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    Meio Ambiente


    Pesquisas sobre a Amazônia estão ameaçadas após cortes de recursos

    Após bloqueio de R$ 1,7 bilhão nas Universidades e Institutos federais de ensino, pesquisas científicas da Ufam e Inpa ficam comprometidas e podem parar suas atividades

    Alunos da Ufam estudam cultivo de sementes nativas da Amazônia e impactos climáticos nas espécies de plantas
    Alunos da Ufam estudam cultivo de sementes nativas da Amazônia e impactos climáticos nas espécies de plantas | Foto: Lucyleny Rocha

    Manaus - Em abril de 2019, o Governo Federal anunciou um congelamento de R$ 1,7 bi dos gastos das universidades e institutos de ensino, de um total de R$ 49,6 bilhões. O bloqueio afeta 63 universidades e 38 institutos federais de ensino. Com a medida, os avanços das pesquisas científicas sobre a Amazônia ficam comprometidas, algumas a ponto de não poderem ter continuidade.

    O corte, segundo o governo, é aplicado nas universidades sobre gastos não obrigatórios como água, luz, equipamento e, principalmente, a realização de pesquisa científica. Segundo o Ministro da Educação, Abraham Weintraubd, a verba pode ser desbloqueada no 2º semestre de 2019, caso a reforma da Previdência seja aprovada e a arrecadação de impostos cresça.

    A Universidade Federal do Amazonas (Ufam) é uma das únicas da região Norte do País que mais realiza pesquisas científicas. Os dados são da base Web of Science, e foram compilados pela Clarivate Analyticsd, a pedido da Universidade de São Paulo (USP). Segundo a pesquisa, a Ufam aparece entre uma das principais universidades que mais produziram pesquisas científicas. Foram 1.373 estudos entre 2014 e 2018.

    Embora a Ufam seja uma das que mais se destaca no ranking nacional de pesquisa entre as Universidades Federais, a instituição teve mais de R$ 38 milhões bloqueados. O montante representa 5,3% do orçamento global aprovado para 2019, que é de R$ 720 milhões. 

    A ação do Governo Federal afeta diretamente a iniciação científica de alunos que recebem bolsas para realização das pesquisas. Segundo o reitor da Ufam, Sylvio Puga, a universidade tenta reverter o bloqueio, mas caso os recursos não sejam descontingenciados, um remanejamento orçamentário será feito nas áreas da instituição. Um eventual corte deve impactar diretamente na iniciação científica, que poderá ser suspensa.

    Iniciação científica ameaçada

    Com a efetivação do corte, muitos setores da Ufam ficam comprometidos, principalmente, a continuidade do tradicional Programa de Iniciação Científica (PIBIC) e demais projetos que possuem alunos bolsistas. Um exemplo são os dois projetos coordenados pelo professor da Ufam Henrique dos Santos: o Renamaz e o Resilidades, ambos financiados pelo governo.

    Professor Henrique dos Santos coordena dois projetos que estudam a biodiversidade da Amazônia
    Professor Henrique dos Santos coordena dois projetos que estudam a biodiversidade da Amazônia | Foto: Lucyleny Rocha

    O Resilidades é um projeto que investiga os impactos de eventos climáticos extremos na conservação das espécies cultivadas. Por exemplo, o impacto das enchentes nas comunidades tradicionais, no que se refere ao pescado.

    Já o projeto Renamaz explora o cultivo de sementes nativas da Amazônia. Com o objetivo de criar um banco comunitário de sementes para diminuir o risco de extinção de plantas tradicionais. Hoje, não se encontram mais o plantio de diversas plantas como o ariá –  tubérculo.  

    Coordenador de um grupo de 14 estudantes, entre mestrandos, doutorandos e pós-doutorandos, que analisam a ecologia aplicada na Amazônia, o professor Henrique dos Santos ressalta que só há avanço na ciência se houver investimento na área.

    “No caso da Amazônia, há uma crescente participação do orçamento do Estado no financiamento da pesquisa científica. Os cortes do Governo Federal só sinalizam a falta de importância dada aos estudos deste tipo. Se não há investimento nas pesquisas aqui no Brasil, nós nos tornamos dependentes das tecnologias e ciências produzidas por outros países”, afirma o professor.

    O doutorando Pedro Henrique Mariosa relata a importância dos investimentos para troca de conhecimentos entre os alunos do Amazonas e dos demais países. Segundo o estudante, os locais que possuem tecnologia de análise estariam sempre à frente no quesito ciência.

    Agricultores do interior do estado são instruídas sobre o manejo das sementes nativas
    Agricultores do interior do estado são instruídas sobre o manejo das sementes nativas | Foto: Arquivo pessoal / Kedima Sarmento


    “O bloqueio compromete o intercâmbio de conhecimentos para aquisição de novas tecnologias para análise da Amazônia em diversos setores, como o ambiental e social. Sem a troca de informações, nós ficaríamos sem a chance de avançarmos”, afirma o aluno que compõe o grupo de pesquisa sobre ecologia aplicada na Amazônia. 

    Bolsas

    Para os estudantes, as bolsas são fundamentais para a dedicação exclusiva das pesquisas e, assim, concluir os estudos.

    “A atividade de pesquisa é uma como qualquer outra de trabalho. Então, as pessoas precisam ser remuneradas. É uma questão antiga de que a bolsa é um meio para auxiliar o estudante, para que ele possa se dedicar integralmente ao trabalho. No meu caso, se eu não tiver a bolsa, a minha pesquisa pararia. Falta o respeito de encarar a pesquisa como de fato um trabalho. Aqui existe um esforço humano”, afirma o estudante de pós-graduação, Pedro Henrique Egle.

    Não foi somente a Ufam que teve sua pesquisa científica ameaçada. O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) também esteve na mira dos cortes do Governo Federal. 25% do orçamento previsto para 2019 seria bloqueado, mas a medida foi derrubada após pressão da comunidade científica. Verba é do programa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicação (MTIC). 

    Inpa alerta sobre os cortes

    Após vários pesquisadores do Inpa enviarem um manifesto enumerando os prejuízos para o órgão responsável pela pesquisa na região amazônica, o Ministro do MTIC, Marcos Pontes, anunciou, no dia 8 de maio de 2019, o descontingenciamento dos 25% referente ao Instituto de Pesquisa.

    Mesmo com o descontingenciamento, o Inpa há anos vem sofrendo expressivos cortes em seu orçamento. Em 2017, o orçamento de R$ 40 milhões, diminuiu 44%. Já em 2018, os R$ 25,5 milhões restantes sofreram um novo golpe, a diminuição de 39,6%. 

    Pesquisadora do Inpa, Vera da Silva fala da importância de se investir na educação e ciência
    Pesquisadora do Inpa, Vera da Silva fala da importância de se investir na educação e ciência | Foto: Lucyleny Rocha

    Diante do quadro da falta de recursos, a bióloga e pesquisadora sênior do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Vera da Silva, fala sobre as dificuldades de se fazer ciência sem os recursos adequados.

    “Mesmo que o governo tenha voltado atrás com relação ao contingenciamento, nós ainda estamos trabalhando muito abaixo do que a instituição necessita. Nosso problema vem sendo agravado há muito tempo. Falta o investimento na Educação e na Ciência e Tecnologia. Se o Brasil não quiser ser um mero importador de tecnologia, é preciso fazer investimento”, afirma a pesquisadora.

    Vera da Silva é a primeira mulher das Américas a integrar a lista de membros honorários da Society For Marine Mammalogy (Sociedade Internacional de Mammalogia Marinha). Ela foi eleita após votação entre os membros da entidade, que é considerada a maior organização internacional especialista em mamíferos aquáticos. 

    A pesquisadora há cerca de 40 anos trabalha com os botos e peixes-bois da Amazônia
    A pesquisadora há cerca de 40 anos trabalha com os botos e peixes-bois da Amazônia | Foto: Lucyleny Rocha

    A pesquisadora há cerca de 40 anos trabalha com os botos e peixes-bois da Amazônia. Dentre os projetos sob seu comando que mais se destacam, está o Projeto Mamíferos Aquáticos da Amazônia, que tem como principais objetivos resgatar, reabilitar e reintroduzir peixes-bois aos rios da Amazônia.

    A bióloga, juntamente com diversos pesquisadores e colaboradores, gerou importantes estudos sobre a ecologia, história natural e comportamento dos mamíferos aquáticos da Amazônia.

    “No Brasil, a maior parte das pesquisas é feita com os pesquisadores e os alunos de pós-graduação. Na hora que reduzimos as bolsas, não aumentamos o salário dos pesquisadores e toda a ciência é impactada negativamente. Os cortes comprometem até a descoberta de novas pesquisas, é uma atitude que impede a exploração de novos horizontes na ciência”, explica Vera da Silva.

    Pauta e edição: Bruna Souza

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