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    ATRASO


    Quase 100% das comunidades ribeirinhas não tem acesso à internet no AM

    Análise publicada pela Unicef e FAS mostra cenário atual de ensino básico em cinco municípios do Estado

    Nas escolas analisadas, sinal de internet ainda é uma realidade distante | Foto: Reprodução

    Com uma amostra de cinco municípios distintos, entre os 62 municípios do Amazonas, o ‘censo escolar da floresta’ apresenta um retrato da educação rural em todo o Estado
    Com uma amostra de cinco municípios distintos, entre os 62 municípios do Amazonas, o ‘censo escolar da floresta’ apresenta um retrato da educação rural em todo o Estado | Foto: Reprodução


    Manaus – Promover educação de qualidade aos mais distantes recantos do país ainda é um desafio árduo no Brasil em pleno século XXI. Regiões mais pobres e afastadas, praticamente esquecidas pelo poder público, são as que mais sofrem com a falta de acesso que vai da tecnologia à alimentação básica.

    Por isso, desvendar o cenário atual da educação rural no interior do Estado foi o que inspirou pesquisadores da Fundação Amazonas Sustentável (FAS) e da Fundação das Nações Unidas para a Infância (Unicef) a desbravarem as áreas mais profundas de cinco municípios amazonenses – Itapiranga, Maraã, Maués, Novo Aripuanã e Uarini – e conhecer a fundo a realidade sobre o ensino de crianças e adolescentes nessas localidades.

    Salas de aula precárias e abafadas, sem nenhuma climatização, serviço irregular de abastecimento de água e energia nas escolas, merenda escolar escassa ou inexistente e até carência de professores e gestores são os cenários vividos no interior do Amazonas.

    Mapeamento

    O resultado do levantamento dessas informações foi o que gerou a publicação “Recortes e Cenários Educacionais em Localidades Rurais Ribeirinhas do Amazonas”, uma espécie de ‘censo escolar da floresta amazônica’ que foi lançado nesta semana em Manaus, durante o “Seminário Internacional Acesso e Conclusão da Escola Secundária: os desafios e possibilidades do campo”, organizado pela Unicef e que reuniu profissionais e especialistas em educação de todo o país na Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

    Seminário Internacional Acesso e Conclusão da Escola Secundária: os desafios e possibilidades do campo.
    Seminário Internacional Acesso e Conclusão da Escola Secundária: os desafios e possibilidades do campo. | Foto: Reprodução


    “Esse documento tem o propósito de mostrar de maneira clara, com números e com depoimentos, os desafios da educação ribeirinha. O nosso objetivo é que esse documento possa servir de inspiração para mudança de políticas públicas”, ressaltou o superintendente-geral da FAS, Virgílio Viana. “Vamos apresentar esse documento ao novo governo estadual e aos governos municipais para que possam ser feitas ações voltadas a enfrentar essa realidade da educação rural, que é muito desafiadora”, disse o representante.

     Com uma amostra de cinco municípios distintos, entre os 62 municípios do Amazonas, o ‘censo escolar da floresta’ apresenta um retrato da educação rural em todo o Estado, considerando a diversidade de realidades.

    Terra de ninguém

    Um dos primeiros resultados levantados pela análise é o desconhecimento efetivo sobre o cenário educacional no interior do Amazonas frente à censos escolares do país. Conforme os pesquisadores da FAS e da Unicef, há quase uma inexistência das escolas rurais ribeirinhas do Amazonas para o resto do País, o que compromete justamente a adoção de políticas públicas voltadas às realidades dessas regiões.

     Ao todo, foram 83 escolas analisadas em cinco municípios e, respectivamente, cinco Unidades de Conservação (UC). Essas escolas ficam situadas em diversas comunidades ribeirinhas dentro das Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Anamã, que fica no município de Maraã; na RDS do Juma, em Novo Aripuanã; RDS Mamirauá, em Uarini; RDS do Uatumã, em Itapiranga; e na Floresta Estadual de Maués, no município de Maués. Das 83 escolas, quatro já estavam extintas e três paralisadas.

     Logística

    Conforme os pesquisadores da FAS e da Unicef, fatores específicos da Amazônia fazem da educação rural na região algo bem mais desafiador que no resto do país. Extensão territorial, transporte predominantemente fluvial, alto custo logístico de viagens, além fenômenos naturais como seca e cheia dos rios fazem do ensino rural no Amazonas algo problemático.

     Mesmo assim, e contraditoriamente, segundo eles, as escolas ainda são uma das poucas políticas públicas que chegam aos ribeirinhos do Amazonas – há carência de saúde, segurança, entre outros.

    Espaços físicos

    Cerca de 94% dessas instituições de ensino possuíam prédios escolares próprios dos órgãos regionais de educação e, desse total, 10% tinham infraestruturas complementares e que também eram usadas como salas de aula. No entanto, 6% das escolas ainda não funcionavam em prédios escolares, mas sim em igrejas, centros sociais e casas de comunitários.

    Nas escolas analisadas, sinal de internet ainda é uma realidade distante
    Nas escolas analisadas, sinal de internet ainda é uma realidade distante | Foto: Reprodução


    Água, esgoto, lixo e energia

    Ainda sobre estrutura, 70% das escolas não proporcionam banheiro dentro de prédios e 99% não possuíam tratamento de esgoto adequado. Cerca de 76% não disponibilizavam água tratada e somente uma escola tinha esgoto correto.

     As outras se dividiam em modelos que não dão conta de atender exigências sanitárias mínimas. Já a coleta seletiva foi citada em apenas 1% das escolas, localizadas próximas às sedes dos municípios.

     “Longas distâncias, alto custo e falta de prioridade na agenda pública são fatores que inviabilizam a chegada de equipes de coleta seletiva nas comunidades rurais”, destaca a análise.

     Sobre fornecimento de energia elétrica, só 34% das escolas apresentam acesso ao serviço, e mesmo aquelas com energia apresentavam problemas com o abastecimento, já que apenas 24% relataram não ter tido complicações de energia ao longo do ano letivo.

    Falta de internet

    Nas escolas analisadas, sinal de internet ainda é uma realidade distante, já que 97% delas não tinham acesso à rede. Das escolas municipais que têm acesso, 3% encontram-se exclusivamente em áreas fora das Unidades de Conservação.

     “O computador é um dos principais equipamentos eletrônicos encontrados na zona rural amazonense, no entanto, é interessante constatar que muitos deles não são utilizados. Entre os 80 computadores distribuídos entre as escolas visitadas, 46% não eram utilizados”.

     Merenda escolar

    Em relação à alimentação dos alunos, só 15,8% das escolas receberam integralmente merenda escolas e 84,2% ficaram algum período do ano sem receber alimentos.

     “Surpreende que 34% das escolas ficaram entre 160 a 180 dias sem merenda. Considerando que na média, um mês letivo tem 20 dias, em 1/3 das escolas os estudantes receberam merenda apenas um ou dois meses letivos”. Sobre a agricultura familiar e regional, que deveria abastecer alimentação escolar, só 6,6% eram recebiam merenda oriunda da culinária local e 93,4% não.

     Professores e comunidade

    Outro dado interessante é que 65% dos docentes tinham nível superior de escolaridade. Mais da metade (58,3%) não tinham gestor e 41,7% tinham. Além disso, em 12% das escolas visitadas a equipe escolar era composta apenas por um professor.

     Nas escolas visitadas só 2% declararam usar materiais didáticos regionalizados específicos que atendessem à diversidade sociocultural. Da participação na vida escolar, 92,4% dos pais eram ativos e 7,6% não eram presentes.

     O relatório sobre a educação rural amazonense está disponível para download gratuito no site da Fundação Amazonas Sustentável (FAS).

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