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    MACONHA, CANABIS OU BAGULHO?

    Escritor e empresário
    Luiz LauschnerEscritore empresário

    O noticiário recente revela uma grande hipocrisia quando se trata de remédios. Pessoas com necessidade de tratamento com medicamentos que levam maconha em sua fórmula se veem na mesma situação dos dependentes em entorpecentes que precisam adquirir clandestinamente suas drogas.

    Lembro quando cheguei ao Amazonas e fui morar na cidade de Maués. No início dos anos oitenta ela vivia o auge do garimpo do ouro, com um quilo de guaraná em grão valendo o valor de um grama de ouro e a febre corria solta. Não somente a febre do ouro, como também a febre terçã, ou o paludismo que todos conhecem por malária. Um médico novato na cidade pensava em pedir exames para diagnosticar a doença de um paciente quando a faxineira olhava para ele e diagnosticava: “Né seu Toinho, desta vez ela veio mais fraca. Pegou uma Vivax, não foi?” Embora não houvesse malária no perímetro urbano, a população aprendera a distinguir os sintomas da PlasmodiumVivax da PlasmodiumFalciparum, as duas modalidades de malária que causavam devassa entre os garimpeiros. O médico mal saído da residência aprendia com a população. Dificilmente alguém morria da doença, mas ficava sem trabalhar por muitos dias, às vezes semanas ou meses.

    A doença enfraquecia o indivíduo, agredia seu fígado deixando-o anêmico e sem apetite, mesmo quando já não habitava nele. Para despertar o apetite havia dois tipos de chás: carapanaúba ou maconha. Fumar a maconha causa euforia, algumas alucinações. Contudo, passado este efeito vem a chamada larica que nada mais é que um apetite exagerado onde o usuário engole o que aparecer na frente. O chá tem um efeito mais brando, mas, na época costumava ser mais fácil de adquirir que a casca da árvore da carapanaúba que também age para abrir o apetite.

    O efeito do chá da maconha como estimulante do apetite é tão conhecido entre os nativos que é usado até em crianças que se negam a comer. Outros efeitos? Não se conhece; Causa dependência? Não mais que o chimarrão e com certeza muito menos que a bebida alcoólica. Quando criança todos tomamos o conhecido Elixir Paregórico em algum momento. O princípio ativo era o ópio, droga muito mais forte e muito mais viciante que a maconha. Alguém tem notícia de algum adulto quebrando farmácia para roubar o elixir?

    Nunca provei drogas ilícitas porque muito jovem fui convencido do efeito delas por professores. Um professor de química nos assustava com a droga da moda, o LSD dizendo que o efeito era tão devastador que uma única dose permanecia no organismo por mais de oitenta dias. O terrorismo foi suficiente afastar qualquer curiosidade que tivesse. Por outro lado, também havia os que falavam algo parecido sobre as drogas lícitas, como os antibióticos e as vacinas. Os naturalistas afirmavam que estas drogas atrofiavam a capacidade de reação do organismo. Como se mandassem o corpo parar de reagir para se entregar aos remédios.

    Os naturalistas da época eram chamados hippies e só bem mais tarde visitaram a Amazônia e conheceram os efeitos dos remédios naturais. Contudo, o que se observa é uma grande hipocrisia quando se demoniza uma planta cujos efeitos ainda não terminaram de ser estudados. Se a Anvisa não permite o uso de plantas medicinais é porque seus componentes fazem parte da geração que simplesmente abomina a medicina caseira da mesma forma que a Igreja abominava as curandeiras, tachando-as de bruxas. A bem da verdade, os responsáveis por esta portaria proibitiva deveriam analisar a procedência de muitos outros remédios porque assim descobririam que a natureza está embutida nos frascos tidos como sintéticos.Um pouco de bom senso evitaria que pais desesperados precisassem burlar leis hipócritas para aliviar os sintomas dos filhos doentes.

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