fim desta reportagem.

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