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    Série Perfil


    Zeudi Souza: um nome da resistência do cinema amazônico

    O cineasta amazonense Zeudi Souza possui mais de uma década de atuação no cenário audiovisual da região

    “Eu acho que dentro desse processo, da gente pensar o audiovisual no Amazonas, demos grandes saltos" | Foto: Janailton Falcão

    Manaus - Paixão à primeira vista. É assim que o cineasta amazonense Zeudi Souza, de 35 anos, define sua relação com o cinema, desde que entrou em uma sala de filmes que funcionava no Centro de Manaus, na década de 90. Na época o cinéfilo se virava como podia para conseguir dinheiro para pagar os ingressos.

    Em 2018, somando mais de 10 anos de carreira, o cineasta conversa com o EM TEMPO e faz um balanço da sua atuação no cenário audiovisual amazônico.

    “Eu batia nas portas dos vizinhos todos os dias às 6h da manhã me oferecendo para ir buscar águas nos garrafões em troca de uns reais. Quando chegava no sábado o dinheiro do meu cinema já era certo. Na época não era tão caro quanto hoje em dia, mas ainda assim também não era acessível a todo mundo, ainda mais para um menino pobre como eu era”, conta o artista.

    Depois de muita água vendida para alimentar a paixão, Zeudi Souza surge profissionalmente no audiovisual do Amazonas no início dos anos 2000, quando participou de um curso de cinema oferecido pela Secretaria de Cultura do Estado (SEC). A ocasião surgiu como oportunidade de direcionamento para o jovem que, até então, tinha a arte cinematográfica como um hobbie.

    As formações acadêmicas sempre foram muito importantes para Zeudi. Formado em Administração Pública e Privada, o cineasta também graduou-se no curso de Teatro pela Universidade Estadual do Amazonas (UEA), onde também concluiu pós-graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual.

    Sair de sua zona de conforto é o que guia a caminhada artística de Zeudi
    Sair de sua zona de conforto é o que guia a caminhada artística de Zeudi | Foto: Janailton Falcão

    Após anos de preparação técnica, em 2010 o cineasta finalmente estreia com louvor no quadro de profissionais do cinema no Amazonas, ao ganhar o prêmio de melhor curta metragem com o filme de ficção ‘Perdido’, em um dos maiores festivais de cinema do Brasil de então: o Amazonas Film Festival.

    “Ganhar um prêmio no Amazonas Film Festival foi a realização de um sonho. Lembro que no primeiro ano eu fiquei do lado de fora do Teatro Amazonas, olhando os artistas e pensando como eu queria fazer parte daquele mundo. Seis anos depois eu estava no palco sendo reconhecido pelo meu trabalho. Aquele momento foi um divisor de águas na minha carreira”, ressalta.

    Sérgio Andrade e Yuri César são alguns dos artistas amazonenses renomados que acompanharam o crescimento e o talento de Zeudi. O reconhecimento logo possibilitou novos voos ao cinéfilo e em 2012 ele foi chamado para estudar a arte fílmica em Cuba, pela Escuela Internacional de Cine y Televisión.

    De volta à Manaus, Zeudi decidiu sair da zona de conforto que era a direção das obras, e passou a atuar também como preparador de elenco, roteirista de diversos projetos, além de passear pela fotografia.

    Em Cuba eu percebi o quão vasto é o cenário audiovisual. Lá estudei direção cênica e quando voltei para Manaus percebi que a maior dificuldade é trabalhar com o elenco de atores locais, que acaba deixando a desejar por falta de especialização. Isso causou pequenas aflições mas também trouxe muitas propostas para resolver esse problema. Isso me fez pensar a relação com a equipe e cada diretor que me convidava para preparar o elenco. Eu levava esse mergulho no entendimento do cinema para que, na frente das câmeras, tivessem o resultado esperado”, explica o cineasta, ao falar sobre as limitações do cenário audiovisual regional.

    O cineasta amazonense Zeudi Souza possui mais de uma década de atuação no cenário audiovisual da região
    O cineasta amazonense Zeudi Souza possui mais de uma década de atuação no cenário audiovisual da região | Foto: Janailton Falcão

    Apesar das dificuldades elencadas pelo artista, ele reitera sua posição política ativa em relação a transformação desse mercado no Amazonas e elenca os pontos positivos alcançados pelos profissionais que compõe a classe no Estado. De acordo com o cineasta, apesar da crise financeira que o país sofre, os avanços no campo audiovisual tem sido contínuos.

    “Eu acho que dentro desse processo, da gente pensar o audiovisual, demos grandes saltos. A classe está se unindo, buscando editais, está buscando ser ouvido e fico feliz em poder fazer parte desse processo político. A gente passa por um momento financeiramente difícil para todas as esferas e a primeira que sofre com corte de gastos é a pasta de Cultura. Mas a galera está resistente, correndo atrás, produzindo, e acho isso importante pra manter essa fagulha do audiovisual que renasceu desde os anos 2000. Hoje a gente continua caminhando sem perder as esperanças na produção do audiovisual”, declara.

     “As pessoas têm visão muito romantizada sobre a produção do cinema, mas ele é mais profundo. Você precisa ter consciência de tudo que compõe o cenário, de todas as vertentes que estão por trás da câmera. Não é fácil, a gente precisa se aprofundar. A gente precisa separar o cinema experimental do profissional. Passear por outros campos é absolutamente necessário para que você domine completamente a arte cinematográfica”

    Zeudi Sousa não esconde, porém, a necessidade de estar sempre se retirando da sua zona de conforto e colocando-se à prova de novas desafios. Apesar disso, o cineasta não consegue e nem quer cortar a veia que pulsa pela produção de material audiovisual, e mesmo afastado das direções de filmes, continua se inspirando em suas referências para crescer dentro das escolhas que faz. Nomes amazonenses como, Oscar Ramos encabeçam esses padrões de orientação.

    “Oscar Ramos é um diretor de arte amazonense super renomado e que foi um divisor de águas na cena. Para mim é a pessoa que mais entende de cinema no Amazonas e até hoje me inspira muito, desde que comecei. Muito prazer em poder já ter trabalho com esse cara. O Amazonas é um celeiro de artistas que o mundo precisa conhecer”, conta o cinéfilo que trabalhou com Oscar em seus últimos filmes.

    Zeudi considera o prêmio que recebeu no Amazonas Film Festival em 2010 como um divisor de águas em sua carreira
    Zeudi considera o prêmio que recebeu no Amazonas Film Festival em 2010 como um divisor de águas em sua carreira | Foto: Janailton Falcão

    Em 2019 o cineasta pretende voltar para o campo audiovisual com produções repaginadas pelos processos de autoconhecimento que ele vem desenvolvendo, ao passear por outras áreas das artes cênicas, como o teatro. Sempre focado no cinema regional, o artista amazonense conta que mais uma vez, sua proposta para o futuro é continuar se retirando da sua zona de conforto.

    “Esse tempo está sendo necessário. Em 2019 é uma retomada do meu caminho dentro do audiovisual. Quero estar mais engajado dentro do cinema local e a partir dessa retomada ver até onde a gente vai. E espero que a gente vá bem longe”, finaliza o cineasta. 

    Edição: Wallace Abreu

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