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    poluição ambiental


    Sem rígido controle, vazamentos químicos continuam a destruir Amazônia

    Políticos do Amazonas e representantes ambientalistas comentam a falta de fiscalização e endurecimentos de Leis que preservam a natureza. No último domingo (31), quase 25 mil litros de camada asfáltica vazou no Rio Negro

    A substância afeta principalmente os peixes, os plânctons e até mesmo a flora aquática adjacente | Foto: Divulgação/ Ipaam

    Manaus - Óleo, plástico, esgotos e agora emulsão asfáltica são algumas das substâncias que têm poluído os rios do Amazonas e causado danos à saúde e aos ecossistemas.  O caso mais atual ocorreu no último domingo (31). Quase 25 mil litros de camada asfáltica, mais conhecida como piche, vazaram de um caminhão-tanque da empresa Transbetuminosa, atingiram parte da rua Agostinho Caballero Martin, no bairro de São Raimundo, Zona Oeste, e contaminou uma área de floresta e 1,5 mil metros quadrados das águas do Rio Negro, nas imediações do porto das balsas do São Raimundo.

    O gerente de fiscalização do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), Hermógenes Rabelo, conta que foram 30 toneladas de emulsão asfáltica e que o material é uma substância oleosa altamente tóxica para o ambiente aquático.

    “Esta substância afeta principalmente os peixes, os plânctons e até mesmo a flora aquática adjacente. Se continuar na água, o material vai ficar por um longo período liberando substâncias que poderão afetar a biota. E é por isso que tem que ser removido e deve ser dado a destinação adequada”, explica Rabelo.

    Esta substância afeta principalmente os peixes, os plânctons e até mesmo a flora aquática adjacente
    Esta substância afeta principalmente os peixes, os plânctons e até mesmo a flora aquática adjacente | Foto: Marcely Gomes

    A empresa foi multada nesta terça-feira (2) em R$ 600 mil. Deste total, R$ 550 mil foi por provocar poluição e degradação ambiental a partir de transbordamento e vazamento de produtos derivados de petróleo em um curso hídrico. O valor de R$ 50 mil é por operar com a Licença de Operação (LO) vencida desde 2015. Por conta disso, a empresa foi notificada a paralisar suas atividades até regularizar a LO junto ao Ipaam.

     "Temos que avaliar a situação para cada componente. Existe a contaminação aquática e do solo, além da empresa não ter adotado os procedimentos necessários de respostas imediatas de emergência”, completou.

    A Transbetume Comércio e Transporte de Betumes Ltda., responsável pelo transporte do produto, contratou emergencialmente uma empresa de tratamento de resíduos para realizar o trabalho de contenção do vazamento, a Eternal.

    “A primeira etapa foi concluída no domingo (31), com a contenção de todo o resíduo, para evitar que o dano se alastrasse. A segunda etapa começamos na segunda-feira (1), que é a coleta de todo o material vegetal. Vamos tirar toda a vegetação contaminada, fazer o transporte e destinação desse material para incineração”, explicou Daniel Chaves, responsável técnico pela Eternal.

    Fiscalização

    Existe contaminação aquática e do solo, além da empresa não ter adotado os procedimentos necessários de respostas imediatas de emergência.
    Existe contaminação aquática e do solo, além da empresa não ter adotado os procedimentos necessários de respostas imediatas de emergência. | Foto: Divulgação/ Ipaam

    As empresas que fazem transporte de substâncias perigosas fazem o licenciamento pelo Ipaam. Segundo Rabelo, todas elas têm que ter um tanque de emergência.

    “Essa empresa não acionou de imediato o procedimento de emergência dela, demorou mais 14 horas para iniciar o procedimento de respostas que podia ser imediato. Ela também não acionou o Ipaam”.

    'Falta endurecimento nas leis e nas fiscalizações'

    Para o deputado Fausto Junior (PV) tem que punir os responsáveis pelo frete,  pois o dano ao meio ambiente vai ser irreversível.

    “A aderência da massa asfáltica é muito grande, é um material impermeável e vai comprometer toda a região em que houve o vazamento. Então é preciso que o Ibama e todos os órgãos competentes ambientais punam essa empresa, para que isso não se repita. Também devemos cobrar os órgãos fiscalização, pois com certeza este caminhão não estava bem aparelhado, pois se tivesse não teria acontecido esse vazamento”.

    A deputada Joana D’arc (PR) conta que a partir desta terça-feira (2) vai solicitar informações sobre mais esse acidente ambiental no Estado. Ela vai ao local do vazamento com uma comissão técnica para avaliar e emitir um posicionamento. A parlamentar disse ao Em Tempo não medirá esforços para que a empresa transportadora seja punida e que faça algo que possa minimizar os impactos ao meio ambiente.

    ”Este caso abre uma reflexão para as questões ambientais. Os órgãos devem agir preventivamente, pois ainda temos aquela cultura de só agir quando acontece o acidente ambiental. E este acidente sendo feito preventivamente, aí sim, a gente assegura a preservação do meio ambiente. Eu repudio, vejo isso de forma negativa. Nós temos a maior bacia hidrográfica e acontecer um acidente como esse significa que em algum momento houve a negligência de órgãos de fiscalizações. Falta endurecimento nas leis e nas fiscalizações. A preservação do meio ambiente não é vista como prioridade no Amazonas. Nós vemos um recurso de publicidade e propaganda 20 vezes maior do que dos órgãos fiscalizadores ambientais, isso é um absurdo que deve ser revisto”.

    Outros casos

    Acidente com embarcação causa vazamento de óleo, no Rio Negro
    Acidente com embarcação causa vazamento de óleo, no Rio Negro | Foto: Divulgação/ Ipaam

    Há sete meses, em agosto de 2018, outro vazamento atingiu o Rio Negro, desta vez de óleo diesel na orla Leste da cidade, pelo Porto da Ceasa, no bairro Mauazinho. O derramamento alcançou uma extensão de cinco quilômetros do Porto da Ceasa até as proximidades da estação de captação e distribuição de água do Programa Águas para Manaus (Proama). O vazamento ocorreu depois que um barco pertencente ao grupo Chibatão naufragou na região.

    O caso, na época, afetou a distribuição da água, a vida dos ribeirinhos devido a falta de peixes e a flora. A reportagem pediu posicionamento detalhado da gestão do Ipaam sobre os danos que o acidente causou ao ecossistema, mas não houve respostas até a publicação deste conteúdo.

    ‘Falta investimento no monitoramento’

    Para a bióloga e ambientalista Erika Schloemp, o Amazonas tem órgãos fiscalizadores do meio ambiente apenas na teoria, porém na prática a realidade é outra. Para ela é necessário mais investimento para monitorar o em torno da orla do Porto de Manaus.

    “Em questões de meio ambiente no Amazonas falta muita coisa. Temos embarcações que fazem carregamento de combustível que oferecem riscos para o abastecimento de água. A receptação de água da cidade está muito vulnerável a poluição e tem muita movimentação na orla da cidade de Manaus de navios, caminhões, carregamentos de produtos químicos e essa operações oferecem grandes riscos. Ficamos muito medo que um acidente pior aconteça outras vezes”, enfatiza.

    Vida dos peixes

    Foram encontradas 228 partículas de microplástico em 26 dos 189 peixes analisados
    Foram encontradas 228 partículas de microplástico em 26 dos 189 peixes analisados | Foto: Divulgação

    Em outubro do ano passado, uma pesquisa na Região Amazônica, realizada no Campus da UFPA, em Altamira, detectou a presença de microplástico em peixes da região, alguns bastante consumidos pela população.

    A pesquisadora Tamyris Pegado Silva trabalhou na dissertação "Primeira evidência de ingestão de microplásticos por peixes do estuário do rio Amazonas", defendida no Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Conservação, com orientação do professor Tommaso Giarrizzo.

    Foram encontradas 228 partículas de microplástico em 26 dos 189 peixes analisados. As 46 espécies analisadas foram capturadas no estuário do rio Amazonas (Costa Norte do Brasil), algumas, inclusive, com importância econômica e de consumo humano, como Caranx hippos (Xaréu), Lutjanus synagris (Ariacó), Cynoscion microlepdotus (Corvina) e Macrodon ancylodon (Pescada gó).

    Foram encontradas quatro categorias de microplástico, entre 0.38 mm e 4.16 mm: pellet amarelado (esferas cilíndricas ou discoidais consideradas matéria-prima para a produção de diversos tipos de materiais plásticos).

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