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    Ensino


    Ensinar jornalismo pode estimular o olhar crítico dos estudantes do AM

    Professoras do curso afirmam que para se tornarem bons profissionais, os jornalistas precisam de uma formação crítica no Ensino Superior

    Ao fazer jornalismo, o aluno aprende que notícias devem ser objetivas e precisam mostrar diversos lados da mesma história | Foto: Divulgação

    Manaus – Em um momento difícil para o Jornalismo brasileiro, em que profissionais da área sofrem constantes agressões verbais e físicas – até mesmo do presidente da República, Jair Bolsonaro – é preciso refletir cautelosamente sobre a formação de futuros jornalistas e como o olhar crítico destes será necessário para reconhecer abusos e fortalecer a profissão. Professoras do curso em Manaus defendem a importância do ensino crítico no Jornalismo.

    A professora na Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e coordenadora do curso de Jornalismo no Centro Universitário UniNorte Manaus, Edilene Mafra, afirma que o curso voltou a sua essência quando, no ano de 2013, as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) foram atualizadas pelo Ministério da Educação (MEC). “Elas eram do ano de 2001, já estavam ultrapassadas e essa mudança trouxe um gás que nos fez voltar à base”, conta.

    Edilene Mafra ao lado de alunas na Central Multimídia da UniNorte
    Edilene Mafra ao lado de alunas na Central Multimídia da UniNorte | Foto: Divulgação

    Edilene ressalta que a base do jornalismo está em sua formação humanística e crítica, então as práticas e técnicas só podem ser utilizadas quando os alunos já reconhecem aquilo que é essencial. “Não adianta saber manusear as técnicas sem a base crítica. O aluno e o profissional acabam não desenvolvendo muito, os trabalhos ficam sempre na superficialidade”, explica.

    Segundo a professora, o momento é tenso para os jornalistas brasileiros, mas historicamente sempre foi assim. Edilene acredita que as provocações ocorrem mediante a importância da profissão na validação da democracia e da cidadania. “O jornalista revela o que está acontecendo, torna público. Ele faz valer um direito fundamental, que está na Constituição brasileira: o direito à informação”, salienta.

    Fotógrafo Dida Sampaio, do jornal O Estado de S. Paulo é agredido e xingado no Palácio do Planalto
    Fotógrafo Dida Sampaio, do jornal O Estado de S. Paulo é agredido e xingado no Palácio do Planalto | Foto: Jorge William/O Globo

    De acordo com Manoela Moura, professora de Jornalismo na UniNorte, em sala de aula, o primeiro passo para aguçar o olhar crítico dos alunos é buscar promover debates. Ela afirma que os estudantes vivem diferentes realidades, contam com diferentes crenças e ideologias e isso torna o debate um exercício democrático significativo.

    “Se o aluno se limita apenas ao quadrado dele, pode correr o risco de estar alienado as verdadeiras questões que se apresentam na sociedade. É permitido discordar de opiniões, mas, para se tornar um bom profissional, é preciso entender que há uma pluralidade de ângulos, e que é importante considerar isso”, declara a professora.

    Professora de Jornalismo na UniNorte, Manoela Moura
    Professora de Jornalismo na UniNorte, Manoela Moura | Foto: Divulgação

    Monoela evidencia que, o jornalista que conta com uma formação crítica no Ensino Superior, consegue enxergar potenciais histórias a serem relatadas de forma humanizada em sua carreira profissional. “No exercício da profissão, ele consegue retratar realidades que muitas vezes são esquecidas. Escuta aqueles que precisam ser ouvidos e apresentam um olhar mais aprimorado ao prestar esse serviço à sociedade”, descreve.

    A professora de Jornalismo Ivânia Viera, formada pela Ufan e vice-coordenadora do Progama LigAção – Comunicação, Meio Ambiente e Cidadania na Amazônia, assegura que o diálogo é o método utilizado em suas aulas para exercitar a visão crítica nos alunos. “Utilizo-me do diálogo. Não no sentido de ser o último recurso retirado de uma maleta de ferramentas do aprendizado, e sim compreendido como desafio cotidiano de ensinar e aprender mutuamente ao qual, professores e estudantes, nos submetemos”, esclarece.

    Professora de Jornalismo na UFAM, Ivânia Vieira
    Professora de Jornalismo na UFAM, Ivânia Vieira | Foto: Divulgação

    Segundo Ivânia, na perspectiva freiriana, dialogar é diferente de transmitir algo a alguém, ao outro. Estando, na verdade, diretamente vinculado à ideia de transformação a partir de uma conduta de ação e reflexão que problematiza o conhecimento. Nesse sentido, o diálogo é instância de tensão na busca de superar a relação desigual entre os que dialogam.

    “No Jornalismo, na formação universitária ao aprendizado no exercício profissional diário, o instrumento diálogo ganha importância singular. Nos retira de um lugar acomodado a algumas certezas consolidadas sobre o outro (seja o parlamentar, o governador, o prefeito, o bispo, o pastor, o pesquisador, professor; seja a família condenada antecipadamente por morar na ‘área vermelha’, a garota violada porque não se vestia adequadamente). É o ato de desnudar as verdades absolutas, construídas com ajuda da própria mídia, para melhor revelar o que está oculto”, analisa Ivânia.

    "Na formação universitária ao aprendizado no exercício profissional diário, o instrumento diálogo ganha importância singular", explica Ivânia
    "Na formação universitária ao aprendizado no exercício profissional diário, o instrumento diálogo ganha importância singular", explica Ivânia | Foto: Divulgação

    Ivânia atesta que, se no processo de formação, o olhar vai se desvelando em contínua busca do conhecer, compreender e agir jornalístico, o fruto desse trabalho será expressão de uma atividade que respeita o interesse público. “É nosso dever exercitar obstinadamente a verificação e aprender sobre o que é e qual o valor da liberdade, irmã da solidariedade e que juntas, entranhadas na sociedade e nos jornalistas, desmantelam governos autoritários. A tarefa dos jornalistas permanece: assegurar a construção e circulação de notícias confiáveis, equilibradas, compreensíveis”, finaliza.

    Ataques e agressões

    As constantes agressões, estimuladas pelo próprio presidente da República, Jair Bolsonaro, contra a imprensa, levaram o Grupo Globo e o Grupo Folha a retirarem seus repórteres da cobertura da entrada do Palácio da Alvorada, em Brasília.

    As agressões são verbais e físicas e causam danos à integridade dos profissionais
    As agressões são verbais e físicas e causam danos à integridade dos profissionais | Foto: Marcos Corrêa/PR

    Separados apenas por uma grande da claque que se aglomera em busca de atenção do presidente, os jornalistas têm sido alvos de xingamentos, ironias e ameaças. Mas, na última segunda-feira (25/05), a hostilidade passou do tom  — o que levou os dois veículos a tomarem a decisão de proteger seus profissionais.

    Em nota, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) apoiou a decisão dos dois grupos. “Esses ataques ganharam corpo e se tornaram mais graves, havendo, inclusive, agressões físicas a repórteres por parte da claque bolsonarista (…). A ABI saúda esta decisão e parabeniza as Organizações Globo e o Grupo Folha”.

    Projetos na Câmara

    Foram apresentados na Câmara dos Deputados, esta semana, três novos projetos para aumentar a punição para quem agride jornalistas. Ao todo, cinco propostas foram apresentadas em maio pelos deputados com o fim de garantir a liberdade de imprensa.

    Três novos projetos foram apresentados para aumentar a punição para quem agride jornalistas
    Três novos projetos foram apresentados para aumentar a punição para quem agride jornalistas | Foto: Marcos Corrêa/PR

    Um dos Projetos de Lei, PL 2982/20, assegura a presença dos profissionais de imprensa nos eventos e pronunciamentos públicos em área reservada, com credenciamento próprio e segurança específica, vedando qualquer tipo de seletividade ao profissional ou veículo de comunicação.

    Apresentado pelo deputado Elias Vaz (PSB-GO) e mais 12 deputados do PSB, a proposta fixa pena de reclusão de 12 a 30 anos para quem matar jornalista ou outro profissional da imprensa no exercício ou em função da profissão.

    Além disso, prevê que a ofensa à integridade corporal ou à saúde de jornalista ou de outro profissional de imprensa será punida com reclusão dois a quatro anos e pena de detenção de um a três anos para a agressão verbal contra jornalista – pena que será aumentada de 1/3 se o ataque ocorrer pelas redes sociais.

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