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    Amazônia e a 'epidemia' de queimadas com curva crescente

    Uma área que corresponde três vezes o tamanho de São Paulo aguarda para ser queimada entre junho e setembro, na Amazônia, mostra estudo do Ipam

    Queimadas estão em curva crescente há anos | Foto: Getty Images

    Manaus - Uma área equivalente a três cidades de São Paulo está prestes a pegar fogo na Amazônia. É o que mostra um novo estudo realizado por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). A nota técnica dos cientistas aponta para uma área de 4,5 mil km², desmatada entre janeiro de 2019 e abril de 2020, que aguarda para ser queimada na estação seca. A temporada deste ano começa no final de junho.

    Quatro estados que compõem a Amazônia concentram 88% da área desmatada e ainda não queimada. Os 4,5 mil km² estão divididos entre Pará (42%), Mato Grosso (23%) Rondônia (13%) e Amazonas (10%). 

    Desmatadores ilegais têm um 'manual' para colocar a floresta abaixo. Primeiro cortam as árvores, depois delimitam a área a ser queimada e em seguida acendem o fogo. A preocupação dos cientistas do Ipam está voltada para o passo final desse 'tutorial do desflorestamento'.

    Não bastassem as árvores já derrubadas, maio e junho são também períodos em que o desmatamento na Amazônia costuma registrar alta, mas os meses não entraram na pesquisa, porque foi finalizada antes. 

    Desmatamentos aumentam em maio e junho
    Desmatamentos aumentam em maio e junho | Foto: Arquivo/Ibama

    "Se considerarmos que tradicionalmente os meses com maiores índices de desmatamento (sic) são maio, junho e julho e mantidas as taxas de desmatamento registradas entre maio a junho de 2019 (3.930 km²), podemos esperar que essa área desmatada e não queimada dobre até final de julho. Ou seja, teremos cerca de 9 mil km² de floresta derrubada ao chão no início de agosto, quando grande parte da queima acontece na Amazônia", diz a nota técnica.

    Com tanta árvore em chamas, a fumaça no ar se torna mais um problema, segundo os pesquisadores. "Se 100% do que for desmatado também for queimado, pode-se instalar uma calamidade de saúde sem precedentes na região, ao se somar aos efeitos da Covid-19", alertam eles.

    Paulo Moutinho é pesquisador sênior e atua em estudos sobre desmatamento no Ipam. Ele é um dos autores da nota técnica que originou esta reportagem. Para o cientista, é preciso que todos tenham consciência do risco das queimadas.

    "Com 80% da população brasileira vivendo em cidades, nós perdemos a conexão com a natureza. O resultado é uma população que não consegue ver que estas conexões são vitais para o bem-estar no ambiente urbano. A fumaça das queimadas é um bom exemplo: o mundo urbano só se lembra do desmatamento quando as cidades são gravemente afetadas pela fumaça das queimadas", afirma o cientista.

    Queimadas propiciam doenças

    Mapa do Ipam
    Mapa do Ipam | Foto: Divulgação

    Em estimativa, os pesquisadores apontam que as queimadas deste ano podem superar a catástrofe do ano passado e colaborarem para a sobrecarga nos sistemas de saúde. A nota técnica do Ipam explica que a fumaça de incêndios polui o ar e potencializa doença respiratórias. 

    A previsão dos cientistas parte de dois entendimentos. O primeiro deles é o crescimento acelerado e contínuo das queimadas, em comparação com anos anteriores. Uma reportagem do EM TEMPO mostrou que janeiro a abril de 2020, foram registrados 359 focos de incêndio na Amazônia. São 110 a mais do que no mesmo período do ano passado, quando esse dado havia sido 249.

    Comparação de foco de incêndio registrados no início de 2019 e 2020
    Comparação de foco de incêndio registrados no início de 2019 e 2020 | Foto: Waldick Junior/Em Tempo

    "O segundo fator decorre do primeiro. Se toda essa área calculada e detalhada nesta nota técnica queimar, a fumaça vai atingir uma população já vulnerável ao novo coronavírus, que provoca uma síndrome respiratória grave e que tem levado milhares de brasileiros a morte. Essa combinação nefasta pode resultar numa sobrecarga sem precedentes sobre o já frágil e deficitário sistema de saúde da Amazônia, especialmente nas cidades menores e distantes dos maiores centros urbanos", diz o texto dos cientistas.

    Sobre as doenças decorrentes das queimadas, Paulo Moutinho lembra que, na Amazônia, muitas das capitais passaram semanas sob uma densa camada de fumaça em 2019.

    Em 2019, a Amazônia registrou incêndios que se tornaram notícia internacional
    Em 2019, a Amazônia registrou incêndios que se tornaram notícia internacional | Foto: Arquivo/Greenpeace

    "Estudos mostram que só o SUS, em anos com muito fogo, chega a gastar cerca de 11 milhões de dólares no  tratamento de pacientes com problemas respiratórios. Além de vidas, quanto vai custar este tratamento se somarmos recordes em queimadas e a pandemia do novo coronavírus"? Questiona o cientista.

    Emergência ambiental 

    Em prevenção às queimadas previstas para este ano, no final de maio o governo do Amazonas decretou emergência ambiental. A medida permite maior articulação para combater os incêndios durante a estação de seca que está por vir. O Estado teme as queimadas previstas para final de junho a setembro, assim como os cientistas do Ipam. 

    Em entrevista para uma recente reportagem do EM TEMPO, o titular da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), Eduardo Taveira, externou a preocupação do Governo. 

    "O grande problema são as queimadas no período de seca, em especial em setembro, no sul do estado. É lá que se concentra uma fronteira agrícola onde costumam ser registrados focos de incêndio prejudiciais e, por vezes, ilegais", comenta o secretário.

    Para tentar combater os incêndios, a Sema coordena um comitê permanente interinstitucional. O grupo traça estratégias de prevenção e combate às queimadas e desmatamento ilegal no Amazonas. Participam das reuniões órgãos como a Fundação de Vigilância em Saúde, a Defesa Civil, dentre outros.

    Em nota para esta reportagem, a Sema lembrou da operação Curuquetê, que faz parte das ações de comando e controle do Plano de Prevenção e Controle de Desmatamento e Queimadas do Amazonas (PPCDQ-AM), lançado no último dia 5 de junho.

    "Como parte das ações da segunda etapa da Curuquetê, equipes coordenadas pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) já estão em Humaitá desde o domingo (14), para o planejamento da dinâmica de campo no Sul do estado. Neste primeiro momento, além de montar a base da Operação, as equipes também iniciaram ações de fiscalização em madeireiras que atuam no perímetro", diz o comunicado. 

    Sem respostas

    Para esta reportagem, o EM TEMPO entrou em contato com o Ministério do Meio Ambiente no dia 16 de junho a fim de cobrar quais medidas estão sendo tomadas para evitar a previsão de queimadas para a estação de seca. A pasta, embora seja encarregada do assunto, sugeriu que a reportagem procurasse a Vice-Presidência da República, a qual realiza ações contra o desmatamento.

    O EM TEMPO entrou em contato com a assessoria do vice-presidente General Hamilton Mourão, mas não obteve resposta até o fechamento desta reportagem.

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