Fonte: OpenWeather

    Pesquisa


    Vídeo: futuro do AM é quente e sem peixes, aponta simulador de clima

    Projeto do Inpa simula o clima no ano de 2100, resultados são alarmantes para peixes amazônicos observados

    Peixes observados durante a pesquisa apresentaram deformações. | Foto: Quang Nguyen Vinh/Pixabay

    Manaus - Você já imaginou como será o ano 2100?  O projeto Adaptações da Biota Aquática da Amazônia (Adapta) , do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), não só pensou, como criou um simulador para saber quais perspectivas e o que o futuro nos reserva. No Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular (Leem) foram construídas salas com tecnologia capaz de apresentar o que será o nosso clima no final do século, com base nos dados oferecidos pela floresta. 

    Entre os resultados observados, alguns são bem alarmantes. Um dos nossos peixes favoritos, o tambaqui apresentou 40% de suas larvas com deformação. Este número pode indicar até mesmo extinção para esta espécie. Outro resultado preocupante é o do mosquito da malária. De acordo com estudos, eles vão ter gerações mais curtas e, portanto, um número maior de mosquitos vão estar presentes no ambiente. Se tem mais mosquito e eles são transmissores da malária, nós podemos ter mais malária. 

    Entre os peixes estudados na sala climática estão os peixes ornamentais, cardinal e neon, tambaqui, pirarucu, matrinxã e acaraçu. "Não dá para generalizar os resultados que a gente encontrou para todas as espécies. Nós temos mais de 3 mil espécies amazônicas, a gente não poderia colocá-las todas nas nossas salas", diz o coordenador geral do projeto, Adalberto Luís Val.

    Salas de simulação climática no Leem/Adapta.
    Salas de simulação climática no Leem/Adapta. | Foto: Divulgação Leem/Adapta

    O simulador de clima é composto por quatro salas no total. Uma que reproduz o atual clima da floresta  e outras três que apresentam as perspectivas para um futuro brando, intermediário e drástico. Os dados gerados têm como base o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, mais conhecido pelo acrônimo IPCC. 

    "Temos um conjunto de sensores na floresta que medem quais são os níveis de CO2 (dióxido de carbono), temperatura, umidade, luminosidade e outros fatores", conta o pesquisador. Estes sensores transmitem as informações coletadas na floresta para os computadores por meio de rádio. As informações da floresta são atualizadas de dois em dois minutos. "O sistema mede lá e  transmite para cá. O computador ajusta a máquina para fazer a correção do cenário", explicou. 

    Simulador climático 

    O painel faz modelagens e estima qual é o cenário ambiental que nós teremos para um período futuro. As percepções variam de acordo com aquilo que tem na floresta. O ano de 2100 foi escolhido por ser uma data emblemática. "Ou a gente consegue mudar as coisas ou a gente vai ver uma revolução. Não é que vai esperar o ano 2100 para acontecer, é que as coisas já estão acontecendo", explica Adalberto. 

    Parte interior de um dos simuladores climáticos.
    Parte interior de um dos simuladores climáticos. | Foto: Divulgação Leem/Adapta

    A primeira sala é chamada de sala controle ou sala referência. Nela, os computadores reproduzem as mesmas condições que têm na floresta. A segunda sala simula o cenário brando. A terceira, cenário intermediário, e a quarta, cenário drástico. Estas últimas três salas prevem um cenário para 2100. Brando, intermediário e drástico são modelagens feitas com base numa perspectiva de comportamento da sociedade. Se a sociedade continuar fazendo o mesmo que hoje, teremos um cenário drástico. 

    Nas salas de intermediário e drástico os seres humanos não conseguem ficar mais de três minutos, pois o nosso corpo não está adaptado às condições climáticas. As salas não têm a presença constante dos pesquisadores pois a respiração também interfere nos resultados. 

    Resultados 


    Os pesquisadores encubaram peixes, plantas, insetos e fungos nas salas climáticas para ver o que acontece com estes organismos nos diferentes cenários. "O que a gente viu de cara, na primeira fase do projeto, é que havia um impacto grande no curto espaço de tempo desses organismos todos", conta Adalberto. 

    A partir disso a equipe começou a avançar os estudos para entender porque os organismos estavam sendo afetados. "Se a gente sabe o porquê das coisas a gente pode interferir nos processos  para poder minimizar o efeito dessas mudanças", disse. Dois exemplos disso: os mosquitos da malária e o tambaqui.

    Os mosquitos que transmitem a malária, de acordo com evidências do estudo, vão ter gerações mais curtas e portanto um número maior de mosquitos vão estar presentes no ambiente. Se tem mais mosquito no ambiente e eles são transmissores da malária, nós podemos ter mais malária. Mas se a gente tiver mais mosquitos no ambiente e eles não forem transmissores ou não estiverem em fase de transmissão, tem que usar uma outra estratégia para poder cuidar do que vai acontecer. "A gente está fazendo experimentos com isso, com grupo especializado nessa parte de malária para poder entender essa questão. Isso já faz parte da segunda parte do projeto", contou. 

    O tambaqui apresentou comportamento estranho nas salas climáticas. "Ele comia mais, mas não crescia. Nós começamos a analisar a genética comparativa dessas quatro salas e a gente observou que a medida que ele vivia em cenários mais drásticos, com mais problemas, havia uma mudança muito forte na expressão dos genes que estavam contidos na informação genética deles", relata. 

    Tambaquis apresentaram deformação.
    Tambaquis apresentaram deformação. | Foto: Pixabay

    Os pesquisadores começaram a analisar desde o ovo da larva do peixe para entender como se dá esse processo. Cerca de 40% das larvas do tambaqui, nos primeiros 16 dias de vida, apresentaram uma deformação esquelética como deformidade na mandíbula, escoliose e cifose.  Isso significa que, no contexto das pisciculturas, pode acontecer uma perda muito grande de animais. Já no ambiente natural, os peixes com deformidade não vão conseguir fugir dos predadores naturais.  "O problema é extremamente sério, pois trata-se de uma espécie emblemática da Amazônia que é o tambaqui", conta.   

    A pesquisa mostrou que vários dos genes que estavam sendo modificados estavam relacionados a problemas de formação do corpo do animal perante uma nova temperatura. O caminho para lidar com isso é fazer melhoramento genético das plantas para os peixes, para poder selecionar aqueles que conseguem viver melhor em temperaturas mais altas.

    Para chegar  a esta conclusão, o projeto trouxe para as salas climáticas tambaquis de diferentes lugares do Brasil, principalmente do sul. "A gente observou que os peixes do clima frio, como os de São Paulo, tinham mais problemas ainda que os nosso aqui. O que a gente conclui dessa história toda? Que era possível fazer seleção genética dos peixes para poder viver num ambiente mais quente", contou o pesquisador. Temos que preparar os peixes para poder viver nesse ambiente desde já. 

    Humanos

    Se as o futuro não reserva boas coisas para estes seres estudados, como fica a vida humana neste contexto? "A gente vai se adaptar a essas mudanças. A gente vai ter revoluções importantes nesse processo. Da mesma forma que nós tivemos extinções significativas no passado, nós vamos passar por um processo também muito significativo do ponto de vista biológico, com  adaptações intensas, desaparecimento de espécies", diz o pesquisador. 

    O homem neste contexto tem duas vantagens. Primeiro, sua distribuição mundial. Estamos em todos os lugares do mundo, desde os lugares mais quentes, até os lugares mais frios. Segundo, o homem tem inteligência para adaptar os espaço, como por exemplo, criar um ar condicionado para aliviar o calor. 

    "A gente vai ter efeitos significativo no homem, nas plantas e nos animais, mas aqueles que têm uma capacidade adaptativa maior, vão conseguir sobreviver nesses ambientes", explica. Sendo assim, teremos que lidar com dois grandes desafios: alimentação e saúde. 

    Dependemos de um conjunto imensos de organismos para nos alimentar, precisamos cuidar deles para que eles possam continuar existindo. Aprender a usar outros organismos e usufruir do etno conhecimento será essencial.

    Se os estudos apontam que vamos ter mais mosquitos transmitindo a malária, como vamos enfrentar isso? Daí a preocupação com fatores de saúde. 

    Efeitos da mudança climática na Amazônia

    Adalberto conta que em nenhum outro lugar do mundo tem um ambiente tão propício para este tipo de estudo como Amazônia.  Os efeitos das mudanças naturais já vinham sendo estudados, como por exemplo oscilação no nível de água dos rios e variações de características da água (oxigênio dissolvido e temperatura). Recentemente foram incorporados nesses processos as mudanças ambientais causadas pelo homem. 

    À época da Revolução Industrial, por exemplo, a atmosfera tinha algo em torno de 280 ppm de CO2. Atualmente, nós já passamos os 410 ppm, e a perspectiva passar dos 1000 ppm no final do século. Isso significa que uma quantidade imensa de CO2 está sendo colocado na Terra e não está se dissipando para o espaço. Essa quantidade de CO2 forma uma camada que não deixa o calor da Terra se dissipar. O resultado é o que chamamos de aquecimento global. 

    O aquecimento da Terra causa uma série de problemas. Os peixes da Amazônia, por exemplo, têm uma janela de temperatura  muito estreita em que conseguem sobreviver. A tolerância deles é da ordem de 32 e 33 graus Celsius. "Nós estamos projetando temperaturas que são da ordem de 4 a 5 graus acima disso, dentro de 50 a 80 anos", conta Adalberto. 

    Isso significa que ou os peixes vão se adaptar ou eles vão desaparecer do sistema, resultando na extinção dessas espécies. Boa parte delas são espécies utilizadas como alimento, são fontes de proteínas para as pessoas, então isso embute também uma questão de segurança alimentar. 

    Adicionalmente a esta questão, as mudanças climáticas têm uma série de outros fatores envolvendo as águas do Amazonas. Aumentando o CO2 e a temperatura, as águas na Amazônia ficarão ainda mais ácidas. Outro ponto importante é como a água tem uma capacidade limitada para dissolução de gases. Com o aumento do CO2 dissolvendo na água, há uma diminuição dos outros gases. Um desses gases que é muito importante, é o oxigênio, os peixes dependem do oxigênio na água, então as águas que já não têm muito oxigênio, vão ter menos ainda. 

    Isso não significa que não haverá vida debaixo do rio, significa que os desafios serão maiores para os animais que vivem nesses ambientes. No passado, há milhões de anos atrás, nós já tivemos uma quantidade de CO2 muito mais altas na atmosfera e temperaturas mais altas também. Foi exatamente quando surgiram os peixes. "A gente tem uma hipótese de que várias espécies de peixes têm informações no seu material genético para poder sobreviver nessas condições. Eles não estão usando porque não chegaram a um momento crítico de usar essas informações. Esta é uma coisa que a gente está procurando saber", disse o pesquisador. 

    Os peixes também estão lidando com produtos novos que estão sendo jogados ambiente. No bioma amazônico temos cerca de 50 milhões de pessoas vivendo, incluindo países no norte da América do Sul. Toda essa população lança nos corpos d'água uma quantidade imensa de material poluente, que vai desde produtos químicos que nós usamos para limpar as casas, a produtos industriais e medicamentos. Como a maior parte da amazônia não tem saneamento básico, isso vai diretamente para os rios. Com o advento das mudanças climáticas, o efeito desses poluentes aumenta. 

    Como reverter?

    Nossa sociedade tem uma série de coisas que são essenciais ao nosso conforto, mas que geram situações mais complicadas no futuro. Uma das formas de mudar isso é começar a investir em energia de fontes limpas, como o sol e o vento. 

    Energia solar e eólica são alternativas para reverter este cenário.
    Energia solar e eólica são alternativas para reverter este cenário. | Foto: Pixabay

    "Se a gente não mudar o nosso comportamento, no ano de 2100 a gente vai ter um cenário drástico. Se agente mudar mudar um pouquinho, a gente vai ter um cenário intermediário. Se a gente mudar bastante, otimizando os meios de transporte,  diminuindo a perda de alimentos, que hoje tem o número alarmante de 40% do alimento que colhemos no campo perdido, então é possível ter o cenário brando", aponta Adalberto.

    A mudança depende de cada um de nós. "Se eu pudesse resumir tudo isso numa única palavra, eu diria para você: educação. Educação é a base para esse processo todo. Eu estou falando da capacidade da sociedade em se apropriar das informações e mudar a postura. A gente precisa mudar as nossas posturas. Ninguém vai fazer isso sem ter educação, sem se apropriar das informações adequadas", conclui. 

    Assista à reportagem da TV Em Tempo:

    Assista a reportagem | Autor: Samara Maciel/TV Em Tempo
     


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