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    ARTE


    Artista amazonense ganha reconhecimento nacional como Drag Queen

    Propondo um conceito que dialoga sobre conscientização ambiental e social, Emerson Munduruku criou a personagem 'Uýra Sodoma'

    Uýra Sodoma é uma eco drag que, segundo Emerson, pode ser definida poeticamente como fome e alimento | Foto: Reprodução

    Manaus - Com o objetivo de expandir os espaços e possibilidades de diálogo sobre a preservação ambiental, o artista e biólogo paraense Emerson Munduruku, de 27 anos, vem ganhando destaque nacional com a criação da personagem ‘Uýra Sodoma’. A drag queen surge de inspirações e questionamentos do artista sobre a maneira de respeitar e se relacionar com as diferentes formas de vida.

    Formado em biologia pelo Instituto Federal do Amazonas (Ufam) e mestre em ecologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas do Amazonas (Inpa), Emerson conversou com a reportagem do EM TEMPO sobre a criação da personagem.

    Do Tupi Guarani, Uýra significa ‘ave / liberdade’, e Sodoma ‘da carne’. A proposta é um diálogo artístico cultural profundo sobre o processo de autoconhecimento do ser humano por meio da natureza.

    O Nascimento de Uýra Sodoma

    Tudo começou em 2016 quando as ruas do Centro de Manaus começaram a ser ocupadas por manifestantes do movimento protestante contra a ascensão de Michel Temer como presidente do Brasil. Na época, jovens de diferentes vertentes políticas reuniam-se para debater propostas de melhoria e conscientização social. O momento foi responsável por fazer o artista se questionar sobre sua responsabilidade, posição, e ações dentro da sociedade.

    “Eu passei seis anos seguidos totalmente dedicados ao estudo da vida, por meio da biologia, mas apenas de forma acadêmica. A universidade ainda nos limita muito em relação ao entendimento das cadeias que englobam a compreensão dos comportamentos, por isso senti a necessidade de criar um espaço onde essa conversa abrangesse mais conceitos do que significa viver e de como cada ser humano ou planta passa por esse processo de forma altamente pessoal”, explica Munduruku.

    Marcada pela maquiagem em tons amazônicos e artifícios da flora regional, Uýra Sodoma é uma eco drag que, segundo Emerson, pode ser definida poeticamente como fome e alimento. 

    O artista propõe um diálogo sobre as relações humanas com a natureza e a vida em geral
    O artista propõe um diálogo sobre as relações humanas com a natureza e a vida em geral | Foto: Divulgação

    Processo Criativo

    Descendente de avós indígenas, Emerson nasceu em Satarém, no Pará, mas aos cinco anos de idade veio para Manaus com a família, onde reside até hoje. Morador do bairro Nossa Senhora de Fátima, na zona Norte da capital, o intérprete cresceu íntimo da terra, por suas brincadeiras no quintal de casa com flores, sementes e árvores. As referências das brincadeiras de infância, hoje em dia dão vida ao make up da personagem.

    “Montar Uýra foi como um processo de gestação. Ela não foi montada de uma vez só, foi crescendo aos poucos e até hoje continua em desenvolvimento. Quando decidi que queria ser fiel a minha verdade sobre a vida, queria resgatar nessa entidade coisas que realmente fazem parte de mim. Foi então que decidi alinhar minha paixão pela biologia à veia artística que sempre me acompanhou. A Uýra nasceu literalmente da terra. Eu sentei no chão e comecei a montar galho por galho a identidade dela”, conta o biólogo.

    Representatividade

    Ainda falando sobre suas referências artísticas, Emerson conta que a intimidade com a arte drag queen surgiu ainda na adolescência quando o jovem passou a frequentar boates do Centro da cidade. Na época, as drag queens não tinham o mesmo espaço de fala que vem solidificando hoje a nível mundial, mas em Munduruku, a manifestação artística já despertava curiosidade e entendimento sobre a cena.

    “Questionei minha vida! Que vida era essa que eu só trabalhava e pagava contas? Sofrendo violência pela minha sexualidade. O resultado desse questionamento foi a importância de viver e atuar não só em torno da fauna e da flora academicamente, mas também da vida humana que é o lado racional das relações. Eu ampliei minha atuação em conservação e meu entendimento sobre vida e respeito ao próximo”, diz o artista.

    Trazendo questionamentos sobre a forma de respeitar as divergentes escolhas de modo de vida do ser humano, Munduruku uniu então a representatividade LGBTQ ao seu amor pela preservação da natureza, associando a estética das drag queens com a mensagem de uma floresta viva, que respira e se movimenta.

    Cada montagem de Uýra é única e não se repete
    Cada montagem de Uýra é única e não se repete | Foto: Divulgação

    O Futuro de Uýra Sodoma

    Atualmente, tendo que dividir o tempo entre compromissos profissionais, envolvimentos de cunho social e atuação como eco drag, Emerson Munduruku revela que pretende continuar desenvolvendo a identidade de seu personagem, que enquanto força da natureza, está em constante processo de transformação.

    Em Manaus é possível encontrar Uýra nas manifestações artísticas culturais e sociais, nas ruas da cidade, executando performances para comunicar sobre a necessidade de se desconstruir para, só assim, conseguir entender os limites do próximo.

    “Quando penso em futuro enxergo a Uýra Sodoma ocupando muito mais lugares de fala, expandindo a mensagem de respeito à vida e ganhando o respeito das pessoas por meio de uma atuação séria e representativa. A identidade dela continuará em transformações sempre que houver a necessidade de comunicar por meio da arte. Tenho muito orgulho em ser um instrumento de conscientização sobre a nossa floresta e ainda ter a oportunidade de abraçar tantas outras causas como a representatividade gay, as singularidades de cada ser humano e a liberdade de transformação das pessoas”, concluiu Emerson Munduruku.

    "A Uýra nasceu literalmente da terra"
    "A Uýra nasceu literalmente da terra" | Foto: Divulgação
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