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    Pandemia


    Cortes na ciência comprometem resposta à Covid-19, no Brasil

    Cientistas traçam a curva não de contágio, mas na queda de investimento em ciência no País. E acreditam que ela foi responsável, também, pelo peso com que a Covid-19 afetou o Brasil

    | Foto: Reprodução

    Manaus - A pandemia do novo coronavírus pegou o mundo de surpresa. Quando a doença fez seus primeiros pacientes, ainda em dezembro de 2019, poucas pessoas imaginaram que a Covid-19, ainda sem esse nome, se tornaria uma pandemia. Mas alguns profissionais alertaram para esse perigo: os cientistas. Apontados como protagonistas na guerra contra o vírus junto aos profissionais de saúde, no Brasil, pesquisadores têm sofrido há anos com perda de investimento. Isso pode ter prejudicado a resposta do País na pandemia, segundo especialistas.

    Um deles é Marcus Lacerda, médico infectologista e cientista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Amazônia e da Fundação de Medicina Tropical, em Manaus. Ele ficou conhecido internacionalmente após publicar um estudo sobre cloroquina junto a outros pesquisadores durante a pandemia de Covid-19.

    O cientista aponta uma queda no investimento de ciência no Brasil, desde o orçamento geral e do Ministério da Ciência e Tecnologia ao pagamento de bolsas de pesquisa por parte de instituições ligadas ao governo federal.

    Marcus já publicou mais de 250 artigos científicos
    Marcus já publicou mais de 250 artigos científicos | Foto: Divulgação

    Esses acontecimentos, segundo ele, têm impacto direto na resposta do Brasil à pandemia de coronavírus, mas também de quaisquer outras doenças. 

    "Você precisa de anos para montar um grupo de pesquisa e com a diminuição de investimentos, muitos desses grupos precisaram diminuir recursos e pessoas. E com uma pandemia como essa, você não tem condições de refazer ou montar um grupo tão rápido para dar uma resposta. Certamente o Brasil poderia ter se saído melhor se já tivesse pesquisas atuantes antes da crise", pontua o médico.

    Cortes e mais cortes, por anos

    Nos anos 2000, a ciência do País viveu seu ápice, segundo apontam dados oficiais. Em 2010, o Ministério da Ciência e Tecnologia chegou a receber 8,6 bilhões de reais. Para efeito de comparação, o orçamento livre para a pasta, dez anos depois, ou seja, em 2020, é de apenas 3,7 bilhões. Os números já mostram uma imensa queda, sem contar a inflação.

    Os cortes na ciência começam ainda em 2014, na crise econômica que atingiu o mundo e abalou o governo da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT). Em 2016, por exemplo, final do mandato da presidenta, o governo federal gastou 6,14 bilhões no Ministério da Ciência e Tecnologia. Queda em bilhões.

    Em 2017, já no governo de Michel Temer (PSDB), o orçamento para a ciência sofreu um contingenciamento de 44% após incorporar o Ministério das Comunicações. O total investido na pasta, naquele ano, foi de 3,77 bilhões, o menor valor em 12 anos.

    Já em 2018, mesmo com o novo orçamento para o ministério da Ciência e Tecnologia ter sido aumentado para 4,7 bilhões, houve ainda problemas. Cortes foram executados, o que atrasou o pagamento de bolsas de estudo ao final do ano no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ).

    No ano seguinte, o conselho continuou a sofrer com a dificuldade para pagar as bolsas aos pesquisadores. Em setembro de 2019, a diretoria do CNPQ anunciou que faltaria dinheiro para pagar 84 mil bolsistas até dezembro daquele ano. Após grande mobilização nacional, o governo liberou 250 milhões para a organização.

    Por que redução?

    Sanderson Oliveira é  secretário regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC-AM) e traça uma linha de acontecimentos que, segundo ele, foram cruciais para os cortes em pesquisas no Brasil. 

    Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência (SBPC)
    Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência (SBPC) | Foto: Divulgação

    "Há fontes seguras que mostram que os investimentos em ciência no Brasil têm reduzido desde 2014, com cortes drásticos também em 2019 e 2020. Posso citar cortes como nos orçamentos geral, do Ministério da Ciência e Tecnologia, da Capes, CNPq, universidades, institutos de pesquisa e em todo o sistema de ciência, tecnologia e inovação do País", aponta o cientista.

    Para Sanderson, os cortes, além da questão econômica, estão relacionados à falta de visão por parte dos governantes sobre a ciência e tecnologia como área estratégica. Essa tese é defendida pelo também cientista Marcus Lacerda.

    "As pessoas veem a ciência como um luxo. A impressão que fica é que se cortar orçamento de pesquisa, ninguém vai morrer. Diferente do que acontece na saúde, por exemplo, que os cortes demonstram o prejuízo. Mas a realidade é diferente. Cortes na ciência impactam a todos, inclusive a própria área da saúde", afirma o cientista. 

    A importância da ciência

    Para Sanderson Oliveira, a ciência está intimamente ligada a grandes problemas no Brasil, como as dificuldades na educação e a desigualdade social. Ele lembra das lutas que a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) tem travado antes e durante a pandemia.

    Ciência é apontada para prevenção à pandemias, dizem cientistas
    Ciência é apontada para prevenção à pandemias, dizem cientistas | Foto: Agência Brasil

    "Temos lutado pela manutenção da estrutura de ciência e tecnologia no País, como no dia 7 de março, quando realizamos a Marcha Virtual pela Ciência, que gerou grande mobilização no Brasil", comenta ele.

    Sanderson diz que esses movimentos de proteção à pesquisa são essenciais porque a "área de ciência, tecnologia e inovação no Brasil abarca uma série de áreas que vão desde a educação infantil e pré-escolar (são áreas de pesquisa estruturadas em Universidades Brasileiras) até a produção de insumos de ponta para saúde, as tecnologias do campo, tecnologia espacial, e outras".

    E ele cita a importância das pesquisas em Ciências Humanas e Sociais, que "assim como em educação deveriam ser prioritárias, haja vista, os problemas que temos nessas áreas". Sanderson diz que, da mesma forma,  a ciência está ainda relacionada às indústrias culturais e criativas no Brasil, que podem representar parte importante da economia de um país.

     Além disso, segundo Sanderson, a ciência pode ajudar a 'prevenir' novas doenças e possíveis pandemias, porque produz dados, testa hipóteses e teorias sobre o assunto. 

    "Há tempos se sabe sobre o perigo de uma pandemia e isso está agora divulgado. Por outro lado, ainda temos novas possibilidades, porque regiões com grande densidade populacional ou com desequilibro ambiental são propícias para o desenvolvimento de pandemias", aponta o cientista.

    O EM TEMPO divulgou uma pesquisa que aponta para o possível surgimento de uma nova epidemia 'escondida' na floresta amazônica. Leia aqui

    Na pele de um cientista na pandemia

    Marcus Lacerda ficou conhecido por seu estudo sobre a cloroquina, o qual atestou que doses mais altas do medicamento não devem ser utilizadas em pacientes graves da Covid-19. A pesquisa analisou a eficácia e a segurança de duas dosagens diferentes da cloroquina e foi realizada com 81 pacientes confirmados para Síndrome Respiratória Aguda Grave. 

    "Acho que não teve muita mudança. Quem acreditava antes, acredita. Quem não acreditava, continua não acreditando", diz Marcus, sobre crença da população à ciência
    "Acho que não teve muita mudança. Quem acreditava antes, acredita. Quem não acreditava, continua não acreditando", diz Marcus, sobre crença da população à ciência | Foto: Divulgação

    Pelo fato de o resultado do estudo ter demonstrado complicações e até risco de morte em caso de alta dosagem da cloroquina, Marcus e os mais de 70 pesquisadores que participaram do estudo foram muito criticados. O cientista recebeu ameaças de agressão e morte e foi exposto nas redes sociais, até mesmo por políticos.

    "Esse é talvez o ônus principal do investigador, do cientista. Quando ele erra, ou melhor, quando não atende às expectativas, a sociedade é muito cruel com ele. Gera uma revolta com o pesquisador, como se ele fosse o culpado pelo não funcionamento do remédio como se espera", comenta Marcus.

    E ele ainda cita todo o estresse que rondou os cientistas durante todo o projeto, porque, segundo ele, uma pesquisa que demoraria cerca de um ano, foi feita em quatro semanas. Tudo pela necessidade do momento de pandemia.

    Para o futuro, Marcus tem uma visão mais otimista. Acredita que a pandemia, assim como não foi a primeira, também não será a última. Mas, que, a ciência será capaz de lidar. Para demonstrar a posição, ele faz um paralelo com a história.

    "A última grande pandemia que tivemos foi a da Influenza, em 1918. Àquela época, a ciência estava em um estágio embrionário. Hoje já avançamos muito. E agora o cientista pode pensar diferente como uma forma de prevenção. É claro que o coronavírus é um caso novo, então vamos ter que tomar cuidado. Mas não há dúvida que depois dessa pandemia, a ciência deve se fortalecer para o surgimento de novas doenças", finaliza o médico.

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