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    Amazônia


    Estudo sobre rios do AM é publicado em periódico internacional

    Pesquisa foi feita nas águas do Rio Negro, no Arquipélago de Anavilhanas, que passa pelos municípios de Novo Airão, Iranduba e Manaus

    Pesquisa busca entender o ecossistema para evitar danos ambientais | Foto: Divulgação

    Manaus - Um novo estudo feito por pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) ganhou projeção internacional após ser publicado no periódico 'Water'. A revista reúne pesquisas sobre a água do planeta e agora publicou a análise dos cientistas do Amazonas. Eles estudaram a hidrologia - água - do conjunto de ilhas de Anavilhanas, que integra os municípios de Novo Airão, Iranduba e Manaus.

    Antes de explicar o estudo em si, é preciso ter em mente alguns pontos essenciais. O primeiro deles é que o Arquipélago de Anavilhanas está dentro da bacia do Rio negro, o segundo maior rio de água doce do mundo. Não apenas, mas a mesma água também ajuda a formar o Rio Amazonas, que tem o primeiro lugar nos maiores rios do planeta.

    É este importante arquipélago ou melhor, a água que está ao redor dele, que os pesquisadores decidiram estudar. A pesquisa, quando publicada na 'Water', ganhou o título 'Análise de Sedimentos Suspensos no Arquipélago de Anavilhanas, Rio Negro, Bacia Amazônica', e observou justamente algumas propriedades que estão presentes nas águas daquela região.

    O Parque Nacional de Anavilhanas é uma unidade de conservação federal, criada inicialmente como Estação
Ecológica em 1981
    O Parque Nacional de Anavilhanas é uma unidade de conservação federal, criada inicialmente como Estação Ecológica em 1981 | Foto: Divulgação

    O estudo é assinado pelos cientistas Rogério Marinho, Wagner Picanço, Naziano Pantoja e Tereza Cristina. No entanto, ao todo, participaram cerca de dez pessoas. 

    O estudo, segundo os pesquisadores, surgiu para atender a demanda dos gestores de unidades de conservação do Baixo Rio Negro, como o do Parque Nacional de Anavilhanas, para que eles pudessem conhecer mais dos rios e assim tomar melhores decisões visando a preservação dos afluentes.

    Como foi feito

    Durante sete expedições entre os anos de 2016 e 2017, os cientistas coletaram materiais que podem ser encontrados nas águas do arquipélago, num trecho de 200 km do chamado baixo Rio Negro. No período, eles realizaram medição da vazão, profundidade e velocidade da água do rio, bem como, a concentração de sedimentos (materiais sólidos, geralmente de rochas, que viajam com o rio) e medições para calibrar imagens de satélites. 

    Com a análise dos dados coletados, os pesquisadores puderam preencher, pelo menos de início, um 'vazio' que dizem existir nos dados sobre os rios que circulam pela Amazônia. 

    Foram realizadas 70
medições hidrológicas, 151 aquisições de dados radiométricos,  coleta de 439 amostras de sedimentos
em suspensão, 90 de carbono orgânico dissolvido e 105 dados limnológicos
    Foram realizadas 70 medições hidrológicas, 151 aquisições de dados radiométricos, coleta de 439 amostras de sedimentos em suspensão, 90 de carbono orgânico dissolvido e 105 dados limnológicos | Foto: Divulgação

    "O conhecimento das características físico-químicas da água do rio Negro em Anavilhanas produzido neste projeto contribuirá para reduzir lacunas de conhecimento sobre a dinâmica hidrológica e sua influência para o manejo do Parque Nacional de Anavilhanas e proteção das espécies e ecossistemas locais", diz um trecho do artigo.

    Por fim, o estudo, segundo os cientistas, ajuda também a fornecer informações importantes para a proteção do Parque Nacional de Anavilhanas, como quais possíveis alterações podem ocorrer caso haja, por exemplo, grandes obras de infraestrutura no Rio Negro e Rio Branco. 

    A importância de se estudar os rios

    Segundo a Organização Nacional Francesa de Hidrografia (OHI), atualmente conhece-se menos de 10% do relevo dos fundos marinhos, além dos duzentos metros de profundidade. Apesar do número se referir ao mar, pode dar uma ideia de como se conhece pouco da água do planeta, que representa dois terços da terra.

    Rogério Marinho é geógrafo pela Universidade Federal do Amazonas e tem doutorado em Clima e Ambiente pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Atualmente professor na Ufam, ele é um dos pesquisadores do estudo no Arquipélago de Anavilhanas e reitera a necessidade de se conhecer mais sobre as águas que circulam pelo Amazonas.

    Rogério Marinho também é mestre em Sensoriamento Remoto pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em São José dos Campos (SP)
    Rogério Marinho também é mestre em Sensoriamento Remoto pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em São José dos Campos (SP) | Foto: Divulgação

    "Para você ter uma ideia, dos dez maiores rios do mundo, quatro deles circulam no Amazonas. São eles o Rio Solimões, o Rio Negro, Rio Madeira e Rio Japurá. No entanto, a Agência Nacional de Águas conhece menos sobre esse último rio do que, por exemplo, o Rio Paraná", comenta o geógrafo.

    Ele diz que acontece uma situação semelhante com o Rio Negro, que mesmo circulando próximo a Manaus, não se sabe bem como o volume de água e o material transportado varia durante a cheia, a seca e a vazante.

    "Esse tipo de informação é importante para saber, por exemplo, em caso de grandes cheias e secas, como a população, a navegação e o ecossistema típico de igapó podem ser afetados. É essencial também para identificar áreas prioritárias para ações de conservação, ou como evitar e diminuir impactos causados em caso de grandes obras, como pontes, usinas hidrelétricas e estradas", aponta o geógrafo.

    A ciência em evidência

    Durante a pandemia de coronavírus em 2020, a ciência parece ter voltado a receber boa parte da atenção da população do planeta. Isso porque espera-se - dia após dia - que cientistas descubram uma vacina ou cura para a nova Covid-19. 

    Rogério ressalta que essa crise tem mostrado a importância da ciência e da tecnologia para apontar soluções de problemas para a sociedade. No caso do coronavírus, uma cura. Já no estudo do Arquipélago de Anavilhanas, um conhecimento de área para 'prever' danos ambientais.

    Rogério acredita que rios da Amazônia devem ser mais estudados
    Rogério acredita que rios da Amazônia devem ser mais estudados | Foto: Divulgação

    O geógrafo diz que nos últimos anos houve crescimento de interesse da população pela ciência, o que gerou novos estudiosos com formação na área, o que ele chama de 'recursos humanos'.

    "O Amazonas possui um capital natural pouco conhecido, assim, sentimos uma grande satisfação em termos no estado recursos humanos capacitados com competência de produzir conhecimento avançado sobre nosso ambiente, com capacidade de interagir com grandes centros nacionais e internacionais de pesquisa", ressalta.

    Ele lembra da importância do trabalho em conjunto de pesquisadores e estudantes para concluir o estudo no Arquipélago de Anavilhanas. Rogério diz que, devido ao grande número de dados na pesquisa, o estudo teve uma grande rede de colaboração com geógrafos, geólogos e químicos da Ufam. Além disso, teve apoio de técnicos da Instituição, e de outras, como do Inpa e do Serviço geológico Brasileiro (CPRM). 

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