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    Meio Ambiente


    Aumento de algas nocivas em rios do AM pode causar câncer, diz estudo

    O estudo visa, por meio de satélite, identificar o crescimento de algas nocivas em rios da Amazônia que são prejudiciais à saúde e afetam principalmente o fígado

    Os pesquisadores fazem estudos das águas por meio de imagens de satélites | Foto: Bruno Kelly USAID

    Manaus - O ecossistema da planície de inundação do Rio Amazonas é pouco conhecido e estudado, quando comparado aos ecossistemas terrestres. Estima-se a existência de mais de 10 mil lagos com área superior a um hectare, dos quais menos de 1% foram estudados. Dada às dimensões da planície amazônica, o monitoramento só é viável por sensoriamento remoto orbital.

    O estudo aponta que lagos de várzea possuem elevado número de algas nocivas (as cianobactérias), que comprometem a qualidade da água e a saúde pública, devido à produção de compostos potencialmente tóxicos e cancerígeno. O tipo mais comum de intoxicação é ocasionado por microcistina-LR (hepatotoxina), a qual pode causar severos danos ao fígado.

    Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e colaboradores do Laboratório de Instrumentação de Sistemas Aquáticos (LabISA), sob a coordenação de Claudio Barbosa e Evlyn Novo, lançaram livro com a "Introdução ao Sensoriamento Remoto de Sistemas Aquáticos: Princípios e aplicações". O produto traz dados sobre o estudo feito nas águas do Rio Solimões, médio e baixo Amazonas por meio de imagens de satélite.

    De acordo com Claudio, a ideia de escrever o livro se originou durante um trabalho de campo na Amazônia. Os demais pesquisadores se interessaram sobre os dados extraídos pelo pesquisador e decidiram estudar mais a fundo a questão aquática da região.

    "Tendo em vista que os recursos hídricos são imprescindíveis para a humanidade, e o monitoramento periódico dos sistemas aquáticos é essencial para prover uma gestão hídrica adequada", relata o pesquisador na introdução do livro. 

    O que é o sensoriamento?

    O sensoriamento remoto óptico fornece uma alternativa para uma observação contínua da superfície terrestre, permitindo diversas aplicações, como a detecção, o mapeamento, e a caracterização bio-óptica dos sistemas aquáticos.

    O regime hidrológico de um dado sistema aquático pode ser representado pela variação do seu nível de água ao longo de um ano hidrológico, o qual é representado por um hidrograma, também chamado de hidrógrafa. A análise do hidrograma fornece informações importantes sobre a variabilidade das propriedades biogeoquímicas do ambiente aquático, tendo em vista que a variação do nível da água regula variáveis geométricas dos lagos e dos rios, tais como tamanho, forma e profundidade.

    A magnitude da variação do nível da água aumenta com o tamanho da bacia hidrográfica dada as mesmas características climáticas
    A magnitude da variação do nível da água aumenta com o tamanho da bacia hidrográfica dada as mesmas características climáticas | Foto: Bruno Kelly USAID


    Em geral, a magnitude da variação do nível da água (amplitude entre os mínimos e os máximos) aumenta com o tamanho da bacia hidrográfica dada as mesmas características climáticas. Ao longo do rio Solimões/Amazonas, por exemplo, a amplitude média entre as cotas mínimas e máximas, ao longo de um ano hidrológico, pode variar entre 15 metros em Tefé, no médio curso e 6 metros em Curuai, próximo a Óbidos, no baixo curso.

    Vários aspectos interessantes podem ser identificados ao analisar o hidrograma do Solimões/Amazonas: 

    1) Os mínimos e os máximos são mais extremos na estação fluviométrica de Tefé, à montante, do que na estação de Curuai, à jusante. Como o nível da água está associado ao maior ou ao menor alcance da água do rio em relação ao interior da planície e seus lagos, essa diferença de amplitude dos níveis de mínima e máxima permite supor que na região há maior probabilidade de se encontrarem lagos que secam ou se tornam extremamente rasos durante os períodos de seca.

    Esse fato tem implicações para o monitoramento desses sistemas por meio do sensoriamento remoto e no planejamento de missões de aquisição de dados para a calibração de algoritmos.

    2) A amplitude entre mínimos e máximos está também associada à capacidade de transporte dos rios que se conectam aos lagos ou que alimentam reservatórios e, portanto, no maior ou menor aporte de constituintes ao longo do tempo.

    A análise da hidrógrafa é importante para o planejamento da duração das missões de campo. Em fases em que a taxa de variação do nível de água é muito alta, os sistemas aquáticos podem apresentar modificações intensas em suas propriedades óticas em pequeno intervalo de tempo, sendo necessário ajustar o tempo de coleta à dinâmica do ambiente.

    Estudo no Rio Tapajós

    Na Amazônia, as florações de cianobactérias são mais frequentemente observadas nos lagos de várzea. Nesses lagos, a água apresenta alta concentração de conteúdo inorgânico do rio Amazonas e, associada à baixa dinâmica da água e nutrientes das inundações de excesso de água da floresta, cria a condição ideal para a proliferação de cianobactérias naturais.

    As amostragens foram realizadas em cinco pontos de coleta distribuídos na margem direita do Rio Tapajós
    As amostragens foram realizadas em cinco pontos de coleta distribuídos na margem direita do Rio Tapajós | Foto: divulgação


    Para águas claras da Amazônia, isto é, caracterizada pelo baixo teor de TSS, a ocorrência de florações é menos frequente. No entanto, investigações recentes indicam que o rio Tapajós apresenta grandes escórias de cianobactérias. As amostragens foram realizadas em cinco pontos de coleta distribuídos na margem direita do Rio Tapajós, onde foram realizados arrastos horizontais, com o auxílio de uma rede para plâncton de 20 μm; e foram também coletadas amostras de água bruta

    Os fenômenos da floração ocorreram nessa região distante dos centros urbanos com baixa industrialização. Por outro lado, têm sido objeto de alta expansão do agronegócio, principalmente soja, bem como intensa atividade de mineração de ouro na bacia alta.

    "Nas amostras de água bruta, as concentrações de microcistina-LR registradas estão abaixo dos valores máximos permitidos na legislação brasileira para água de consumo; entretanto, é importante ressaltar que a floração, visualizada in loco, ocupava cerca de 10 cm da superfície da coluna d'água, e que, portanto, continha células de cianobactérias suficientes para provocar irritações cutâneas em pessoas que usassem o rio como balneário nesse período", relata o pesquisador.

    Pesca e turismo podem ser comprometidos

    O rio Tapajós é amplamente utilizado para pesca e turismo, as florações de cianobactérias levantaram a preocupação das comunidades locais e regionais. Diversos estudos relataram a ocorrência de florações nesse rio ao longo das margens próximas à cidade de Santarém, bem como na margem esquerda. Nesse contexto, um estudo científico está sendo desenvolvido para o rio Tapajós utilizando imagens MSI/Sentinel-2 para a construção de uma série histórica.

    Livro

    O livro foi publicado em formato digital e está disponível gratuitamente no site do Inpe. A publicação contém uma série de conceitos aplicados ao sensoriamento remoto de ambientes aquáticos, como os fundamentos da óptica hidrológica, as propriedades ópticas da água e seus constituintes, os equipamentos e técnicas de processamento de dados, o histórico dos sistemas orbitais e suas aplicações.

    "É focado em águas interiores e oferece uma oportunidade para os novos profissionais entenderem como os dados de sensoriamento remoto podem ser empregados no monitoramento dos sistemas aquáticos continentais", diz Claudio Barbosa. 

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