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    Educação


    João Paulo, 1º indígena a defender doutorado em Antropologia na Ufam

    A defesa será on-line pelo Google Meet, e pode ser acompanhada através do Youtube

     

    | Foto: Divulgação

    Manaus - João Paulo Lima Barreto é o primeiro indígena a defender uma tese de doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia,  da Universidade Federal do Amazonas (PPGAS/Ufam). A defesa será on-line, nesta quinta-feira (4), às 14h, pelo Google Meet e pode ser acompanhada através do Youtube.

    A tese é Intitulada "Kumuã na kahtiroti-ukuse: uma 'teoria' sobre o corpo e o conhecimento-prático dos especialistas indígenas do Alto Rio Negro".

    A banca é formada pelos professores da Ufam, Gilton Mendes dos Santos (orientador), Carlos Machado Dias Júnior e Deise Lucy Oliveira Montardo; pelo professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), docente Geraldo Luciano Andrello e pela professora da Universidad Nacional Mayor San Marcos (Lima/Peru), Luisa Elvira Belaunde. 

    O trabalho é fruto de nove anos de pesquisas na pós-graduação e entende que os povos indígenas têm um modelo epistemológico diferente daquele adotado na educação formal. “A minha tese mostra que o conhecimento indígena funciona em uma outra lógica, com sua própria epistemologia e seus próprios conceitos".

    "O ponto de partida é entender como o corpo é compreendido por seus operadores dentro dos conhecimentos indígenas. Trago a forma com que os indígenas, sobretudo, do Alto Rio Negro entendem o corpo e o porquê é importante entendermos o corpo para construirmos uma vida de qualidade e de equilibrio. Na medida que eu consigo entender o que eu sou, posso construir uma relação com o meu entorno. O conceito de corpo, do ponto de vista indigena, não é apenas biológico. Para nós, o corpo é a síntese de todos os elementos que existem (água, terra, floresta e animal)”, enfatizou.

    O doutorando falou que é recente o olhar para os conhecimentos indígenas com o esforço de tentar entendê-lo.

    “Estamos lidando com dois modelos de conhecimento diferentes. O nosso, indígena, construído via oralidade, e  o modelo ocidental, preponderantemente construído  via escrita. Esse modelo ocidental sempre olhou para outros modelos de conhecimentos como não-ciência porque, aparentemente, não cumprem com requisitos considerados fundamentais como a objetividade"

    "Daí, vem o fato dos não-indígenas olharem para o nosso conhecimento como algo que não tem lógica, conceitos formais ou experimentação, mas consideramos esse ponto de vista equivocado”, explicou o discente João Paulo.

    Ao descrever o processo de construção do trabalho, o professor Gilton Mendes, orientador do discente João Paulo, falou da necessidade da universidade se manter aberta aos  diferentes modos de conhecimento.

    “Temos uma parceria longeva e com isso foi possível estabelecer um ciclo de intensa interlocução e diálogo, em ambientes formais e informais. Uma relação de muito respeito e aprendizado mútuo com um esforço de construção de uma relação simétrica".

    "Eu aprendi muito e fomos motivados, juntos, por uma ideia inicial  de construir um trabalho baseado nos conhecimentos indígenas de autoria própria indígena. João Paulo representa uma possibilidade real de ingresso do pensamento indígena, ou melhor do ‘sujeito de conhecimento indígena’, dentro da academia para poder estabelecer ou fazer enxergar novos horizontes e novas janelas de compreensão do mundo”.

    Trajetória

    Nascido na comunidade São Domingos, no Alto Rio Negro, etnia Yepamahsã (Tukano), João Paulo é graduado em Filosofia e mestre em Antropologia Social pela Ufam. Ao relembrar sua trajetória, falou das dificuldades e do encontro com a Antropologia.

    “Eu entrei no mestrado querendo entender esse modelo de concepção de conhecimento, chamado Ciência, a partir do nosso modelo indígena. Depois do trabalho de campo, realizado no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), percebi que eu não tinha muito embasamento “teórico indígena” para interpretar e analisar aquelas práticas que eu estava acompanhando no laboratório".

    "Nesse momento entrei numa certa crise e, pensando em conjunto, eu e o professor Gilton Mendes, entendemos que era preciso voltar para o meu mundo de conhecimento indigena e entender e sistematizar melhor os próprios conceitos indígenas que poderiam me dar base para interpretar tudo aquilo”, destacou.

    Sobre esse retorno às origens, João Paulo decidiu trazer o seu pai para ajudar a resgatar os conhecimentos indígenas.

    Academia Eurocêntrica e o Antropoceno

    No que diz respeito à orientação de um indígena dentro de uma academia eurocêntrica, o professor Gilton Mendes relatou que é preciso entender o sistema e abrir janelas possíveis.

    O professor explicou que os indígenas vêm para a Pós-Graduação com uma experiência histórica de aprimoramento, compreensão e conquista do sistema científico.

    “Eles chegam na pós-graduação como estudantes, bem sucedidos, do sistema de educação formal,  e aqui reside o maior desafio. Na minha experiência, com meus orientandos, o primeiro exercício, o mais duro e sistemático, é fazer com que o aluno indígena  enxergue e elabore, em termos conceituais – digamos assim –  os referenciais de conhecimento, epistemológicos, práticos, teóricos da sua tradição, e isso não é uma coisa trivial. Muitas vezes, os tímpanos não suportam este mergulho".

    Outro ponto relevante no trabalho do doutorando João Paulo são as noções que vão de encontro ao pensamento moderno que coloca o homem como sendo o centro das relações, sem considerar os demais seres. O professor Gilton explicou que o pensamento indígena nos ajuda a entender que esse modelo centrado no homem já deu provas do seu limite e da sua exaustão, que não se sustenta.      

    Políticas Afirmativas

    Inicialmente, João Paulo não estava interessado em Antropologia, inclusive, após terminar Filosofia na Ufam cursou até o quarto período de Direito na Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Entretanto, houve uma aproximação com a Antropologia a partir do seu encontro e das provocações do professor Gilton e  dos convites de palestras no Núcleo de Estudos da Amazônia Indigena (NEAI/Ufam). Em 2010, surgiu o edital de mestrado com vagas para indígenas no PPGAS,  um dos primeiros programas da Ufam a instituir essa política pública.

    O professor Gilton lembrou que o processo de construção de políticas voltadas aos indígenas inclui uma série de fatores.

    “O que antecede tudo isso é o fato de que quando decidimos abrir vaga de Pós-Graduação para indígenas, nós levamos em consideração que o PPGAS está inserido na Amazônia, cuja realidade indigena foi um dos fatores que motivou a criação do próprio Programa na Ufam. As vagas específicas para indígenas atende a uma reparação social e histórica, porém, mais do que isso, a possibilidade de abrir espaço para novas formas e concepções de mundo e, consequentemente, de produção do conhecimento. A presença dos alunos indígenas enriquecem a Antropologia e contribuem com a inovação da disciplina”, enfatizou.   

    *Com informações da assessoria

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