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    CORONAVÍRUS


    Depois da pandemia, brasileiros podem ser mal vistos no exterior

    Helso Ribeiro é presidente da Comissão de Relações Internacionais da OAB-AM e diz que por estarem entre os mais afetados pela Covid-19, brasileiros podem sofrer preconceito em outros países

    Brasileiros já estão proibidos de entrar em diversos países durante a pandemia | Foto: (Arquivo/Agência Brasil)

    Manaus - Brasileiros ou qualquer estrangeiro que tenha estado no Brasil por pelo menos 14 dias estão proibidos de entrar nos Estados Unidos por tempo indeterminado. A medida foi tomada nesta semana pelo presidente dos EUA, Donald Trump, após o Brasil alcançar o segundo lugar mundial como país mais afetado pela pandemia da Covid-19, atrás apenas do próprio Estados Unidos. Especialistas apontam que restrições como essas podem manchar a imagem de brasileiros no exterior, no pós-pandemia.

    Uma das vozes que ecoam essa ideia é a de Helso Ribeiro, diretor da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil no Amazonas. Para o advogado e analista internacional, brasileiros correm o risco de sofrerem preconceito por serem mal vistos no mundo pós-pandemia. 

    Analista internacional vê perigo na imagem de brasileiros após a pandemia
    Analista internacional vê perigo na imagem de brasileiros após a pandemia | Foto: Leonardo Mota

    "Por conta da visão negacionista do governo federal e os altos números de mortos e infectados no País, pode acontecer de brasileiros serem associados à Covid-19, por virem de um país onde a doença se espalhou com pouco controle", diz Helso.

    Para exemplificar, o especialista cita o caso de pessoas que vestem burca ou outros adereços considerados do oriente médio. O advogado explica que assim como essas pessoas sofrem preconceito apenas pela roupa ou localidade de origem, brasileiros podem ser taxados como possíveis doentes pela forma como lidaram com a doença. 

    "É importante lembrar que durante a pandemia os brasileiros já haviam sido proibidos de viajar para boa parte dos países da Europa e da América do Sul, mas uma proibição vinda dos Estados Unidos tem um peso diferente. Tudo o que o país norte-americano faz ganha uma projeção maior, e é aí que 'mora o perigo' para a imagem do Brasil e dos brasileiros", afirma o especialista.

    O que diz o decreto?

    Sem mencionar os motivos no texto do decreto, Donald Trump assinou o documento que proíbe a entrada de qualquer pessoa - brasileira ou estrangeira - que tenha estado no Brasil por 14 dias antes do pedido de entrada nos Estados Unidos. Medida passou a valer na terça-feira (26). 

    Trump tem relação próxima com presidente brasileiro
    Trump tem relação próxima com presidente brasileiro | Foto: Arquivo/Reuters

    As exceções são para norte-americanos no Brasil, cônjuges de cidadãos estadunidenses e filhos de norte-americanos. Também entra m na lista as pessoas que estejam realizando missão diplomática em um dos dois países.

    Trump tomou a decisão de publicar o decreto no dia 24 de maio, quando, pela primeira vez, o Brasil registrou mais mortos pela Covid-19 do que os Estados Unidos. Enquanto o primeiro país somou 653 óbitos, o segundo, na data, havia totalizado 638.

    Relação entre países fica afetada?

    Quando o decreto foi publicado, um comunicado da Casa Branca, nos EUA, fez questão de explicitar que "os Estados Unidos apreciam a estreita coordenação do governo do Brasil no combate à pandemia e reconhecem seus esforços para fazê-lo dentro de seus país".

    Na mesma nota, a comunicação do governo norte-americano ainda reforçou que a ação visava garantir que estrangeiros que estiveram no Brasil não se tornem uma fonte adicional de infecções "em nosso país".

    Para Helso Ribeiro, a situação bilateral dos países não deve ser diretamente afetada porque seguirão os voos comerciais. No entanto, o analista internacional aponta mais uma vez para o perigo de como brasileiros podem ser vistos após esses posicionamentos.

    Helso também é sociólogo e advogado
    Helso também é sociólogo e advogado | Foto: Leonardo Mota

    "Trump disse, em entrevista, que não queria que pessoas fossem até os Estados Unidos e infectassem o seu povo. Esse tipo de fala pode destoar um pouco da forma como a Casa Branca se manifestou oficialmente", afirma Helso.

    'Presos' nos EUA

    Depois da nova decisão, um grupo no Facebook intitulado 'Brasileiros em Nova York' foi enchido por posts de pessoas 'presas' no Brasil e outras nos Estados Unidos. De um lado, quem tinha viagem marcada para o país norte-americano, e, por outro, quem estava nos EUA e pretendia desembarcar no Brasil. 

    Um dos posts foi escrito por Bento Collares, um professor universitário que se mudou para os Estados Unidos em julho do ano passado. Agora, quando pretendia voltar ao Brasil durante a pandemia, ele teve o voo cancelado por causa do decreto do presidente Donald Trump.

    Post foi feito na tarde de quinta-feira (28)
    Post foi feito na tarde de quinta-feira (28) | Foto: Reprodução

    Nos comentários, cerca de 28 brasileiros comentaram quais alternativas poderiam ser tomadas por Bento e também a quem recorrer. Enquanto alguns citavam a Embaixada Brasileira nos Estados Unidos, outros diziam ser melhor procurar por agências de compras de passagens.

    Voos cancelados

    Já as empresas de aviação estão, cada uma, em uma situação diferente. A Gol Linhas Aéreas, por exemplo, está com os voos do Brasil para os Estados Unidos suspensos desde o dia 23 de março. Até antes dessa data, a  companhia mantinha quatro rotas para os EUA: Brasília-Orlando, Fortaleza-Orlando, Manaus-Orlando e Brasília-Miami.

    Entre 11 e 17 de maio, cerca de 1.800 viajantes do Brasil entraram nos Estados Unidos
    Entre 11 e 17 de maio, cerca de 1.800 viajantes do Brasil entraram nos Estados Unidos | Foto: Agência Brasil

    A Azul, por sua vez, cancelou voos no trecho Brasil e Estados Unidos após o decreto presidencial de Donald Trump. Segundo a empresa, ficam suspensas as viagens até 30 de junho. "A Azul ressalta que já está em contato com os Clientes impactados pelas alterações e esclarece que eles podem solicitar o reembolso do bilhete, remarcar a passagem ou deixar o valor como crédito para outros voos com a companhia", diz nota para esta reportagem.

    Por último, a Latam, uma das principais empresas de avião que operam o trecho, também interrompeu voos entre Brasil e Estados. A medida entrou em vigor na quinta (28) e segue, pelo menos, até o fim de maio. A companhia estava operando 3 frequências semanais dos voos.

    O que dizem as embaixadas

    A Embaixada do Brasil nos Estados Unidos não respondeu a demanda enviada pelo EM TEMPO, onde a reportagem questionou como ficam os brasileiros nos Estados Unidos após o decreto de Trump. As redes sociais da embaixada não são atualizadas desde o dia 12 de maio e o site, desde 22 do mesmo mês. A decisão dos EUA foi anunciada em 24 de maio, e até então a Embaixada não se manifestou.

    Já a Embaixada Americana no Brasil também não respondeu a demanda do EM TEMPO, mas publicou, no dia 25 de maio, um link que direcionava para uma matéria no site da embaixada. O texto explicava o novo decreto, bem como o que fazer caso estivesse na proibição para viajar. No entanto, a reportagem tentou acessar o link no dia 29 de maio e ele estava fora do ar.

    Embaixada do Brasil nos EUA:

    Telefone: +1 202-238-2700

    Site: http://cgwashington.itamaraty.gov.br/pt-br/

    Facebook: Embassy of Brazil in Washington, DC

    Embaixada dos EUA no Brasil:

    Site: https://br.usembassy.gov/pt/

    Facebook: Embaixada EUA Brasil/US Embassy Brazil

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