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    Período Histórico


    A volta do pré-iluminismo: quando 'não se acreditava' na ciência

    Movimento anti-vacina, negação de estudos e teorias científicas. Todos esses elementos fazem parte de um novo negacionismo, apontam especialistas. Entenda a discussão!

    Cientistas têm sido postos à prova após seus resultados científicos | Foto: © REUTERS / Edgar Su

    Manaus - Durante a pandemia do novo coronavírus, os olhos do mundo se voltaram para a ciência. Por meio dela se espera, até hoje, um remédio ou vacina eficaz que vença a Covid-19. Mas, se por um lado, os pesquisadores se tornaram o centro das atenções, do outro, passaram a ser também alvos de ataques verbais e físicos devido aos seus estudos. Especialistas associam essa violência e descrédito à ciência a um período específico da história humana, o pré-iluminismo, quando valiam muito mais dogmas religiosos e misticismo do que a ciência e a razão (representada pelo Iluminismo que viria depois).

    Segundo estudos sobre a época, o período pré-iluminista foi marcado também por repressão a estudos científicos ou mesmo por pesquisas que não demonstravam o que se esperava. Essa descrição pode parecer distante, mas a pandemia mostrou que há exemplos recentes, embora com menor intensidade.

    Ataques a cientistas em Manaus

    Marcus Lacerda é um médico infectologista que atua em Manaus e ficou conhecido por seu estudo sobre a cloroquina, o qual atestou que doses mais altas do medicamento não devem ser utilizadas em pacientes graves da Covid-19. A pesquisa analisou a eficácia e a segurança de duas dosagens diferentes da cloroquina e foi realizada com 81 pacientes confirmados para Síndrome Respiratória Aguda Grave. 

    Marcus é pesquisador pela Fundação Mathias Tropical
    Marcus é pesquisador pela Fundação Mathias Tropical | Foto: Divulgação

    Cientistas têm sido postos à prova após seus resultados científicos
    Cientistas têm sido postos à prova após seus resultados científicos | Foto: © REUTERS / Edgar Su

    Pelo fato de o resultado do estudo ter demonstrado complicações e até risco de morte em caso de alta dosagem da cloroquina, Marcus e os mais de 70 pesquisadores que participaram do estudo foram muito criticados. O cientista recebeu ameaças de agressão e morte e foi exposto nas redes sociais, até mesmo por políticos, como o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

    "Esse é talvez o ônus principal do investigador, do cientista. Quando ele erra, ou melhor, quando não atende às expectativas, a sociedade é muito cruel com ele. Gera uma revolta com o pesquisador, como se ele fosse o culpado pelo não funcionamento do remédio como se espera", comenta Marcus.

    Como a ciência é vista pelos brasileiros

    Em meio a ataques a cientistas durante a pandemia, surge uma pergunta que pode estar diretamente ligada a esses acontecimentos. Como os brasileiros veem a ciência? Quem responde é Sanderson Oliveira, secretário regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC-AM).

    "Existe uma pesquisa feita pelo Centro de Gestão de Estudos Estratégicos, ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, e que traz dados importantes sobre a percepção dos brasileiros com a ciência. De forma geral, podemos dizer que a população tem uma visão positiva dos pesquisadores, mas, costumam não saber citar o nome de um cientista [brasileiro]. Indicadores que apontam o consumo de ciência mostram também que a frequência com que brasileiros entram em contato com estudos é baixa, em especial por meio de locais de produção e divulgação de ciência, como institutos, museus, bibliotecas, feiras de ciências, etc", explica Oliveira.

    Ciência versus religião

    O cientista cita ainda outro estudo, esse feito pela Oxfam e o Instituto Datafolha. De acordo com a pesquisa, fé religiosa é mais importante que educação para mudar de vida, acreditam oito a cada dez brasileiros. A entrevista foi feita com 2.086 pessoas e publicada no ano passado.

    "Outra pesquisa mostrou que 75% dos brasileiros optam pela religião, quando as conclusões científicas confrontam suas crenças. Essa última pesquisa mostra tendências mundiais e o Brasil estaria dentro (ou bem próximo) das médias de outros países", explica o cientista.

    Esse último estudo citado por Oliveira é chamado 'Wellcome Global Monitor 2018', da Gallup, uma empresa de pesquisas de opinião pública. O instituto monitorou a confiança das pessoas na produção científica e entrevistou 140 mil pessoas em 144 países. No Brasil, 35% disseram desconfiar da ciência e 23% acreditam que a produção científica não beneficia a sociedade.

    'Negacionismo' na visão sociológica

    Almir Oliveira de Menezes é professor do departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e um dos profissionais que se refere ao período atual como "a volta do pré-iluminismo". 

    Em sua fala, ele lembra casos recentes em que a ciência foi posta no muro e seus resultados questionados, na maioria das vezes, sem embasamento. 

    O sociólogo conceitua Iluminismo com a frase "ouse saber", do filósofo Immanuel Kant
    O sociólogo conceitua Iluminismo com a frase "ouse saber", do filósofo Immanuel Kant | Foto: Divulgação

    "Nós estamos passando por uma quadra na qual há uma narrativa negacionista bastante profunda. Ela coloca em cheque parte dos elementos da história, como a ditadura militar brasileira. Não só isso, mas alcança a ciência. Exemplos são o movimento anti-vacina, as teorias da conspiração de que o homem não foi a lua e até a troca dos estudos de Darwin pelo criacionismo", comenta o sociólogo.

    Menezes diz que esses movimentos de descrença à ciência se mostram também durante o texto da pandemia, mas que não são exclusivos dela. E alerta para o risco de violência que, segundo ele, faz parte do negacionismo.

    "O que a gente percebe é que o negacionismo embute um profundo processo de violência cultural e política, uma narrativa que desconstrói qualquer comunhão, de solidariedade humana. É como se fosse uma guerra na qual eu escolho meus inimigos, como comunistas, feministas, cientistas, a universidade, o meio ambiente, a educação de Paulo Freire, e muito mais. É chocante esse momento que estou chamando de pré-iluminista", reflete o professor.

    Sobre o Iluminismo

    O termo é descrito no livro 'O novo Iluminismo - em defesa da razão, da ciência e do humanismo', escrito por Steven Pinker, um psicólogo, linguista canadense e professor da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.

    "Em um ensaio com esse título escrito em 1784, Immanuel Kant respondeu que é “a saída do ser humano da menoridade de que ele próprio é culpado”, de sua submissão “preguiçosa e covarde” aos “dogmas e fórmulas” da autoridade religiosa ou política. Seu lema [do Iluminismo], ele proclamou, é “ouse entender!”, e sua exigência fundamental é a liberdade de pensamento e expressão", afirma o autor.

    Em outras palavras, o Iluminismo foi um movimento intelectual do século XVIII, mais especificamente entre 1715 e 1789, na Europa. Como descreveu Pinker acima, a ideia era deixar de lado o misticismo, crenças religiosas e políticas para focar na razão, no pensamento e na ciência.

    Com o conceito acima, especialistas e intelectuais apontam que o Brasil e o mundo estariam voltando a um período anterior ao iluminismo, ou seja, quando a ciência era menos importante e por vezes até proibida, a depender do estudo que se quisesse realizar.

    Em seu Twitter, Luís Roberto Barroso, ministro do Supremo Tribunal Federal, falou sobre a volta do pré-iluminismo e sua atuação no Brasil. A postagem é do dia 14 de junho deste ano. Na fala, o magistrado se referia a extremistas bolsonaristas que atacaram a sede do Supremo Tribunal Federal, em Brasília, e atearam fogos de artifício contra o prédio. 

    "Há no Brasil, hoje, alguns guetos pré-iluministas. Irrelevantes na quantidade de integrantes e na qualidade das manifestações. Mas isso não torna menos grave a sua atuação. Instituições e pessoas de bem devem dar limites a esses grupos. Há diferença entre militância e bandidagem", escreveu ele.

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