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    Meio Ambiente


    Qualidade de vida da Amazônia está abaixo da média nacional

    Quatro anos após a primeira medição, realizada em 2014, a Amazônia continua marcada por problemas como violência crescente, saneamento precário e outros

    Manaus e Parintins estão entre os 10 municípios da Amazônia Legal que reduziram os índices | Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

    Manaus - A Amazônia apresenta uma riqueza natural incontestável, que se contrasta com uma baixa qualidade de vida, expressa em indicadores sociais e econômicos inferiores ao restante do Brasil. A população empobrecida, que convive com problemas de saneamento e violência, não tem acesso aos direitos básicos, como moradia, saúde e bem-estar. No Amazonas, Manaus e Parintins diminuíram consideravelmente os índices em apenas quatro anos.

    A conclusão é de um relatório publicado em março deste ano pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Diferente de outros índices que medem o desempenho social na região, por exemplo, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), o Índice de Progresso Social (IPS)é obtido apenas por meio de indicadores sociais e ambientais. 27,5 milhões de pessoas, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2018, vivem na região amazônica. 

    O IPS, que mede a qualidade de vida dos moradores de cada localidade, foi criado para avaliar o desenvolvimento social global, incluindo mais 50 indicadores, como por exemplo saúde, moradia, segurança pessoal, acesso à informação, saneamento básico e sustentabilidade.

    Saneamento básico é um dos problemas apontados pelo estudo
    Saneamento básico é um dos problemas apontados pelo estudo | Foto: Carolina Gonçalves/Agência Brasil

    Na comparação entre 2018 e 2014, houve ligeira melhora no IPS nos Estados do Acre (54,18), Maranhão (55,02), Pará (55,57) e Roraima (54,84). Por outro lado, houve redução no IPS no Amapá, Amazonas e Rondônia. Esses Estados obtiveram os piores IPS da região.

    Entre os 772 municípios amazônicos avaliados, a maioria (59%) teve redução no estudo. Entre os municípios que sofreram redução do IPS, incluem-se Parintins (AM), Itaituba (PA), São Félix do Xingu (PA), Altamira (PA), Belém (PA), Manaus (AM), Canaã dos Carajás (PA), Boa Vista (RR), Porto Velho (RO) e Imperatriz (MA).

    Amazonas

    De acordo com a pesquisa do IPS, as cidades amazonenses figuraram na "lista negra" entre os 10 municípios da Amazônia Legal que apresentaram piora nos índices verificados. Dos 12 componentes do IPS Amazônia, Manaus e Parintins ficaram no vermelho em qualidade do meio ambiente, saúde e bem-estar, segurança pessoal, tolerância e inclusão e direitos individuais. A análise foi feita entre 2014 e 2018. 

    Entre os nove estados da Amazônia pesquisados, o Amazonas ficou em penúltimo lugar em desenvolvimento. Em 2018, o Estado apontou 54,75% - ficando à frente apenas do Acre com 54,18%. O município de Coari ficou entre municípios com níveis críticos de progresso social com IPS médio de apenas 53,58%. Abaixo dele ficou a cidade de Lábrea com 49,63%. 

    No mesmo período, três componentes mantiveram-se iguais (nutrição e cuidados médicos básicos, acesso à informação e comunicação, acesso ao conhecimento básico e liberdade individual e de escolha) e outros quatro apresentaram melhorias.

    Segurança

    O índice médio do componente segurança pessoal piorou na Amazônia entre 2014 e 2018, caindo de 54,71 para 52,28. Isso se deve ao aumento expressivo na taxa de homicídio na região. 

    Entre os Estados da Amazônia Legal, Mato Grosso (59,13), Rondônia (58,51) e Tocantins (57,44) apresentaram os melhores resultados no IPS Amazônia 2018. Mesmo assim, esses Estados estão muito abaixo da média nacional.

    A violência foi outro ponto que apresentou aumento em quatro anos
    A violência foi outro ponto que apresentou aumento em quatro anos | Foto: Raphael Tavares


    O estudo aponta como conclusão que não há uma solução única para resolver as questões complexas da Amazônia, mas qualquer estratégia a ser perseguida precisa levar em conta fatores.

    "Já desmatamos toda a terra de que precisamos para desenvolver a agropecuária, mineração e infraestrutura. Portanto, é inteiramente possível gerar riqueza na Amazônia e fornecer trabalho e benefícios para os seus cerca de 27 milhões de habitantes sem desmatar novas áreas. Alcançar essa meta depende principalmente de desenvolvimento e utilização de tecnologias e técnicas existentes para fazer o melhor uso da terra já desmatada. É hora de buscar um modelo mais inteligente de crescimento econômico que não dependa da destruição da floresta", diz o relatório do IPS. 

    Não há uma “solução milagrosa”

    Para o pesquisador Beto Veríssimo, não há uma “solução milagrosa” para resolver as questões complexas do subdesenvolvimento social que aflige a Amazônia. É hora de buscar um modelo mais inteligente de crescimento econômico que não dependa da destruição da floresta.

    “A melhor maneira de realizar o progresso social na Amazônia é buscar o fim do desmatamento, dinamizar a economia com base no uso sustentável dos recursos naturais, investir em infraestrutura para melhorar a qualidade de vida e garantir maiores oportunidades para os 27 milhões de habitantes da região”, diz.

    Não há uma “solução milagrosa” para resolver as questões complexas do subdesenvolvimento social que aflige a Amazônia
    Não há uma “solução milagrosa” para resolver as questões complexas do subdesenvolvimento social que aflige a Amazônia | Foto: Ricardo Oliveira


    Segundo o sociólogo Cleiton Maciel Brito, o Índice de Progresso Social é importante porque mede a qualidade de vida em seu sentido global, não apenas olhando árvores, mas a floresta como um todo.

    “É importante destacar que o fato do índice de 2018 ser menor que o de 2014 não tem valor estatístico considerável, porque a variação foi nacional também. Quer dizer, a crise que afeta o país desde 2014 tem refletido nos índices sociais e ambientais do país inteiro”, diz Brito.

    Sem políticas públicas o País não anda

    Para o doutor em sociologia, não houve política pública eficiente voltada para a Educação e o Saneamento Básico nos últimos anos.

    “Esses resultados indicam que o discurso, desde o período militar, de desenvolvimento da região Amazônica e as respectivas políticas aqui implementadas, surtiu pouco efeito para a qualidade de vida. Uma das razões para isso é que o desenvolvimento local sempre esteve subordinado aos interesses de grandes empresas e do capitalismo mundial. O maior paradigma disso é a Zona Franca de Manaus. Cria riqueza, mas não desenvolvimento. Isso porque não se distribui o recurso, concentra-se. De modo que o problema da Amazônia não é mais de produção, mas de distribuição”.

     O especialista conta que o primeiro caminho que precisa ser aberto é o investimento sério e de longo prazo na educação regional e fomentar a consciência política da população.

    O desenvolvimento humano também é afetado pela crise econômica, que atingiu a população do Amazonas
    O desenvolvimento humano também é afetado pela crise econômica, que atingiu a população do Amazonas | Foto: Marcio Melo/Arquivo Em Tempo


    “Esse discurso de guardiã da floresta é algo que nos foi dado de fora. Não digo que nós não devemos fazer isso, mas tem de ser decisão nossa. Nós temos que ajudar a construir e não seguir de cabeça baixa, como tem sido até hoje. Depois, temos de tornar as cidades já existentes, centros de experimentação tecnológica para melhorar a vida das pessoas. A região pouco se conversa, porque vivemos em ‘castelos’ da floresta”, explica.

     'Uma nova Amazônia'

    O sociólogo ressalta que para se pensar uma ‘nova Amazônia’, em um modelo de desenvolvimento pautado em educação, tecnologia e distribuição de renda, é preciso fazer uma triagem das potencialidades econômicas e sociais de cada lugar, para que este crie sua própria forma para se desenvolver.

     “Hoje, todos querem seguir Manaus, mas ela é um mau exemplo em termos de qualidade de vida. Criar sua própria forma de se desenvolver só é possível com outros modos de fazer política na região, que é muito pautada em caciques que se acham donos do mundo. Hoje, nosso maior desafio amazônico, portanto, é político e não ambiental. Leva tempo para mudar essa realidade”, salienta.

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