Fonte: OpenWeather

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    Por que alguns bairros de Manaus são mais quentes que outros?

    Bairro São José é o mais ameaçado por 'ilha de calor' em Manaus

    Os picos de temperatura são mais notáveis na Zona Centro-Sul e Sul de Manaus | Foto: Divulgação

    Manaus - Sabia que um dia de calor pode não ser sentido da mesma forma pelos moradores de diferentes bairros de Manaus? Isso acontece por causa das ‘ilhas de calor’ (fenômenos climáticos decorrentes da elevação das temperaturas) em algumas áreas da cidade que apresentam condições climáticas diferentes.

    Uma pesquisa da Universidade Estadual do Amazonas (UEA), que teve como base o período entre 2002 e 2012, revelou que os picos de temperatura são mais notáveis na Zona Centro-Sul e Sul de Manaus, em bairros como Aleixo e Petrópolis. Outras áreas da cidade com proeminência das Ilhas de Calor são a Cidade Nova, Tancredo Neves, Zumbi e Japiim. E que o bairro São José é mais ameaçado por 'ilha de calor' em Manaus.

     Doutores em Meteorologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), os professores Francis Wagner Correa e Rodrigo Souza realizaram um estudo sobre a Ilha de Calor Urbana (ICU), fenômeno decorrente de oscilações climáticas.

     “Os fatores que podem ter contribuído para a presença do primeiro pico na intensidade de ICUa são os fluxos de energia resultantes de processos industriais, como queima de biomassa, e a presença de veículos automotores no horário de intenso movimento urbano. Além desses fatores, o aquecimento do ar acima da superfície decorrente da perda de radiação termal emergente, pode ter contribuído para o surgimento do segundo valor máximo na IICUa na cidade de Manaus”, explica Wagner.

     O professor Rodrigo utilizou informações de temperatura da superfície estimadas por meio de satélite ambiental, usando resolução de 1 km e 5 km. Esse método também contou com medidas de estações meteorológicas dentro e fora da área urbana.

    O modelo numérico equivale a um conjunto de equações matemáticas que representam as leis físicas da atmosfera ou o clima de uma região. Por ter um pacote numérico pesado, a simulação só pode ser feita no laboratório de modelagem da UEA, por meio do Sistema de Processamento de Alto Desempenho da Universidade (também conhecido como Cluster). Atualmente, o espaço possui 120 processadores fazendo esse trabalho.

     Bairro São José é mais ameaçado por 'ilha de calor' em Manaus

     Um mapeamento feito por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal de Itajubá (Unifei) indicou que bairros como São José Operário, Japiim, Petrópolis, São Francisco, Raiz, Conjunto Vale do Amanhecer, Conjunto Jardim, Petrópolis II, Conjunto Japiinlândia, Conjunto Costa e Silva, Parque Residencial Emanuelle e Residencial Petrópolis sofrerão mais com o fenômeno da ilha de calor, que deve se agravar com o aquecimento global.

    Para identificar as regiões mais vulneráveis, os cientistas fizeram um cálculo usando dados climáticos, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e a distribuição espacial da população acima de 65 anos de idade, que forma o grupo mais sensível ao calor extremo.

     O resultado foi publicado em maio deste ano pela revista científica Climatic Change e é um mapa em alta resolução que permite ver se o risco é maior ou menor em cada setor censitário da Grande São Paulo, conforme as divisões territoriais usadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

    As zonas vermelhas indicam onde estão os habitantes mais propensos a sentir os efeitos da alta temperatura, que incluem desconforto, piora de problemas cardiovasculares e respiratórios e até mortes prematuras.

    A pesquisa considera que uma população de alto risco é aquela que tem maior sensibilidade ao calor extremo (como idosos e crianças), vive em área com temperaturas maiores e tem maior dificuldade para se adaptar às mudanças do clima, seja por falta de acesso à informação ou pelas condições precárias de moradia e saúde.

    Em Manaus, a pobreza é o fator mais determinante, puxando para o topo da lista bairros frutos de antigas ocupações irregulares. Segundo o estudo, para diminuir os danos do calor extremo em uma população é preciso reduzir as temperaturas da região (com ações de urbanização que ampliem a arborização e a circulação de ar, por exemplo) e/ou aumentar o IDH (a partir de melhorias na educação, renda e saúde). Ou seja, são medidas de médio e longo prazo.

    Veja os bairros mais afetados:

    São José Operário, Japiim, Petrópolis, São Francisco, Raiz, Conjunto Vale do Amanhecer, Conjunto Jardim, Petrópolis II, Conjunto Japiinlândia, Conjunto Costa e Silva, Parque Residencial Emanuelle e Residencial Petrópolis, Novo Aleixo (Comunidade Nossa Senhora de Fátima, Conjunto Novo Canaã, Conjunto Mutirão - Amazonino Mendes, Loteamento Novo Aleixo)Tancredo Neves (Conjunto Nova Floresta, Conjunto São Lucas e Invasão Nova Conquista) Alvorada, Betânia, Crespo, São Lázaro, Morro da Liberdade, Zumbi dos Palmares (Conjunto Nova Luz, Residencial Barcelona)Da Paz e Redenção, Compensa, São Jorge, Vila da Prata (Conjunto Jardim dos Barés e Conjunto Vitória Régia).

    Estudantes da rede pública do AM irão utilizar tecnologia para combater ‘ilhas de calor’

    Alunos de 30 escolas da rede pública de Manaus vão participar do projeto ‘Curumim na Chuva’ que prevê a instalação de pluviômetros. A Escola Estadual Nathalia Uchoa, localizada na rua Waldomiro Lustosa, bairro Japiim 2, será a primeira a receber a iniciativa. O projeto é resultado de uma parceria Secretaria de Estado de Educação (Seduc-AM) com o Serviço Geológico do Brasil (CPRM).

     De acordo com a técnica do CPRM, Itaní Oliveira, o programa formará uma nova rede de monitoramento, ‘administrada’, desta vez, por alunos e professores da rede estadual de ensino. “Nosso objetivo é pegar os pluviômetros descartados pelo CPRM [que seguem funcionando], fazer uma manutenção e instalá-los nessas unidades de ensino”, contou a técnica.

    Para executar o projeto, o CPRM fornecerá capacitação de professores, estudantes e servidores da Seduc-AM; materiais didáticos; e a implantação, manutenção e/ou reparo dos pluviômetros. Com isso, Itaní acredita que o Curumim na Chuva permitirá a realização de uma análise das mudanças climáticas em todas as zonas da capital amazonense.

    “Manaus possui muitas ilhas de calor e tem crescido bastante nos últimos anos. Não temos pluviômetros o suficiente para fazer um monitoramento em nível de pesquisa. O Curumim na Chuva fará uma análise das áreas que mais chovem, das que mais sofrem com desmatamento e por aí vai”, acrescentou.

     A partir desses índices, poderão ser criadas ações para amenizar as mudanças climáticas na cidade. “Não será uma pesquisa rápida, pois uma análise bem feita leva em torno de um a dois anos para ser feita. Será um processo contínuo e, com o tempo, queremos expandir para outros municípios do Amazonas”, reforçou a técnica.

    'Calor terrível ao caminho do meu trabalho'

    A auxiliar administrativo Rosângela Gonçalves, 42, diz que todos os dias passa pela as avenidas Max Teixeira, Torquato Tapajós e Constantino Nery para chegar no seu trabalho. Mas percebe diferença de clima pelos bairros que passa. "Quando eu chego na avenida Constantino Nery é um calor terrível. No meu trabalho corro direto para o ar condicionado. Eu percebo a diferença de clima". 

    A ausência de arborização é apenas um dos fatores 

    Diretor de Arborização e Sustentabilidade, Deyvson Braga, explica que a ausência de arborização é apenas um dos fatores que contribui para a sensação térmica elevada. “Outros fatores que colaboram é o adensamento nas cidades, impermeabilização dos solos e a própria circulação de pessoas e veículos e um fator externo que é a mudança climática que afeta o mundo como um todo. As temperaturas estão subindo seja em decorrência a fatores antropogênicos como do homem ou naturais. Nós temos aumento de gases na atmosfera o que reduz a umidade”.

    Para Deyvson, uma das estratégias seria plantar e deixar áreas impermeáveis nas residências e não cobrir com cimentos. “Essas áreas são importantes, pois permitem espaços para plantar e favorecem o escoamento das águas e evitam que a qualidade dos solos seja comprometida”.

    Ilhas de Calor

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