Fonte: OpenWeather

    Crise ambiental


    Amazônia e Pantanal batem recorde de queimadas

    Seca que afeta ambas as regiões tem ajudado a criar um cenário de expansão das queimadas para áreas naturais

    Risco de que cidades amanheçam com fumaça de incêndios é grande, sugerem ambientalistas | Foto: Divulgação/ Ione Moreno

    Manaus - No ano passado, a capital  econômica do Brasil, São Paulo, foi tomada por fumaça de queimadas. O fenômeno ocorreu em um momento de recordes de queimadas na Amazônia e no Pantanal, as quais ganharam repercussão mundial. Se no ano passado, a floresta queimou e as cidades sentiram, esse ano o risco é que seja pior, já que os focos de incêndios têm se superado a cada dia no Brasil.

    Só em agosto, a Amazônia já viu um crescimento de 572% dos focos de incêndio, nos três primeiros dias de agosto em relação ao mesmo período do ano passado. O número coincide com  estação seca da região, conhecida por ser o período em que mais se queima floresta. O EM TEMPO explicou como isso acontece. 

    E se a situação já está ruim no bioma amazônico, ela pode se mostrar ainda pior em outro menos falado quando se trata de incêndios: o Pantanal. Esse espaço geográfico que contempla, no Brasil, os estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, tem batido recordes de incêndios e também se mostra um problema ambiental.

    Incêndios no Pantanal são registrados desde os anos 90 por meio do Inpe
    Incêndios no Pantanal são registrados desde os anos 90 por meio do Inpe | Foto: (Arquivo/Agência Brasil)

    Só no primeiro trimestre deste ano, foram registrados 6.747 focos de calor no Mato Grosso. São 300 registros a mais do que o mesmo período de 2019 e 2.364 a mais que 2018.

    O jogo de números acima pode dificultar na hora de entender o problema, porém há uma forma de simplificar. De acordo com o Inpe, só neste ano já houve aumento de 530% nos focos de calor no Mato Grosso. 

    Fumaça nas cidades, uma realidade brasileira

    No ano passado, São Paulo se perdeu na fumaça das queimadas que vieram justamente do Pantanal. Na tarde do dia 19 de agosto, a metrópole ficou completamente escura às 15h. Embora meteorologistas tenham apontado como uma das causas a frente fria que assolava a cidade, eles também ressaltaram que queimadas que ocorriam no Mato Grosso e Mato Grosso do Sul contribuíram para o cenário.

    Dia em que São Paulo escureceu por fumaças de queimadas
    Dia em que São Paulo escureceu por fumaças de queimadas | Foto: Divulgação/Tempo Agora

    Se para os paulistanos, o fenômeno assustou, manauaras não podem dizer o mesmo, afinal, a capital do Amazonas já ficou, inúmeras vezes, encoberta por fumaça. Em um dos últimos casos, Manaus, no dia 29 de outubro de 2018, amanheceu com uma nuvem cinzenta. O motivo? Cerca de 143 focos de incêndio em pelo menos 26 municípios do Estado, segundo o Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe).

    Manaus já presenciou, mais de uma vez, o fenômeno das fumaças por incêndios
    Manaus já presenciou, mais de uma vez, o fenômeno das fumaças por incêndios | Foto: Josemar Antunes

    E se as fumaças são registradas no Norte (Manaus) e Sudeste (São Paulo) do País, não quer dizer que também não estejam em outros lugares. Até mesmo cidades do Centro-Oeste registraram poluição por conta das queimadas. Quem conta é o biólogo André Luiz Siqueira, diretor da ONG ECOA - Ecologia & Ação.

    André Luiz Siqueira desenha o cenário de queimadas no Pantanal
    André Luiz Siqueira desenha o cenário de queimadas no Pantanal | Foto: Divulgação

    "[O fenômeno das fumaças dos incêndios nas cidades] acontece, só que ano passado foi diferente. Em 2019, Campo Grande, que pouco é vítima dessa situação, ficou 35 dias totalmente encoberta [de fuligem]. Tanto é que aquela tarde em que São Paulo escureceu, teve total a ver com queima na Bolívia e Pantanal por causa das correntes de vento", comenta o profissional. 

    Ele lembra como as fumaças têm se tornado preocupação para profissionais da saúde, porque a poluição está associada a quadros de doenças respiratórias. Durante a pandemia do novo coronavírus, então, o fenômeno pode formar um cenário ainda mais preocupante. 

    Pantanal registrou recorde de incêndios já no ano passado
    Pantanal registrou recorde de incêndios já no ano passado | Foto: Divulgação/Governo Mato Grosso do Sul

    "Esse ano está bastante intenso [o registro de fumaça nas cidades] e há uma preocupação grande com quem monitora de que isso possa estar agravando os casos de Covid-19 em Corumbá [município do Mato Grosso], que já é um dos piores do Estado". 

    Fogo no Pantanal: assunto novo, história velha

    O Pantanal é o menor bioma do Brasil em extensão. Mas sabia que ele é um dos maiores territórios úmidos contínuos do planeta? 

    Ao nível nacional, o bioma ocupa 1,76% do território brasileiro. Agora imagine quão assustador pode ser que um território tão pequeno e único tenha tantos focos de incêndio. É o que acontece.

    Um dado do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostra que, desse bioma, já foi desmatada uma área de 16,5% referente ao seu total. São 24.915 km² de território, equivalente a duas vezes o tamanho de Manaus. 

    O biólogo André Luiz Siqueira explica que há fatores grandes e pequenos que podem ser apresentados para explicar o desmatamento na região.

    "O macro-problema está ligado ao desmonte dos órgãos de proteção ambiental. Temos visto cortes de recursos e atrasos de salário. Não tem como não associar que isso também está influenciando esse número absurdo de queimadas no pantanal em 2019", reflete o biólogo.

    Com menor território entre os biomas brasileiros, Pantanal sofre ameaça com as chamas
    Com menor território entre os biomas brasileiros, Pantanal sofre ameaça com as chamas | Foto: Divulgação/Governo MS

     Nos detalhes do problema, André cita a crise hídrica que está desenhada no Pantanal. Ele conta que está mais difícil de chover e explica que tem a ver até mesmo com a queimadas na Amazônia.

    "É inevitável a crise hídrica que talvez esteja se avizinhando por conta do prejuízo que se tem com os rios voadores, os quais têm todo o papel de regulação das chuvas do Brasil, em especial no Centro-oeste, que a Amazônia notadamente faz. Esse ano [as queimadas] tiveram grande influência da queda de chuvas, [porque] nós não tivemos o período de cheia", comenta ele.

    Um dado apresentado pela BBC News Brasil junto à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) dá conta de que o nível das águas do rio Paraguai, que forma o Pantanal, chegou a 2,10 metros em junho deste ano. É nesse período que a cheia costuma ser registrada, mas a altura das águas foi a menor em 47 anos.

    Amazônia e Pantanal: um isqueiro, dois biomas

    Não há dúvida, a Amazônia é o bioma que mais sofre com as queimadas. De acordo com o Instituto Centro de Vida, de preservação ambiental, 60,93% dos incêndios florestais do primeiro trimestre de 2020 ocorreram nela. O Pantanal, por sua vez, registrou 8,12% do total de incêndios. O número pode parecer pequeno à primeira vista, mas assusta ao lembrar que ele é o menor bioma, por isso o dado se ajusta.

    Ação do governo do Mato Grosso para barrar chamas
    Ação do governo do Mato Grosso para barrar chamas | Foto: Divulgação/Governo MS

    Carlos Durigan, geógrafo e ambientalista, faz uma associação entre os dois biomas. Segundo ele, embora sejam diferentes, sofrem do mesmo problema.

    "Há uma correlação com a forma como se iniciam [incêndios na Amazônia e Pantanal], ou seja, em ambos os casos são iniciadas por pessoas que utilizam o fogo para abertura de novas áreas para agricultura e pecuária. Na maioria dos casos, estes incêndios se iniciam pela falta de cuidado ao usar o fogo, e este acaba extrapolando a área focada pelo produtor rural e se expande para outras áreas de florestas. Há também os incêndios criminosos, iniciados justamente para ocupar ilegalmente áreas públicas e protegidas", explica ele, que também é diretor da WCS Brasil (Associação Conservação da Vida Silvestre), com sede em Manaus.

    Carlos Durigan, ambientalista associa queimadas na Amazônia e Pantanal
    Carlos Durigan, ambientalista associa queimadas na Amazônia e Pantanal | Foto: Divulgação

    O ambientalista alerta para o aumento das queimadas nos dois biomas e ressalta que o problema tem se unido para e tornar um só.

    "A expansão das queimadas no Pantanal neste ano está avançando inclusive para áreas de transição entre os biomas Cerrado e Amazônia. Além disso, a seca que afeta ambas as regiões têm ajudado a criar um cenário de facilitação desta expansão das queimadas para áreas naturais", comenta o geógrafo.

    Leia mais:

    Amazônia e a 'epidemia' de queimadas com curva crescente

    Queimadas no AM cresce 51,7% no 1º semestre de 2020

    Como é o fundo do Rio Negro? Imagens e descrições revelam o mistério


    Comentários