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    Especial Meio Ambiente


    Águas contaminadas podem ser portas de doenças no AM, alerta Durigan

    Vazamentos químicos, garimpos ilegais e outros fatores são os principais causadores que estão afetando a qualidade da água

    Águas amazônicas estão contaminadas com arsênio | Foto: Divulgação/MMA

    Manaus - O crescimento rápido e desordenado de Manaus tem propiciado o surgimento de vários problemas, que incluem a baixa qualidade dos serviços de saneamento e abastecimento de água para a população urbana do Amazonas. A afirmação é de especialistas da área do meio ambiente que ainda alertam sobre problemas emergenciais que podem ser encontrados nas águas da Amazônia.

    “Quase 100% dos esgotos nas cidades não são tratados, resíduos sólidos domésticos e industriais em sua maior parte não têm destinação adequada, trazendo sérias consequências para a saúde ambiental e humana. Estudos têm mostrado que os níveis de contaminação da água consumida no Amazonas são elevados, tanto por contaminantes químicos, quanto por micro-organismos causadores de enfermidades”, destaca o geógrafo e diretor da WCS Brasil, Carlos Durigan.

    Vazamentos químicos prejudicam nossos rios

    Vazamentos químicos prejudicam nossos rios
    Vazamentos químicos prejudicam nossos rios | Foto: Divulgação/ Ipaam


    Óleo, plástico, esgoto e agora emulsão asfáltica são algumas das substâncias que têm poluído os rios do Amazonas e causado danos à saúde e aos ecossistemas. O caso mais atual ocorreu no dia 31 de fevereiro deste ano. Quase 25 mil litros de camada asfáltica, mais conhecida como piche, vazaram de um caminhão-tanque da empresa Transbetuminosa, e atingiram parte da rua Agostinho Caballero Martin, no bairro de São Raimundo, Zona Oeste. 

    O vazamento contaminou uma área de floresta e 1,5 mil metros quadrados das águas do Rio Negro, nas imediações do porto das balsas do São Raimundo. Segundo o Instituto de Proteção Ambiental (Ipaam), a empresa foi multada no valor de R$ 600 mil.

    Em agosto de 2018, outro vazamento atingiu o Rio Negro. Desta vez, óleo diesel atingiu a orla Leste da cidade, pelo Porto da Ceasa, no bairro Mauazinho. O derramamento alcançou uma extensão de cinco quilômetros do Porto da Ceasa até as proximidades da estação de captação e distribuição de água do Programa Águas para Manaus (Proama).

    O vazamento ocorreu depois que um barco pertencente ao grupo Chibatão naufragou na região. O caso, na época, afetou a distribuição da água e a vida dos ribeirinhos.

    Quase 25 mil litros de camada asfáltica no rio
    Quase 25 mil litros de camada asfáltica no rio | Foto: Divulgação/ Ipaam

    O geógrafo destaca que desastres relacionados ao derramamento de produtos tóxicos nos rios agravam a situação das águas, causando impactos significativos sobre a biodiversidade local.

    "Aumentando a contaminação química das águas tende a se estender por grandes áreas e ainda persistir por muito tempo”, relata Durigan

    Para a bióloga e ambientalista Erika Schloemp, falta endurecimento nas leis ambientais e ainda a necessidade de fiscalizar mais.

    “A receptação de água da cidade está muito vulnerável à poluição e tem muita movimentação de navios, caminhões, carregamentos de produtos químicos na orla de Manaus, e essas operações oferecem grandes riscos. Ficamos com muito medo que um acidente pior aconteça a qualquer momento”, enfatiza.

    Águas de Boca do Acre estão contaminadas

    O químico Sergio Bringel do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) esteve visitando o sistema de tratamento de água ETA de Boca do Acre- AM e percebeu que no local há contaminação.

    "Toda a água distribuída à população da cidade não passa por um processo de tratamento. A água é a mesma bombeada do rio Acre. Os riscos de doença de veiculação hídrica são muito grandes, tendo em vista que não existe nem uma simples cloração. Esta é a água contaminada que é distribuída e utilizada pela população da cidade de Boca do Acre", conta. 

    Os riscos de doença de veiculação hídrica é muito grande
    Os riscos de doença de veiculação hídrica é muito grande | Foto: Arquivo Pessoal/ Bingel

    Garimpos ilegais prejudicam os rios da Amazônia

    Amazônia Legal brasileira contém 321 pontos identificados de garimpos ilegais, ativos e inativos, dispostos em 132 áreas ao longo dos nove Estados que a compõem. Os dados foram reunidos pela Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (RAISG), no fim de 2018.

    De acordo com o geógrafo Carlos Durigan, as atividades de mineração ajudam a piorar o quadro da contaminação das águas do Amazonas, exemplo disso é a exploração de ouro nas margens e calhas dos rios- que causa impactos mecânicos ao remover grandes quantidades de sedimentos. 

    Os garimpos são os que mais poluem os rios da Amazônia
    Os garimpos são os que mais poluem os rios da Amazônia | Foto: Divulgação

    “Tem um agravante relacionado ao uso e descarte de mercúrio. Este metal é altamente contaminante e tóxico. Nas águas, ele acaba por contaminar a biodiversidade. Pelo processo conhecido por bioacumulação, o mercúrio tende a se acumular ao longo da cadeia trófica. Os peixes predadores, como tucunarés, pirarucus e piranhas, em rios afetados pela atividade, acabam por apresentar níveis elevados de contaminação e, por sua vez, contaminam as pessoas que os consomem”, alerta Durigan.

    O geógrafo acrescenta que é preciso fortalecer e apoiar as políticas ambientais no Estado para garantir a manutenção da Amazônia como a conhecemos.

    “Precisamos urgentemente definir e implementar políticas públicas claras relacionadas às atividades humanas que geram impactos. Investir em saneamento e destinação de resíduos e esgotos, além de desenvolvermos boas práticas de mineração para o estabelecimento de ações de mitigação dos impactos causados pela atividade. Isso seria um bom começo”, diz.

    Garimpos ilegais na Amazônia legal
    Garimpos ilegais na Amazônia legal | Foto: Divulgação/ RAISG

    Águas amazônicas estão contaminadas com arsênio

    Um estudo de 2018 conduzido por cientistas do Brasil, do Peru e da Suíça mostra que reservatórios de pouca profundidade contêm água que supera, em até 70 vezes, o limite recomendado de arsênico pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

    Os primeiros resultados da pesquisa são de amostras obtidas em 250 comunidades da Amazônia peruana, onde também foram detectados níveis perigosos de concentração de outras substâncias. As taxas de manganês estavam até 15 vezes superiores aos limites estipulados pela OMS, e as de alumínio até três vezes acima do recomendado.

    “Devido aos rios contaminados, muitas comunidades rurais aproveitam a água subterrânea. Em algumas áreas da Bacia do Rio Amazonas, essa água contém elementos em concentrações prejudiciais para a saúde humana. Esse tipo de contaminação não deveria ser subestimado”, explica Caroline de Meyer, cientista do Instituto Federal Suíço de Ciência e Tecnologia Aquáticas, durante apresentação de dados preliminares do estudo feita última na Assembleia Geral da União Europeia de Geociência (EGU), em Viena.

    A água distribuída é a mesma que é bombeada do rio Acre
    A água distribuída é a mesma que é bombeada do rio Acre | Foto: Arquivo Pessoal/ Bingel


    O nível de contaminação nas águas acende alerta sobre a qualidade da água que chega na torneira da população manauara. Será que você consome água de qualidade ou os níveis de metais podem afetar a sua saúde?

    Para responder estas e outras perguntas, a reportagem entrou em contato com a Águas de Manaus. A concessionária informou que a água que chega às torneiras de mais de 2 milhões de pessoas na capital está dentro dos padrões exigidos pelo Ministério da Saúde.

    A água está livre de qualquer tipo de impureza, bactérias, agrotóxicos ou substâncias nocivas à saúde. Através de um rigoroso controle de qualidade, a concessionária garante a qualidade da água que fornece para a capital. Para isso, é realizado um processo de monitoramento constante dos padrões da água que é tratada pela concessionária.

    "A cada hora, são feitas análises laboratoriais do líquido que é coletado e tratado do Rio Negro em quatro estações de tratamento de água (Ponta do Ismael I e II, Ponta das Lajes e Mauazinho) e nos 41 Centros de Produção de Águas Subterrâneas (CPA´s) que estão sob responsabilidade da empresa. Mensalmente, o número de análises chega a 30 mil. Os exames são feitos pela própria concessionária e em laboratórios externos credenciados. As análises são realizadas a partir de amostras coletadas desde a produção nas Estações de Tratamento de Água (ETA´s) e em 625 pontos de distribuição espalhados pela capital. São verificadas características como cor, transparência, PH (acidez), além da presença de bactérias, metais ou qualquer outro produto que possa comprometer a qualidade da água. Os critérios atendem as exigências estabelecidas pelo Ministério da Saúde, na Portaria 2914/2011 e na portaria de consolidação N° 5, de 28 de setembro de 2017", diz.

    Para assegurar que a água distribuída para Manaus é própria para o consumo humano, a concessionária ainda realiza, semestralmente, testes específicos para verificar a presença de agrotóxicos. Nos últimos cinco anos, nenhuma das análises realizadas apontou presença de substância tóxica na água, em níveis que comprometam a saúde da população de Manaus.

    Os índices da cidade estão muito abaixo dos limites nacionais e internacionais de risco. Uma equipe de dez profissionais atua exclusivamente no setor de Controle de Qualidade da empresa, para que a água atenda os padrões estabelecidos pelo Ministério da Saúde.

    Nos quatro complexos de produção que a empresa possui na cidade, mais de 630 milhões de litros de água são coletados e tratados por dia.

    "O principal trabalho para tratar a água em Manaus diz respeito a acidez encontrada no Rio Negro. O rio possui uma água com PH entre 4 e 4,5 e carrega muita matéria orgânica (por isso tem cor escura). Para retirar essa cor, deixar o PH dentro dos padrões exigidos para uma água potável (entre 6 e 7) e garantir o tratamento adequado, a Águas de Manaus utiliza mensalmente cerca de 900 toneladas de coagulante, 400 toneladas de cal, 70 toneladas de cloro, 70 toneladas de flúor e 2,5 toneladas de polímeros para dar a qualidade necessária para água que fornece para a cidade", informa.

    A concessionária informou ainda que o derramamento de óleo ocorrido no dia 01 de abril, no bairro de São Raimundo não afetou a produção de água.

    Sobre os esgotos da cidade a Águas de Manaus informou os serviços de coleta e tratamento de esgoto realizados pela concessionária beneficiam 20% de Manaus.

    "A cada segundo, a empresa coleta e trata mais de 1,5 mil litros de esgoto na capital. O esgoto é devolvido limpo para a natureza com grau de pureza superior a 95%. Nos próximos cinco anos, a concessionária Águas de Manaus irá investir R$ 800 milhões na ampliação dos serviços de abastecimento de água e tratamento de esgoto na capital. A meta da empresa é fazer com que Manaus tenha 80% do esgoto coletado e tratado até 2030", garante.

    Vida dos peixes

    Microplástico em peixes da região
    Microplástico em peixes da região | Foto: Divulgação/TV Em Tempo

    Em outubro do ano passado, uma pesquisa na Região Amazônica, realizada no Campus da UFPA, em Altamira, detectou a presença de microplásticos em peixes da região, alguns bastante consumidos pela população.

    A pesquisadora Tamyris Pegado Silva trabalhou na dissertação "Primeira evidência de ingestão de microplásticos por peixes do estuário do rio Amazonas", defendida no Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Conservação, com orientação do professor Tommaso Giarrizzo.

    Foram encontradas 228 partículas de microplástico em 26 dos 189 peixes analisados. As 46 espécies analisadas foram capturadas no estuário do rio Amazonas (Costa Norte do Brasil). Algumas, inclusive, com importância econômica e de consumo humano, como Caranx hippos (Xaréu), Lutjanus synagris (Ariacó), Cynoscion microlepdotus (Corvina) e Macrodon ancylodon (Pescada gó).

    Foram encontradas quatro categorias de microplástico, entre 0.38 mm e 4.16 mm: pellet amarelado (esferas cilíndricas ou discoidais consideradas matéria-prima para a produção de diversos tipos de materiais plásticos).

    Estudos hidrogeológicos

    A Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) informou, por meio de nota, que é coordenadora de grupo de trabalho que analisa estudos hidrogeológicos da região urbana e periurbana de Manaus. A pesquisa, que está sendo desenvolvida pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM), em conjunto com a Agência Nacional de Águas (ANA), mapeará e avaliará as bacias da capital amazonense.

    O estudo tem previsão de lançamento para o segundo semestre de 2019. A Sema está ainda realizando oficinas para elaboração do Plano Estadual de Recursos Hídricos do Amazonas (PERH-AM).

    Pauta e edição: Bruna Souza

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