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    Problema social


    Pequenos 'invisíveis': crianças se arriscam no trânsito por trocados

    Crianças arriscam suas vidas nos sinais de Manaus, no entanto, conseguem ‘arrecadar’ até R$ 250 por dia com trocados doados por motoristas no trânsito

     

    Na Compensa foi possível flagrar uma criança vendendo trufas em um sinal de trânsito
    Na Compensa foi possível flagrar uma criança vendendo trufas em um sinal de trânsito | Foto: Brayan Riker

    MANAUS - Um estudo feito pela ONG Visão Mundial aponta a existência de 70 mil crianças em situação de rua em todo o Brasil. Os dados foram obtidos em 2019. Com a chegada da pandemia, especialistas acreditam que esse número tenha aumentado. Com o fechamento das escolas e a falta de uma alternativa a essa frequência escolar, essas crianças estão mais sujeitas a ir para as ruas do que antes.

    Nas ruas de Manaus todos os dias é possível assistir a mesma cena: crianças chegam até as janelas dos carros pedindo algum dinheiro. Enquanto elas arriscam suas vidas entre os veículos, os manauenses passam no conforto dos seus carros, ônibus ou motocicletas e notam, sem realmente enxergar, a situação de pobreza que a família dessas crianças estão passando. No entanto, conforme apurado pelo EM TEMPO, elas podem ‘arrecadar’ até R$ 250 por dia com trocados doados por motoristas no trânsito.

    O EM TEMPO foi às ruas à procura dessas crianças. Não é preciso procurar muito, logo a reportagem os encontra. Em um sinal na rua Belém com a avenida Brasil, bairro Compensa, Zona Oeste de Manaus, o pequeno E.S.S de apenas oito anos se arrisca entre os carros quando o sinal para. Ele leva consigo uma caixa de isopor. Dentro, trufas de diversos sabores que, segundo ele, são feitas pela sua mãe. Sozinho, sem a supervisão dos pais, E.S.S vende seus produtos por R$ 2 cada. Ele diz que é com isso que a mãe paga as contas da casa.

     

    Crianças pedindo dinheiro no trânsito de Manaus
    Crianças pedindo dinheiro no trânsito de Manaus | Foto: Brayan Riker

    “Eu preciso trabalhar para ajudar em casa. Lá só vive eu e meus irmãos. Enquanto minha mãe trabalha eu e meus irmãos vamos vender as trufas", conta.

    E.S.S diz que tem medo do Conselho Tutelar e por isso ele não para em um lugar. “Eles já me levaram para uma casa e chamaram a minha mãe para conversar. Eles vêm e tiram fotos e depois eles saem. Eu vim aqui hoje, mas nem sempre fico por aqui", conta o pequeno, mesmo desconfiado com a nossa reportagem.

    Em outro ponto da cidade foi possível encontrar P.P.S de 6 anos e a irmã L.P.S de 8 anos. Desconfiado, o garoto fala pouco com a reportagem. “Minha mãe está ali. Eu ajudo ela”. A mãe que não quis se identificar logo nos aborda. “Vocês são de onde? Eu não tenho que dar satisfação para vocês”. A família estava em um sinal na rua dos Cravos com a avenida Cosme Ferreira, na Zona Leste de Manaus.

     

    Em alguns sinais é possível encontrar mais de uma criança pedindo dinheiro
    Em alguns sinais é possível encontrar mais de uma criança pedindo dinheiro | Foto: Brayan Riker

      Segundo a assistente social, Regiane Rabelo, que trabalha na Associação Beneficente O Pequeno Nazareno, instituição privada e sem fins lucrativos que ajuda crianças em estado de vulnerabilidade, a maioria das crianças e famílias moram no bairro Colônia Antônio Aleixo, Zona Leste de Manaus, mas elas costumam escolher pontos específicos para pedir dinheiro.  

    “A maioria delas transitam entre a Zona Centro-Sul e a Oeste. A região da entrada do Conjunto Tiradentes na Zona Leste também é um ponto que eles gostam de ficar. Eles já conhecem alguns pontos que é mais fácil de receber dinheiro, tanto em situação de mendicância, quanto de trabalho infantil”, explicou.

    "Já cheguei a ganhar R$ 250 em um dia"

    Conversando com alguns conselheiros tutelares, o EM TEMPO descobriu que a Zona Oeste é uma área onde eles costumam receber muito dinheiro. É lá que L.S.C de 15 anos costumava pedir. “Começamos a pedir dinheiro em um sinal na Ponta Negra. Minha mãe não conseguia emprego quando começou a pandemia. Foi aí que uma vizinha falou sobre pedir dinheiro no sinal. Depois de algum tempo, eu me acostumei a pedir. Eu passei a ganhar mais dinheiro do que a minha mãe ganhava quando fazia faxina. Às vezes ganhava rancho também. Já cheguei a ganhar R$ 250 em um dia, mas quando conseguia dois ranchos, eu parava”, conta a garota.

     

    L.S.C relata que crianças conseguem arrecadar em torno de R$250 por dia nos sinais
    L.S.C relata que crianças conseguem arrecadar em torno de R$250 por dia nos sinais | Foto: Hector Silva

    Segundo o conselheiro tutelar da Zona Oeste, Cosme Ferreira, o  alto valor recebido acostumou muitas crianças a continuarem pedindo dinheiro no sinal. “Tens dias, principalmente aos fins de semana, que é possível encontrar de vinte a trinta crianças nos sinais. Nós fazemos o trabalho de orientar. A gente também encaminha para a secretaria para eles terem o acompanhamento desses familiares. Só que depois de dois, três dias eles voltam às ruas, mudam de sinal para despistar o Conselho Tutelar e continuam fazendo mendicância porque eles saem com 200 a 300 reais todos os dias. Isso se tornou um vício”, conta.

    G.S.S de 14 anos está acostumado a fazer malabarismo com outras crianças. Os pontos escolhidos por eles são os sinais no Parque 10 e alguns na Ponta Negra. Segundo o jovem, o dinheiro que ganhava além de ajudar em casa, sobrava para ele. “Como não tinha comida em casa, comecei assim para ganhar dinheiro, depois consegui bastante para ajudar em casa e também para mim. Eu gosto de ter minhas coisas”.

     

    É com essas mãos que G.S.S faz malabarismo nos sinais de Manaus. Ele aprendeu a arte ainda muito criança
    É com essas mãos que G.S.S faz malabarismo nos sinais de Manaus. Ele aprendeu a arte ainda muito criança | Foto: Hector Silva

    Na opinião do sociólogo Luiz Antônio, a solução para tirar as crianças das ruas é o município disponibilizar creches. “Tem cidade no Brasil com 17 mil habitantes e seis creches municipais. Manaus tem dois milhões de habitantes e não tem seis creches. O poder público pode fazer isso, mas a criança não é prioridade”.

    Perigo

     

    Crime ocorreu na última sexta-feira
    Crime ocorreu na última sexta-feira | Foto: Reprodução

      As crianças que pedem no sinal estão todos os dias sujeitas também a olhares maldosos, como ocorreu na última sexta-feira (16). Uma criança de nove anos foi sequestrada e estuprada, no bairro Nossa Senhora das Graças, Zona Centro-Sul de Manaus. O criminoso, identificado como Railson Gama da Silva, 31 anos, foi preso.  

    O crime ocorreu dentro de uma Fiorino, na rua Rio Madeira. A vítima foi raptada nas proximidades de um semáforo, onde a mãe dela pedia dinheiro. A menina se debateu dentro do veículo e conseguiu escapar e pediu ajuda da população.

    Resposta do município

    O EM TEMPO entrou em contato com a prefeitura de Manaus para saber sobre quais ações estão sendo feitas para retirar essas crianças das ruas. Em nota, a Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Cidadania (Semasc)  informou que um trabalho é realizado em parceria com instituições da Rede de Proteção, criando ações de enfrentamento para assegurar que crianças e adolescentes tenham um desenvolvimento saudável, assistindo, também, seus núcleos familiares, considerando que a família que passa pela violação de direito do trabalho precoce também é permeada por outras problemáticas.

    O município informou ainda que viabiliza um trabalho voltado para todo esse núcleo familiar, permitindo o acesso a políticas de emprego e renda, saúde, educação, lazer, dentre outras cabíveis, visando manter a família longe de qualquer forma de exploração.

    Sobre a crítica do sociólogo sobre a falta de creches, a prefeitura informou que a Secretaria Municipal de Educação (Semed-Manaus) trabalha para ampliar as vagas da rede municipal de ensino, em especial para a Educação Infantil. "Prova disso, é que a Secretaria também estuda firmar convênio com entidades filantrópicas para garantir novas vagas para creches. Cada nova creche gera o acréscimo de 200 vagas para crianças de até 3 anos (maternal)".

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