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    Meio Ambiente


    Amazônia está ameaçada por exploração de nióbio, diz estudo

    Pesquisadores da Universidade do Estado de São Paulo apontaram riscos de perdas florestais na região do Morro dos Seis Lagos, próxima de São Gabriel da Cachoeira

    Região dos Seis Lagos, em São Gabriel da Cachoeira | Foto: Tenente Rezende

    Manaus - Um estudo feito por pesquisadores da Universidade do Estado de São Paulo (USP) apontou para os prejuízos que podem ser causados se a exploração de nióbio na Amazônia ganhar força. Embora a possibilidade ainda seja fraca, já foi mencionada mais de uma vez pelo presidente Jair Bolsonaro, inclusive quando ainda era candidato à presidência. Na cúpula do G20, do ano passado, o chefe do Executivo chamou de 'Vale do Nióbio' a região da reserva dos Seis Lagos, no Amazonas, onde existe grande quantidade do metal. 

    Região dos Seis Lagos, no Parque Nacional Pico da Neblina
    Região dos Seis Lagos, no Parque Nacional Pico da Neblina | Foto: Fabiano Accorsi

    A pesquisa assinada por Juliana Siqueira e Luís Sanchez mostra que diferentes possibilidades de exploração do nióbio na Amazônia poderão causar danos ambientais. A única opção que mantém a integridade da floresta é de deixar o metal intocável.

    "Investigamos diferentes cenários de expansão das atividades de mineração na região e descobrimos que iniciativas como essas podem causar significativa perda de florestas, afetando a biodiversidade e serviços ecossistêmicos", informa o artigo de apresentação da pesquisa.

    Áreas em vermelho no mapa verde revelam possíveis rastros de urbanização que passariam a existir na floresta
    Áreas em vermelho no mapa verde revelam possíveis rastros de urbanização que passariam a existir na floresta | Foto: Divulgação

    O estudo se refere ao chamado 'Vale do Nióbio', uma área repleta do metal e que se localiza no Morro dos Seis Lagos, no Parque Nacional Pico da Neblina. O local fica no município de São Gabriel da Cachoeira, a 862 km de Manaus.

    Em toda a região, estima-se que exista 2,9 bilhões de toneladas do minério e 80 milhões de toneladas de nióbio puro. O metal, no entanto, tem algumas singulares que dificultam sua exploração, apontam os cientistas.

    O principal deles é o problema de logística e de não preservação ambiental, já que a reserva é de difícil acesso, o que coloca barreiras na evasão dos compostos a serem coletados. A região também fica dentro de uma reserva biológica e na terra indígena Balaio, então permitir a mineração naquele entorno poderia causar prejuízos à natureza e aos povos tradicionais. 

    Área  de preservação é repleta de reservas de nióbio
    Área de preservação é repleta de reservas de nióbio | Foto: Tenente Rezende

    "A construção de estradas, necessária para desenvolver a mineração, tem papel fundamental ao desencadear impactos cumulativos nas florestas. Assim, alertamos para o risco de tomar decisões mal informadas sem uma avaliação abrangente dos graves impactos adversos que resultariam do desenvolvimento dessa mineração se a abordagem atual de licenciamento for aplicada, sem falar no possível enfraquecimento da legislação atual", observam os autores do estudo.

    Indígenas contra mineradores

    No caminho para a região dos Seis Lagos, fica a aldeia Maturacá, do povo Yanomami. José Goes é um indígena que faz parte da etnia e vive naquele lugar. Para ele, mineradores não são amigos.

    "Muita ameaça em todas as áreas indígenas pelas mineradoras. E elas todas são estrangeiras, não são brasileiras. A área indígena é uma reserva, área demarcada e homologada. E no nosso território é muita coisa que querem aproveitar de recursos naturais. Mas nós não pensamos em vender, isso tem que ser como estava quando chegamos. A floresta, nós não queremos que venham outras pessoas para destruir. A floresta é a nossa vida", comenta o indígena.

    José vive isolado com mais de 2,5 mil indígenas aldeia Maturacá
    José vive isolado com mais de 2,5 mil indígenas aldeia Maturacá | Foto: Divulgação

    Ele diz que por isso os indígenas não querem as mineradoras por perto, já que, segundo ele, elas acabam com a natureza e deixam rastros de destruição por onde passam.

    "Vem a mineradora e acaba com tudo, com a mata, com o rio. E até a caça e pesca vai embora. Sobram doenças como malária, pneumonia, desnutrição, diarreia. É isso que fica. E isso não vai deixar o povo yanomami alegre", afirma ele.

    Como José mencionou, boa parte das terras indígenas possuem riquezas de interesse para os empresários. No entanto, esses parques de preservação só podem ser explorados se os povos tradicionais permitirem, explica Carlos Durigan, geógrafo, ambientalista e diretor da WCS Brasil (Associação Conservação da Vida Silvestre), com sede em Manaus.

    Durigan é geógrafo e diretor da WCS Brasil
    Durigan é geógrafo e diretor da WCS Brasil | Foto: Divulgação

    "As Terras Indígenas são reconhecidas pela Constituição e, apesar de serem patrimônio da União, são destinadas ao usufruto dos povos que nelas habitam e reconhecidas como um direito originário, isto é, um direito adquirido antes mesmo do Brasil existir como país. O uso de recursos naturais existentes dentro de limites de Terras Indígenas é regulado por regras e ainda dependentes das decisões dos povos e comunidades que nela habitam", afirma Durigan.

    Segundo ele,  estudos têm mostrado há décadas a existência de minerais de interesse econômico em terras Indígenas. Como os mineradores não possuem permissão dos povos originários, criam-se conflitos com a extração ilegal de minerais. O resultado é a morte de muitos indígenas.

    A visão econômica

    A segunda questão é mais ligada ao mercado. Os autores do trabalho citam a mina de Araxá (MG) a 367 km de Belo Horizonte. O local é a maior reserva de nióbio do mundo, responsável por até 98% da utilização do metal no planeta. Segundo os cientistas, a mina ainda tem capacidade para dispor do composto por pelo menos 200 anos. 

    Como não há demanda para tanto nióbio, explorar os minerais do noroeste amazônico não seria a melhor opção, explica Carlos Durigan.

    "Vários especialistas já se manifestaram sobre a irrelevância de sua exploração, uma vez que o Brasil possui grandes reservas em exploração em Minas Gerais e não existem grandes demandas mundiais pelo produto. Sua potencial exploração, além de gerar grande degradação sobre uma região única em termos culturais e ambientais, demandaria um alto investimento em logística e exploração e ainda tenderia a disponibilizar um produto já bastante ofertado no mercado, reduzindo assim seu custo de aquisição", explica ele.

    Estudo sugere longa conversa sobre exploração com preservação

    Os pesquisadores da USP sugerem, ao final do estudo, que caso haja a necessidade de explorar o nióbio na região dos Seis Lagos, isso só pode ocorrer após grande discussão ambiental.

    Região dos Seis Lagos, em São Gabriel da Cachoeira
    Região dos Seis Lagos, em São Gabriel da Cachoeira | Foto: Tenente Rezende

    "Esses resultados [de dano ambiental] enfatizam a necessidade de fortalecer a avaliação de Impactos ambientais para todos os tipos de projetos de mineração, para que sistematicamente considere os impactos cumulativos da perda de florestas", afirma o estudo.

    O artigo aponta algumas recomendações para a melhor predição e avaliação de impactos na Amazônia.

    - especificar diretrizes para avaliação de impactos cumulativos em referência, preparados caso a caso;

    - construir uma base de dados e padronizar protocolos para coleta e disponibilização de dados;

    - desenvolver metodologias robustas, incluindo modelagem e proposição de cenários com protocolos investigativos a fim de considerar os impactos cumulativos.

    Só assim as reservas de nióbio podem ser exploradas, garantem os cientistas. Segundo eles, é preciso que haja a análise cuidadosa dos riscos ambientais, caso contrário "o nióbio da Amazônia deve permanecer inexplorado", sugerem. 

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