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    Esgoto


    Educandos: "Não queremos ser o ânus de Manaus"

    Comunidade do bairro se mobiliza contra Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) que infesta o ar com mau cheiro e vai poluir as águas do Rio Negro

    ETE é a agonia do Educandos | Foto: Lucas Silva

    Manaus - Uma obra que vem sendo executada na Estação de Pré-Condicionamento (EPC) está tirando o sono dos moradores de um dos mais populosos e históricos bairros de Manaus, o Educandos.

    O objetivo da intervenção é ampliar e transformar uma estação de pré-condicionamento – onde é feito um tratamento preliminar do esgoto – , localizada na esquinas das ruas Manoel Urbano com a Boulevard Sá Peixoto, em Estação de Tratamento de Esgoto (ETE), isto é, uma unidade operacional gigantesca do sistema de saneamento que vai receber todas as cargas poluentes de esgotos do bairro – inclusive fezes – e devolver o efluente tratado aos rios. E é aí que mora o perigo, porque além do mau cheiro que exala no local, as águas poderão sofrer eventuais impactos ambientais, se não tiver o devido tratamento.

    — Não queremos ser o c* de Manaus! – reagiram os comunitários com uma frase apelativa exposta numa faixa de protesto.

    A obra vem sendo realizada por meio de empréstimo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), no total de R$ 36,539.433 milhões, “Dinheiro publico em benefício de uma empresa privada – a Águas de Manaus – que passará a justificar a cobrança de Taxa de Esgoto dos amazonenses”, denunciou a Associação de Moradores ao MPE.

    Moradores foram para as ruas protestar com faixas que expressam o que pensam da estação de esgotos
    Moradores foram para as ruas protestar com faixas que expressam o que pensam da estação de esgotos | Foto: Leonardo Mota

    Tentando evitar o pior, a Associação de Moradores do Bairros de Educandos, tendo por base os princípios da precaução e prevenção instituídas em leis vigentes no país, solicitou a intervenção do Ministério Público, no sentido de ajuizar uma Ação Civil Pública com pedido de Liminar e Tutela de Urgência para que a obra seja embargada e a estação seja levada para outro lugar que não comprometa a vida da comunidade e de seus moradores..

    Estação de tratamento

    A Estação de Tratamento de Esgotos que vem sendo construída no Educandos e causando a revolta de seus habitantes será conectada na verdade a um sistema que tem como suporte um emissário submarino de recolhimento e lançamento de esgoto doméstico no mar. Um observador menos desavisado poderia perguntar se toda aquela “sujeirada” é jogada na água e pronto? Mas não é bem assim. 

    Espaço onde está sendo construído o ETE
    Espaço onde está sendo construído o ETE | Foto: Lucas Silva

    Primeiro o esgoto passa por várias etapas de tratamento e, quando é despejado, já perdeu mais de 90% dos coliformes fecais que possuía. O resto da limpeza, aí, sim, fica por conta da diluição e dispersão natural dos resíduos domésticos nas águas do Rio Negro, um dos mais lindos do mundo. Mas aí tem um porém.

    Se não forem tomados certos cuidados, a área onde o esgoto tratado é lançado pode sofrer algum tipo de desequilíbrio ecológico. É o que alerta Erasmo Amazonas, ex-deputado estadual, líder comunitário e “fanático” pelo bairro onde nasceu, se criou e vive até hoje.

    — Isso é inevitável. Moro aqui ao lado e já estamos sofrendo com o mau cheiro de bosta. Por mais que eles digam o contrário, o local onde é instalada uma estação dessas sempre acaba tendo um impacto ambiental, principalmente no fundo do mar, onde é feita a descarga. Se não ocorrer uma diluição correta, o nível de oxigênio da água pode baixar e afetar pequenos vegetais e até os peixes –, lamenta, em tom de revolta.

    O ex-deputado estadual, Erasmo Amazonas, alerta para o impacto ambiental que o ETE terá nas águas do rio Negro
    O ex-deputado estadual, Erasmo Amazonas, alerta para o impacto ambiental que o ETE terá nas águas do rio Negro | Foto: Leonardo Mota

    Esta é o que se pode chamar crônica de uma tragédia anunciada. Em 1974, a diretoria da então Companhia de Saneamento de Amazonas (COSAMA) procurou o proprietário de um terreno situado na esquina da rua Manoel Urbano com Boulevard Sá Peixoto sob e argumento de que a Companhia pretendia instalar ali uma Estação de Tratamento de Água. Inocente e acreditando que faria um grande bem à comunidade, o bom homem decidiu vender o terreno. No entanto, no lugar da estação de Tratamento de Água, foi instalada uma Estação de Tratamento de Esgoto e acarretou impactos os mais diversos, entre eles transtornos no trânsito, ruídos e odores.

    As ruas Manoel Urbano e Boulevard Sá Peixoto, as mais antigas do bairro, antes pacatas e tranquilas – por serem vias sem saída e por essa condição sem trânsito de veículos -, eram transformadas nos fins de semana em rua de lazer para as crianças.

    Mas a tranquilidade foi quebrada com o incessante trânsito de caçambas coletoras de resíduos sólidos gerado pela ETE transportados para o aterro sanitário municipal.

    A estação existe desde a década de 70 e será ampliada
    A estação existe desde a década de 70 e será ampliada | Foto: Leonardo Mota

    O presidente da Associação de Moradores, Edilson de Abreu Ribeiro, lembra que, devido ao fedor de m(*) durante longo tempo, os moradores evitavam convites a parentes e amigos para não passar vergonha diante deles. É que as pessoas, por desconhecerem a existência da ETE, achavam que o mau cheiro provinha das próprias residências. Quando alguém manifestava repulsa diante do mau odor, os moradores com vergonha tinham que explicar que ele provinha da ETE, não de suas casas.

    — Havia relatos de pessoas que vomitavam na hora das refeições.

    Alguns moradores tentaram vender suas casas e se mudar para outro lugar para fugir do problema. Mas, com a desvalorização imobiliária pela presença da ETE, ninguém se interessava em comprar casa perto de um depósito de fezes –, conta Edilson.

    Esgoto causa problemas de saúde nos moradores
    Esgoto causa problemas de saúde nos moradores | Foto: Leonardo Mota

    Além disso, o agravamento na saúde das pessoas foi o estopim para que a comunidade promovesse uma intensa mobilização com a finalidade de interromper o tratamento de esgoto que ali se instalara.

    Além de grande repercussão na Imprensa, o movimento contou com o apoio do então Senador da República Jefferson Péres e do então Procurador Geral do Ministério Público Estadual Mauro Campbell Marques. A intervenção das duas autoridades foi de fundamental importância para que a empresa Manaus Ambiental, alguns anos depois, suspendesse o tratamento de esgoto secundário.

    Ela concordou em transformar a ETE em Estação de Pré-Condicionamento, uma espécie e caixa de passagem por onde o esgoto passava por meio de um emissário e desaguava em um trecho do rio Negro. Mas agora, depois de tanta luta, a ameaça está de volta.

    O Educandos carrega um histórico de perdas

    O presidente da Associação de Moradores do Bairro de Educandos, Edilson de Abreu Ribeiro, também não deixa por menos. Num desabafo duro, ele diz que a sorte do Educandos tem sido, ao longo de sua história, a de experimentar a gravidade elevada ao máximo de todas as mazelas da capital.

    — Educandos foi e continua sendo um sorvedouro das angústias de Manaus. Se o abandono revela a sua constância em outros bairros de Manaus, em Educandos ele se acentua ainda mais, porque os maiores dramas da cidade encontram ali o terreno fortemente adubado para tornar a aflição dos educandenses ainda mais trágica.

    O líder comunitário adverte que Educandos mantém um histórico de perdas. E lembra que a belíssima paisagem do outrora límpido e caudaloso igarapé de Educandos foi roubada.

    Com a ocupação desenfreada de suas margens, passou de marco paisagístico área de conflito e deterioração ambiental. — Educandos perdeu a praia da Ponta Branca com a criminosa retirada da areia para servir de aterro a um estacionamento na Feira da Panair que nunca aconteceu porque a correnteza do Rio Negro levou toda a areia.

    Do abandono do Amarelinho ao sinistro que destruiu 600 casas

    O bairro já foi cartão postal da cidade
    O bairro já foi cartão postal da cidade | Foto: Lucas Silva

    Muitos olhares já não apreciam mais um dos logradouros mais frequentados pelos nativos de Educandos e turistas – o “Amarelinho”, que num período recente foi um dos maiores atrativos de Manaus.

    A invasão de barracas, lanches, o aspecto de lugar sujo, hostil e os sinais de descuido com a preservação do local distanciam cada vez mais visitantes e os próprios moradores.

    A falta de uma política habitacional consistente, somada à omissão do poder público, resultou na expansão da área denominada “Bodozal”, com todas as mazelas sociais consequentes. A favelização em escala gigantesca por falta de fiscalização foi o estopim do pavoroso sinistro que consumiu mais de 600 casebres, numa das maiores tragédias a se abater sobre a comunidade. 

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