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    Concílio Vaticano


    Artigo: Trajetória de um sonho

    João XXIII seja talvez o Papa mais revolucionário da Igreja Contemporânea. É, pois, a trajetória de seu sonho: A paz entre as Igrejas e espírito aberto ao outro

    Escrito por Carmen Novoa no dia 24 de janeiro de 2021 - 21:03

     

    | Foto: Divulgação

    Neste estudo sobre João XXIII é inconteste afirmar ter sido, em meu conceito, o Papa mais revolucionário da Igreja Contemporânea. Por isso, o concílio Ecumênico Vaticano II convocado por ele há cinquenta anos exatos, foi considerado como o mais revolucionário. Congregou 2.540 bispos de todo o mundo.

    Para o sínodo a palavra-chave era “aggiornamento”, ou seja, atualização da liturgia e da Igreja à realidade do povo de Deus (clérigos e leigos) e principalmente nortear-se pela unidade. Para que não exista radicalismo entre as religiões ou entre ateus e agnósticos. Para que se encontre sempre algo a unir os pensamentos mesmo que seja tão somente (e tão importante!) a performance humanista.

    Por que isso foi possível? Muitos ainda se perguntam. “Sem um pouco de santa loucura não pode a Igreja alargar seus caminhos e crescer em multidões” dizia o “Bom João”. Por este motivo, com audácia, liberdade e com espírito de apóstolo encetou o íngreme caminho. Neste não faltaram o que chamou de “profetas de desventuras”, como chamou a certa ala eclesial adepta ao conservadorismo e hermetismo da Igreja, que enxergava futuros-malefícios ao espírito católico cristão as rédeas soltas em campos evangelizadores da era moderna. Passo então a listar algumas situações e pronunciamentos moldados em ecumenismo de João XXIII antes de tornar-se papa.

    É, pois, a trajetória de seu sonho: A paz entre as Igrejas. Atitudes e raciocínios e espírito aberto ao outro. “Em qualquer lugar do mundo em que eu me encontrar, se alguém passar diante de minha casa de noite, em condições angustiosas, encontrará em minha janela, uma luz acesa. Bate, bate! Não te perguntarei se és católico ou não. Bate, entra! Dois braços fraternos te acolherão e um coração quente e amigo te fará festa (João XXIII quando visitador apostólico na Bulgária de povo 95% cristão ortodoxo). “E que resposta o senhor me dá a respeito dos dois milhões de judeus poloneses que vocês estão exterminando?” (João XXIII ainda arcebispo questionando o embaixador alemão Von Papen em 1941, sobre as atrocidades nazistas).

    Aos 13 anos de idade já no seminário registrou o iniciar de sua história de vida num caderno de capa dura que denominou de “Diário de uma alma”.

    Ao longo do tempo transformou-se numa obra de 38 volumes de notas – “O relato consciencioso do diálogo muito íntimo e franco entre um cristão e seu Deus.” Ainda sacerdote demonstrou espírito inovador quando criou a “Liga das Mulheres Operárias” a “Associação para a proteção de Mulheres Jovens e uma Casa de Maternidade”. E ingressou na luta pela fundação de um sindicato de metalúrgicos em Bérgamo visando “à livre organização dos trabalhadores cristãos”.

    Como arcebispo em 1936 estabeleceu diálogo com os cristãos ortodoxos: “Todos são igualmente convidados a participar do banquete da doutrina divina.” Ele ofereceu o “beijo da paz” ao patriarca ortodoxo de Constantinopla Benjamin I como símbolo de ecumenismo. Primeiro passo para a conciliação após nove séculos.

    Ainda arcebispo, em 1942, trabalhou junto com o rei Bóris ajudando a retirar da Bulgária 24.000 judeus. Anos depois o rabino-mor de Israel, Dr. Isaac Halevy Herzog, enviou ao já pontífice uma calorosa carta lembrando sua ajuda na tentativa de salvar judeus romenos dos nazistas. Como cardeal em Veneza em 1953, visitando a Câmara Municipal constatou que ali não havia apenas católicos, mas protestantes, comunistas e os não-religiosos. Saudou-os assim: “Aqui encontram-se alguns de outros credos. Mas quem trabalha para uma boa causa mesmo ateu é um bom cristão. Assim, dou sem distinção minha benção paternal”.

    Para possuir esse espírito pacificador somente sensibilidade nata. Muita sensibilidade. E as mãos em chamas... 

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