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    Repressão


    Polícia de Hong King invade jornal de oposição a regime chinês

    Agentes vasculharam os computadores de repórteres em uma operação que tratava de esclarecer possíveis violações da lei de segurança nacional

     

    Durante a madrugada, a polícia honconguesa prendeu cinco executivos do jornal
    Durante a madrugada, a polícia honconguesa prendeu cinco executivos do jornal | Foto: Reprodução


    Um dos veículos de imprensa mais populares de Hong Kong, o jornal Apple Daily – que mistura o discurso pró-democracia e as investigações jornalísticas sobre as figuras de poder na cidade – teve as instalações invadidas por quinhentos policiais nesta quinta-feira (17).

    Os agentes vasculharam os computadores de repórteres em uma operação que, segundo as autoridades, tratava de esclarecer possíveis violações da controversa lei de segurança nacional da ex-colônia britânica.

      Durante a madrugada, a polícia honconguesa prendeu cinco executivos do jornal —o editor-chefe, o diretor-executivo, o diretor operacional, o vice-editor-chefe e o diretor-presidente—, e agentes foram vistos mexendo nos computadores da Redação depois de entrarem com um mandado de apreensão de materiais jornalísticos, incluindo telefones e notebooks de repórteres.  


    A operação é o mais recente revés para o magnata da mídia Jimmy Lai, 73, dono do Apple Daily e ferrenho crítico de Pequim. Ele teve seus bens congelados pela lei de segurança nacional e, atualmente, cumpre pena de prisão por participar de manifestações contra o regime chinês consideradas ilegais em Hong Kong.

    O Apple Daily transmitiu a operação policial ao vivo em sua página no Facebook. As imagens mostraram o momento em que os policiais isolaram o complexo e entraram no edifício.

    "Eles chegaram por volta das 7h, nosso edifício está fechado", afirma, no vídeo, um jornalista não identificado. "Agora podemos observar que estão levando caixas de material para o caminhão." Segundo o relato, a polícia estava impedindo os profissionais da Redação de acessarem determinados andares e de usar vários equipamentos.

    Em comentários que ressoaram os alertas sobre as restrições à liberdade de imprensa na cidade, o secretário de segurança John Lee descreveu a Redação do jornal como uma "cena de crime" e disse que a operação tinha como alvos aqueles que usavam suas reportagens como "ferramentas para colocar em perigo" a segurança nacional.

    Segundo Lee, os cinco executivos foram detidos por conspiração por meio do jornalismo para incitar forças estrangeiras a impor sanções contra Hong Kong e contra a China.

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    Jornalistas normais são diferentes dessas pessoas. Não conspirem com eles. Façam seu trabalho jornalístico com a liberdade que quiserem, de acordo com a lei, desde que não conspirem ou tenham qualquer intenção de violar a lei de segurança nacional "

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    A polícia congelou 18 milhões de dólares honcongueses (R$ 11,7 milhões) em ativos pertencentes a três empresas ligadas ao Apple Daily e disse que a operação não tinha como alvo a imprensa como um todo. Reportagens de 2019, segundo as autoridades, poderão ser usadas como provas contra os acusados, embora sejam anteriores à lei de segurança nacional, promulgada no ano passado.

    Em uma carta aos leitores, o Apple Daily disse que foi vítima de um ataque direto do regime, mas que sua equipe "continuará firme em seus postos com lealdade e lutará até o fim". Segundo o comunicado, 38 computadores usados pelos repórteres foram apreendidos pelos policiais.

    "Este é um ataque flagrante ao lado editorial do Apple Daily", disse Mark Simon, consultor de Lai que está fora de Hong Kong, à agência de notícias Reuters. "Eles estão prendendo o pessoal editorial mais importante." Questionado por quanto tempo ele acha que o jornal pode sobreviver, Simon disse: "Eles decidem, não nós", referindo-se às autoridades honconguesas.

      A operação desta quinta-feira foi a segunda vez que a polícia de Hong Kong invadiu a sede do Apple Daily. No ano passado, 200 homens entraram no prédio do jornal para prender Lai sob suspeita de conluio com forças estrangeiras —um dos crimes punidos pela legislação, que prevê penas que podem chegar a prisão perpétua para atos que sejam considerados atividades subversivas, secessão e terrorismo.  


    Lai está detido desde dezembro, teve seu pedido de fiança negado e já cumpriu várias sentenças por participar de comícios não autorizados, incluindo a onda de manifestações que levou multidões às ruas em 2019 e chamou a atenção da comunidade internacional para as violações de direitos individuais no território.

    Steven Butler, coordenador do Comitê para a Proteção de Jornalistas na Ásia, disse que a operação destrói a "ficção que restava de que Hong Kong apoia a liberdade de imprensa". Para ele, a China pode conseguir eliminar o Apple Daily, mas "a um preço exorbitante a ser pago pela população de Hong Kong, que desfrutou de décadas de livre acesso à informação".

      A operação ocorre ainda poucos dias depois de as democracias mais ricas do mundo terem repreendido a China sobre violações de direitos humanos em uma cúpula do G7, e a Otan, a aliança militar ocidental, ter destacado Pequim como um risco para os interesses de segurança de seus membros.  


    A ação policial contra o Apple Daily "demonstra ainda mais como a lei de segurança nacional está sendo usada para sufocar a liberdade de imprensa e de expressão em Hong Kong", disse a porta-voz da União Europeia, Nabila Massrali, em um comunicado nesta quinta. "É essencial que todos os direitos e liberdades existentes dos residentes de Hong Kong sejam totalmente protegidos, incluindo a liberdade de imprensa e de publicação."

    O secretário de Relações Exteriores do Reino Unido, Dominic Raab, também disse que a operação teve como objetivo silenciar os dissidentes. "A liberdade de imprensa é um dos direitos que a China prometeu proteger na Declaração Conjunta e deve ser respeitado", disse, referindo-se ao acordo que deveria garantir a autonomia de Hong Kong em relação ao regime central desde que os britânicos devolveram o território à China, em 1997.


    * Com informações da Folha de S. Paulo


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