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    Série Perfil


    Selma Bustamante: muito além do nariz vermelho da palhaça Kandura

    Após ter passado por diferentes cidades brasileiras, a artista escolheu, há 22 anos, Manaus como a cidade onde queria amadurecer seu trabalho como atriz e diretora de teatro

    Manaus - Somando mais de 40 anos de atuação no cenário das artes cênicas no Brasil - 22 anos só em Manaus -, a diretora de teatro, atriz e produtora cultural Selma Bustamante, de 62 anos, conversou com o EM TEMPO sobre sua trajetória artística e os planos para o futuro. Nascida em São Paulo (SP), Selma escolheu os aposentos do Teatro Amazonas, maior símbolo cultural das artes no Estado, como espaço para a entrevista.

    O começo em São Paulo

    Tudo começou na década de 1970 quando, ainda em São Paulo, Selma lidava com os reflexos repreensivos dos anos seguintes à ditadura no Brasil. Na época, a veia artística da intérprete já pulsava pela forte necessidade de ter liberdade de expressão. Não demorou muito para que logo se envolvesse com um grupo teatral experimental da cidade e descobrisse, de fato, o amor pela arte da atuação.

    | Foto: Reprodução

    Sofrendo com as limitações de um sistema político ditador, que delimitava as possibilidades de pensamento e diálogo de acordo com objetivos político-econômicos, a atriz conta que os encontros do grupo teatral aconteciam de forma independente, nas ruas da cidade e longe dos holofotes.

    “Na época, ainda jovens e com sede de liberdade, nos encontrávamos em uma siderúrgica abandonada em São Paulo, para fazer acontecer as possibilidades que tanto gostaríamos de ter no campo artístico. Foi uma época de muito aprendizado onde eu pude me reconhecer enquanto atriz e ter certeza de que era com isso que queria trabalhar. Sem dinheiro e apoio político, nosso público era a rua, as pessoas que não podiam ir ao teatro. Naquele momento eu vi que podia mudar a vida das pessoas por meio do teatro”, explica Selma Bustamante, contemplando a beleza do Teatro Amazonas, que ela considera sua segunda casa em Manaus.

    | Foto: Reprodução

    No entanto, foi na Companhia de Teatro Ventoforte - do renomado diretor Ilo Krugle - que Bustamante deu os seus primeiro passos profissionais nos palcos, onde começou a desenvolver um teatro voltado para a infância e a juventude, ponto que permeia a trajetória da artista até os dias de hoje. "Trabalhávamos com desconstruções de pensamentos políticos em um momento onde politicamente tudo era muito delicado", relembra.

    Completamente envolvida pelo cenário das transmutações, a artista prestou vestibular para o curso de Artes Cênicas na Universidade de São Paulo (USP) onde se formou, dividindo os afazeres acadêmicos com os projetos do grupo ‘Ventoforte’ - que não eram poucos segundo Selma.

    Depois de alguns anos estruturando-se na profissão e fiel à essência libertária, Selma decidiu que era hora de alçar novos voos e mudou-se para o Nordeste. O destino foi o Piauí.

    “Minha passagem pelo Piauí foi importante para me identificar de fato como atriz. Lá eu trabalhei na direção executiva de uma televisão e pude fazer muitos contatos, mas não era minha zona de conforto. Por isso nunca deixei de fazer projetos teatrais paralelos ao que eu fazia profissionalmente na época para me sustentar”, conta a intérprete.

    Com o músico Edgard Lippo, Selma Bustamante dividiu vários momentos dentro e fora dos palcos
    Com o músico Edgard Lippo, Selma Bustamante dividiu vários momentos dentro e fora dos palcos | Foto: Reprodução

    Destino: Manaus

    A vida no Nordeste do Brasil já não contemplava mais a paulista que, na época, era casada com o músico Edgard Lippo (1957-2008). Sem cogitar a hipótese de ir para o Sul, Selma conta que junto ao marido pegou um livro atlas e escolheu a dedo a região Norte como destino de uma história que hoje já dura mais de 20 anos. Em 1996 a atriz desembarcou em Manaus com uma única certeza: viver do seu teatro.

    Como qualquer verdadeira história de amor, a chegada na "Paris dos Trópicos" não foi um mar de rosas. Problemas financeiros, de saúde e de rotina conturbaram a então recente estada da atriz, mas Selma não desistiu de ficar e conta que 22 anos depois, não se arrepende de ter aterrissado na capital do Amazonas.

    | Foto: Reprodução

    “Quando cheguei aqui fiquei apaixonada pela beleza da cidade, pela essência do povo amazonense, mas não foi isso que me fez ficar! A cidade continua linda até hoje mas como qualquer outra, cheia de problemas a serem resolvidos. O que me fez ficar, de verdade, foi a vontade de batalhar pelas coisas que acredito que tem e podem ser transformadas para melhor. Manaus tem uma herança maldita de matar as pessoas que realmente querem fazer alguma coisa por elas, e eu continuo aqui se o preço for morrer”, declara Bustamante, uma das principais figuras da cena artística local.

    Em Manaus, Selma fundou o Grupo ‘Baião de Dois’, responsável por importantes espetáculos da história do teatro na cidade nas últimas décadas. Selma foi responsável também por reforçar ainda mais a vontade de desenvolvimento de projetos de  Teatro de Rua na capital amazonense, além de ser intérprete da Kandura, clown que já rendeu à Bustamante vários prêmios.

    | Foto: Reprodução

    Projetos futuros

    “Ainda tenho muitos projetos para desenvolver e espero não ter tempo de executar todos. Não tenho medo de recomeçar e se me perguntares como me vejo daqui há dez anos, quem sabe eu não esteja morando em uma cidadezinha, um vilarejo, onde a paz, o silêncio e a contemplação pelas coisas simples da vida seja a minha rotina. Quero conhecer o mundo, mas tenho certeza que quero viver e morrer no meu Brasil”, finaliza a diretora e atriz de teatro ao colocar o nariz de palhaço e trazer à vida, Kandura.

    Nesse momento a entrevista começa a ficar quase silenciosa... É a personagem Kandura que começa a dominar o ambiente, e por meio de fortes expressões faciais, estabelece uma comunicação que só acontece com o desenvolvimento de ferramentas de diálogos sensoriais. Ela olha, cala, sorri, questiona. Traz à tona a linguagem do olhar e da comunicação corporal comum aos artistas que já possuem uma longa trajetória e são detentores de um talento ímpar. Fecham as cortinas. A história continua nos bastidores.

    Edição: Wallace Abreu

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