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    Queimadas


    Amazônia em chamas: número de queimadas sobe e ameaça a floresta

    Desde o início de agosto, foram detectados mais de 5,4 mil focos de queimadas apenas no Amazonas

    Queimadas e desmatamento ilegal ameaçam flora, fauna e a saúde humana | Foto: Diego Peres/Governo do Amazonas

    Manaus - A Amazônia está queimando. De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), houve um aumento de 70% no número de focos de queimadas no Brasil em 2019. A maioria está concentrada nos estados da região amazônica, com destaque para o Pará, Mato Grosso e Amazonas. 

    Desde o começo de agosto, o satélite-referência do Inpe registrou mais de 5,4 mil focos de queimadas no Amazonas. Lábrea, Apuí, Novo Aripuanã, Boca do Acre e Manicoré são os municípios com mais ocorrências. Apesar de comuns nessa época do ano por causa do tempo seco do verão amazônico, especialistas ambientais creditam o avanço das queimadas ao aumento do desmatamento.

    “Só o tempo seco não explica o crescimento das queimadas”, afirma o biólogo e cientista Phillip Fearnside. Ele argumenta que não há um período de estiagem mais intenso esse ano, nem eventos climáticos extremos que justifique a alta. “O fato de o número ser recorde significa que tem algo por trás e isso é o surto de desmatamento recente”. Em julho, o Inpe divulgou que o desmatamento na Amazônia cresceu 278% em relação ao mesmo período em 2018.

    Número de Queimadas

    Fogo que se alastra

    Fearnside explica que a queima é um processo controlado, utilizado para limpar os resíduos como troncos, folhas e galhos após a abertura de uma nova área para lavoura ou pastagem. Quando a queima sai de controle, acontecem os incêndios florestais. 

    “Nesse processo, a floresta vai sendo fragilizada. As áreas que são danificadas agora estarão mais vulneráveis no futuro, porque a madeira morta que resta pode pegar fogo na próxima seca. É um ciclo vicioso que degrada a floresta”, explica o biólogo.

    Efeitos

    Os incêndios põem em risco a fauna e a flora naturais e têm impactos diretos na qualidade do ar. A fumaça das queimadas se espalha e encobre as cidades amazônicas, como vem sendo observado no Amazonas, Pará e Mato Grosso. Nessa fumaça, há elementos tóxicos que podem afetar a saúde humana. 

    O tema das queimadas chamou a atenção do público após o incêndio em uma reserva ambiental no município de Nova União (RO). As chamas duraram 20 dias e os habitantes do local ainda convivem com a névoa provocada pelo fogo.  Na última segunda-feira (19), uma nuvem marrom escureceu o céu de São Paulo - o que logo foi atribuído à uma combinação entre fumaça das queimadas amazônicas e uma frente fria.

    Desde então, vários órgãos ambientais alertaram para o perigo que a floresta corre. A Agência Espacial Americana (NASA) divulgou uma imagem que mostra o rastro de fumaça descendo pela América do Sul e atingindo o Centro-Oeste, Sudeste e Sul brasileiros. 

    Corredor de fumaça das queimadas amazônicas
    Corredor de fumaça das queimadas amazônicas | Foto: Reprodução/NASA

    Situação de emergência

    No início do mês, o governo do Amazonas decretou situação de emergência por conta do número de queimadas na Região Metropolitana de Manaus e no Sul do Estado. Desde então, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) monitora a situação e elabora estratégias para controlar o desmatamento e as queimadas. 

    “A Secretaria está atenta a estes casos desde o início do ano, procurando, por meio do Comitê Estadual de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais, Controle de Queimadas e Monitoramento da Qualidade do Ar, realizar ações de formação de brigadas para diminuir os impactos dos focos de calor no estado", disse a Sema em nota.

    Para o combate às queimadas, o Estado uma força-tarefa estadual envolvendo órgãos de educação ambiental, comando e controle, entre eles o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), Batalhão de Incêndio Florestal e Meio Ambiente do Corpo de Bombeiro (Bifma) e a Delegacia do Meio Ambiente (Dema). Eles atuam com ações de educação ambiental de conscientização da população e formação de brigadistas. 

    Na última quarta-feira, o Ipaam identificou os responsáveis pelo desmatamento de 99.869,8 hectares no Amazonas.

    Número de Queimadas

    Desmonte ambiental

    Para Phllip Fearnside, as medidas antiambientalistas tomadas pelo presidente Jair Bolsonaro contribuem para o avanço da degradação da floresta. Segundo o biólogo, há um desmonte das políticas ambientais que favorece o crescimento 

    "O foco antiambientalista do presidente e do ministro do Meio Ambiente [Ricardo Salles] vem basicamente parando a fiscalização e aplicação de multas aos crimes ambientais. Isso leva as pessoas a pensar que são impunes, então vão desmatando e queimando mais e mais", argumenta o biólogo. Ele também cita o avanço de exploração madeireira que deixa a floresta vulnerável.

    Quando o Inpe divulgou o aumento de 278% no desmatamento, a informação gerou críticas do presidente Bolsonaro, que questionou a veracidade dos dados. A polêmica culminou na exoneração do então diretor do Instituto, Ricardo Galvão. 

    Outro fator importante que afeta a política ambiental é o bloqueio de recursos monetários para o Fundo Amazônia
    Outro fator importante que afeta a política ambiental é o bloqueio de recursos monetários para o Fundo Amazônia | Foto: Ricardo Oliveira/IPAAM

    O presidente da República chegou a declarar que os incêndios florestais recentes  podem ter sido provocados por

    ONGs de proteção ambiental em uma “campanha” contra o governo federal, mas não apresentou provas para a acusação. Já o ministro do Meio Ambiente (MMA)  Ricardo Salles chegou a chamar de “fake news” a ligação entre as queimadas e a fumaça observada em São Paulo. 

    Outro fator importante que vem afetando a política ambiental é o bloqueio de recursos monetários da Noruega e da Alemanha para o Fundo Amazônia, que atua na proteção do bioma. Parte da luta contra os incêndios florestais é financiada pelo acordo, que corre o risco de ser suspenso após o MMA reformular a gestão do fundo e reduzir a participação da sociedade civil nas decisões sobre os recursos.

    Entramos em contato com a assessoria do Ministério para uma declaração, mas até o fechamento desta matéria não obtivemos resposta. 

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