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    Resistência


    Tradição e amor definem o Carnaval da Vitória Régia

    Colecionando 13 títulos ao longo de 43 anos, a escola de samba da Praça 14 continua unindo gerações por meio da paixão pela bandeira verde e rosa

    Manaus – Tradição. Palavra que define bem a relação do Grêmio Recreativo Escola de Samba (G.R.E.S) Vitória Régia com o Carnaval de Manaus. Foi na Praça 14 de Janeiro, Zona Sul da cidade, que nasceram os primeiros movimentos carnavalescos da região. Na década de 40, negros alforriados chegavam à capital do Amazonas e concentravam-se em comunidades no bairro, onde a cultura dos batuques trazida por eles dava forma ao samba de bateria, como o ritmo que conhecemos hoje. Décadas após, a Vitória Régia continua sendo sinônimo de resistência e identidade.

    Escola de Samba Vitória Régia
    Escola de Samba Vitória Régia | Foto: Marcely Gomes


    Completando 44 anos em 2019, a escola já soma 13 títulos ao longo da estrada no samba. “A escola está mais adulta, mais madura, somos mais antigos em atividade e seguimos preparados. As demais irmãs (escolas de samba) que se preparem porque a bronca esse ano vai ser alta”, disse o presidente do grêmio recreativo, Didi Redman.

    Enredo 

    Em 2019, a bandeira verde e rosa traz como tema os 70 anos da Rede Calderaro de Comunicação. De acordo com o presidente, a história da empresa deve ser contada usando a lenda amazônica da Vitória Régia para brincar com as possibilidades da pessoa (representado pelo "Seu Humberto Calderaro") querer ser, sonhar e se transformar. A ideia é trazer em forma de samba o nascimento da Rede Calderaro, passando por sua consolidação no mercado, até os dias atuais onde jornalismo e tecnologia já andam de mãos dadas.

    Bateria show promete arrepiar o público no sambódromo
    Bateria show promete arrepiar o público no sambódromo | Foto: Marcely Gomes


    Ainda de acordo com Didi, a escola deve apresentar um lindo e luxuoso Carnaval. Para isso, conta com a ajuda do carnavalesco da escola – Jr. Thompson, e ainda com Cahê Rodrigues, carnavalesco do Grêmio Recreativo Imperatriz Leopoldinense, no Rio de Janeiro.

    Inovação

    Conhecido no cenário carnavalesco da cidade como um dos melhores profissionais em produção, Jr. Thompson já atua há 7 anos no time verde e rosa. Colecionando mais de 30 anos de memórias do Carnaval na capital, ele conta que a relação com a Vitória Régia é diferente pois faz parte da geração que deu início à vida da escola de samba, lá na década de 40. A relação familiar com a bandeira verde e rosa faz ele se dedicar ainda mais aos trabalhos, que contam com um ajuda especial neste ano.

    Tradição e amor definem o carnaval da Vitória Régia, o berço do samba
    Tradição e amor definem o carnaval da Vitória Régia, o berço do samba | Foto: Marcely Gomes


    “Poder trabalhar ao lado de Cahê tem sido uma troca profissional muito proveitosa. Ele faz o Carnaval do Rio de Janeiro que é o considerado o maior do Brasil, e logo depois vem o de Manaus. Então é bom preparar o coração porque não entraremos na avenida para brincadeira. Esse ano apresentaremos 23 alas, 4 alegorias, 1 tripé, 3 alas sincronizadas e uma comissão de frente. Outra surpresa que já pode ser revelada é que todas as fantasias da escola foram desenhadas em Manaus, mas estão sendo produzidas diretamente no Rio de Janeiro”, revela o carnavalesco.

    Tradição

    Durante os ensaios da escola, que acontecem às terças-feiras, sextas-feiras e domingo, não é difícil encontrar frutos das tradições do bairro. Dona Maria de Nazaré conta que dos 72 anos de idade, pelo menos 35 são dedicados às festividades do Carnaval verde e rosa. Filha de pai e mãe sambistas, ela foi mais um dos olhos que testemunhou o nascimento do Carnaval na cidade por meio da Escola Mixta da Praça 14, o primeiro grêmio de Carnaval da cidade.

    A baiana mais antiga da Verde e Rosa
    A baiana mais antiga da Verde e Rosa | Foto: Marcely Gomes


    “Meu pai chegou em Manaus vindo do Maranhão ainda no nascimento aqui do bairro, lá na década de 40 ou 50 e aqui conheceu minha mãe. Ambos eram apaixonados por samba então não tinha como ser diferente para mim. Eu lembro que quando ainda não havia quadra, todas as noites as merendeiras. conhecidas hoje como ‘Baianas’, armavam suas barracas de guloseimas na praça, e ali mesmo o povo se reunia e começava um batuque. Foi assim por 14 anos, até que nasceu a Vitória Régia”, explica dona Maria de Nazaré que tem o posto de baiana mais antiga da escola.

    A Vitória Régia fica na Praça 14 de janeiro
    A Vitória Régia fica na Praça 14 de janeiro | Foto: Marcely Gomes


    E os ciclos de tradições parecem mesmo não ter fim. Ainda segundo a baiana, os 35 anos de Vitória Régia foram suficientes para inspirar os filhos e netos a também se apaixonarem pelo grêmio. Dois dos filhos de Maria de Nazaré tocam na bateria da escola, e a neta mais nova já desfila como passista mirim.

    “Antigamente a gente usava o termo ‘brincar carnaval’ porque era realmente uma diversão. Descíamos e subíamos a Av. Eduardo Ribeiro onde a festa acontecia nesse clima de competitividade. Hoje a data vem virando uma espécie de torneio profissional”, conclui Maria.

    Responsabilidade Social 

    A responsabilidade da escola não se limita apenas às comemorações festivas. A Vitória Régia oferece ainda serviços de inclusão socioeducaional por meio de aulas de música aos novos integrantes que querem fazer parte da bateria, além dos esportes oferecidos gratuitamente aos moradores da comunidade.

    Atletas dão aulas na quadra da escola de samba para os jovens da comunidade
    Atletas dão aulas na quadra da escola de samba para os jovens da comunidade | Foto: Marcely Gomes


    Essa é a missão de Rodrigo Fogaça e Anderson Simões, bicampeões brasileiros de muay thai que decidiram unir a experiência com as lutas e proporcionar qualidade de vida ao bairro.

    “Nós dois criamos esse projeto como forma de frear o número de jovens envolvidos com a criminalidade na Praça 14, e graças a Deus vem dando certo. Após dois anos de projeto já formamos campeões nas modalidades de MMA, muay thai, luta livre, jiu-jitsu e judô”, ressaltam os atletas.

    O projeto insere os jovens do bairro no esporte
    O projeto insere os jovens do bairro no esporte | Foto: Marcely Gomes


    Os treinos acontecem de forma gratuita, das segundas às sextas-feiras, com turmas a tarde e também a noite. Qualquer pessoa a partir dos 7 anos de idade pode participar e para se inscrever basta chegar ao local do treino, na quadra da escola de samba, rua Emílio Moreira, Bairro Praça 14 de Janeiro, Zona Sul da cidade, e procurar os professores.

    Edição Bruna Souza

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