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    Governo do Amazonas


    'Quero trabalhar em prol do bem comum', diz novo secretário de cultura

    Marcos Apolo Muniz, 45, concedeu entrevista exclusiva ao Em Tempo

    A partir de 1996, Marcos começou a executar trabalhos técnicos no Teatro Amazonas
    A partir de 1996, Marcos começou a executar trabalhos técnicos no Teatro Amazonas | Foto: Ione Moreno


    Manaus - A relação do arquiteto e urbanista manauense Marcos Apolo Muniz, 45, com a cultura local teve início em meados da década de 1980, ao lado do Titio Barbosa. Foi animador cultural, deu aulas de teatro e trabalhou como artista autônomo durante muitos anos.

    A partir de 1996 começou a executar trabalhos técnicos no Teatro Amazonas. Dois anos mais tarde, já na Secretaria de Estado de Cultura (Sec) também atendeu o público na entrada do local, atuou no receptivo até compor a equipe técnica. Depois, assumiu a gerência técnica do teatro – na época tinha 20 e poucos anos e tornou-se o gerente mais jovem de toda a secretaria.

    Foi ainda diretor da Central Técnica de Produção (CTP) – iniciativa localizada no bairro Cachoeirinha, que começou como um espaço de 600 m2 e hoje ocupa 9 mil m2, e fundamental para eventos como o Festival Amazonas de Ópera.

    Em 2012, Muniz buscou novos passos profissionais e abriu a empresa Apolo Produções, para atuar em Manaus e Boa Vista. No início deste ano, foi empossado como secretário de Cultura do Estado, na gestão do governador Wilson Lima.

    Qual será a palavra de ordem da sua gestão?

    Planejamento. Fazer as coisas de forma planejada e integrada. Não estou traçando comparativos com o que já foi feito, mas é o meu perfil de trabalho. Planejar para fazer bem feito.

    Você trabalhou durante vários anos na Secretaria de Estado de Cultura. No tempo em que ficou afastado, o que apontaria como prós e contras das duas administrações anteriores?

    Em relação a pontuar prós e contras, eu acredito que a manutenção de alguns festivais, de algumas atividades. Na última gestão, eu considero como prós alguns eventos que abriram mais espaços da secretaria. O contra, a questão dos espaços quanto à manutenção dos equipamentos culturais, que acredito que tenha ocorrido por restrição de recursos.

    É uma realidade que estamos encontrando, mas não julgo os antecessores. Estamos buscando caminhos para ajustar esse detalhe para que possamos ter qualidade no atendimento ao artista e assim, mais qualidade no atendimento ao nosso público.

    Você já falou sobre aumentar a potencialidade cultural nos bairros de Manaus?

    O que compreendemos é que as comunidades, os bairros, as escolas já fazem os seus movimentos, e cada localidade tem uma vocação. Outras ainda precisam encontrar as suas vocações junto à comunidade utilizando as estruturas que o Estado possui, como as escolas e outros centros que podem ser ocupados pelas nossas atividades.

    Já dialoguei com o Liceu de Artes e Ofícios Claudio Santoro e com os Corpos Artísticos para que possamos montar um calendário e, dessa forma, interagir com a comunidade para buscar essa potencialização, e fazer com que isso circule. É algo que vai ser construído a partir de uma análise e um diagnóstico.

    Eu posso ter ideias aqui, mas essas ideias serão devidamente ampliadas a partir do momento em que tivermos o conhecimento do que pode ser realmente feito em cada espaço.

    Na sua opinião o que é que falta para integrar mais as cidades do interior às atividades da Sec?

    O primeiro dificultador é o acesso. Há municípios que para eu enviar um grupo de artistas preciso programar a chegada de forma fluvial. Então, terei que separar uns dez dias para chegar até determinada cidade, desenvolver uma atividade e retornar. Teremos uma reunião na segunda quinzena com as representações dos municípios.

    Existem atividades que esses municípios já fazem, e não esperam que o Estado vá até lá. Mas acreditamos que podemos potencializar isso. E trabalhamos com a mesma filosofia pensada para os bairros: a vocação do município, compreender o que eles têm mais facilidade e, com isso, interagir, mostrar outros produtos culturais para que possamos fazer esse intercâmbio.

    É um trabalho que não será feito a curto prazo, e será construído com os municípios. Quando falamos, “Vamos interiorizar a cultura”, estaríamos dizendo que no interior nada acontece e que só vai acontecer se formos até lá levar uma orquestra de violões ou um corpo de dança ou um balé folclórico. O interior tem, sim, uma capacidade e um potencial e o que podemos fazer é aprimorar isso.

    De onde veio a inspiração para utilizar a economia criativa na revitalização de aparelhos culturais?

    Temos 52 espaços que são de responsabilidade da Sec, que responde também pelo patrimônio histórico do Estado. Alguns já estão sob a nossa responsabilidade e outros sob os nossos olhares. Restauração e preservação de um patrimônio não são a mesma coisa que a manutenção de um prédio comum, pois demanda recursos muito específicos.

    Quando buscamos esses outros lados, ou da economia criativa, ou dos atores ou das parcerias, é que a gente possa otimizar essas ações que é algo que acaba acumulando manutenções que precisam ser realizadas. E quando eu falo manutenções são de teatros, museus, centros culturais, galerias, praças, parques, bibliotecas, todos esses equipamentos que estão à disposição da população sob a nossa gestão e que têm uso frequente, contínuo, intenso, assíduo. Nossos equipamentos estão funcionando direto. E para a manutenção vamos buscar recursos, que já estão sendo estudados.

    Evidentemente, com todo o apoio do governo, que já disponibiliza uma receita para isso. Mas é óbvio que precisamos buscar o apoio da iniciativa pública ou privada, e não é nem por uma questão de contingência porque é algo praticado no mundo inteiro e pouco praticado no Amazonas. Em Manaus não existe essa cultura e esse hábito de a iniciativa privada apoiar os espaços culturais.

    Esse é um apoio saudável e chega a ser uma contrapartida para a sociedade da iniciativa privada. Não é uma despesa, é um investimento na sociedade, no cidadão. Então, as parcerias serão as ferramentas utilizadas para buscarmos essa aproximação e tornar isso concreto. Isso talvez até aconteça de forma muito tímida. Pode ser ampliado. Por que não ocorre? Vamos entender e buscar os mecanismos para que isso aconteça.

    Dos vários eventos anuais realizados pela Sec, alguns tiveram uma longevidade, como o Festival Amazonas de Ópera, e outros ficaram pelo meio do caminho, como o Amazonas Film Festival e o Festival Amazonas de Jazz. Na sua gestão, o que para, o que continua e o que vai ter que ser restruturado?

    Dentro da nossa gestão já existe a proposta de reformulação dos festivais. Nós estamos saindo de uma recessão. Não tenho como responder por que houve a descontinuidade de cada festival. O festival não é de uma gestão, ele é de uma classe, da categoria, do cidadão, da população. Sobre o Festival Amazonas de Ópera já pedi a programação e para fazer uma análise orçamentária.

    Parcerias já estão vindo espontaneamente para apoiar o festival – tanto parcerias locais quanto parcerias externas de pessoas que compreendem esse evento como algo importante para o Estado. O Festival Amazonas de Ópera, assim como outros festivais, e isso precisa ser compreendido, não é só um momento do artista, mas é um grande gerador de emprego e renda, e tem um grande impacto social. A indústria da cultura tem um potencial de empregabilidade, de geração de renda fundamental para a economia, então passa a ser um investimento e não uma despesa para o Estado fazer esse aporte para o festival.

    A ideia dos eventos não é o seu lado populista, mas tudo que eles significam para o Estado e para o cidadão. Como o Festival Folclórico de Parintins, que é uma representação da nossa cultura, mas movimenta toda a economia daquele município e também a do Estado através do turismo, dos empregos que são gerados direta ou indiretamente. Então, isso precisa ser percebido. Não é fazer o evento pelo evento, mas compreender a sua importância.

    O Carnaval tem a sua importância, vai muito além da festa. O Festival Folclórico de Parintins tem a sua importância como o Festival Folclórico do Amazonas. Eu também estou detalhando um organograma de todos os movimentos culturais que o Amazonas tem e as suas potencialidades, as suas vocações e, se nós percebermos, somos muito ecléticos.

    Temos um diferencial que eu acredito que em poucos lugares se vê. Se fizermos uma viagem pelo país, os Estados potencializam um determinado segmento. No Sul, o cinema; no Rio de Janeiro, a literatura, o Carnaval; São Paulo é um caso à parte porque são muitas culturas. Cada um tem o seu segmento. No Amazonas fazemos tudo o que os outros Estados fazem num Estado só. É importante termos essa leitura. Tenho esse sentimento de que aqui é tudo mais intenso, mais amplo e mais completo.

    Nos últimos anos, o Teatro Amazonas e o Teatro da Instalação ficaram sendo locais bastante frequentes de eventos, e a cidade dispõe de vários outros espaços culturais. Existe alguma intenção na sua gestão de que outros espaços voltem a ter um peso de frequência parecido?

    O Teatro da Instalação e, principalmente, o Teatro Amazonas têm uma demanda diferente de outros espaços. Até pela sua estrutura técnica, o maior volume de pedidos que recebemos é para o Teatro Amazonas. Então, temos que encontrar mecanismos para que possamos atender de forma democrática o maior número de segmentos e artistas possível.

    O Teatro da Instalação tem uma estrutura técnica mediana que também consegue atender a muitos espetáculos. Estamos vendo a forma de potencializar todos esses espaços, compreender a vocação de cada um, discutir a acessibilidade, a estrutura e de que forma nós podemos trabalhá-los.

    Nós temos a Usina Chaminé, Teatro Américo Alvarez, Galeria do Largo, Palácio da Justiça, o Centro Cultural dos Povos da Amazônia, o Palacete Provincial, todos estão sendo analisados para que possamos realmente utilizá-los até de forma diferenciada, experimentar um pouco do que pode ser feito em cada um desses lugares.

    Como será a relação com o artista local durante a sua gestão?

    Nós estamos fazendo uma agenda para conversar com as classes, com os segmentos, uma reunião para ouvir os artistas, entender o que já foi discutido, o que pode ser ampliado e melhorado. E quando falo artistas são artistas de todos os segmentos, os artistas plásticos, músicos, bailarinos, atores, poetas, circenses.

    Nós temos uma programação onde acabamos utilizando essa mão de obra artística. Nós vamos trabalhar intensamente para tirar do papel o Conselho Estadual de Cultura e, a partir daí, o conselho abre uma série de possibilidades como o Fundo de Cultura, a integração ao Sistema Nacional de Cultura e outras ações que podem beneficiar diretamente todas as classes que souberem aproveitar esse mecanismo.

    Além disso, agora nas férias vamos promover alguns cursos e oficinas de empreendedorismo cultural. Já temos alguns artistas que se beneficiam de forma muito positiva dessas leis de fomento, de editais e nós queremos ampliar isso, termos mais artistas se preparando para participar.

    Como Secretaria de Cultura vamos continuar disponibilizando os equipamentos culturais, utilizando esses artistas através do pagamento de cachê na participação. Temos o objetivo de fazer um centro de apoio ao artista que ainda estamos formatando para que tenhamos realmente condição de forma planejada de atendê-los. Além do diálogo, pois vai ser importante ouvi-los para que a gente possa entender o que cabe realmente dentro desses anseios e o que cabe a Secretaria fazer com muita responsabilidade.

    Qual é o maior desafio para você nessa gestão?

    Primeiro, eu sou muito obstinado e preciso compreender que tenho que ir até onde cabe a Sec, e eu quero sempre ir além. O segundo desafio é ir para frente resolvendo o que ficou para trás. E o outro é fazer com que o nosso resultado seja em prol do bem comum. Certamente não agradaremos a todos, isso é impossível e eu nem tenho essa ambição, mas trabalhar realmente pelo bem comum e, acima de tudo, com um olho no cidadão.

    A nossa responsabilidade junto à sociedade é buscar esse impacto social, sermos transformadores, mudar números, trabalhar com gráficos e parâmetros que mostram a importância da cultura dentro da sociedade, implementar a indústria da cultura, tudo isso são desejos, vontades e não são promessas, são metas e objetivos.

    A grande dificuldade vai ser avançar cuidando daquilo que ficou e sermos realmente planejados, práticos, objetivos e com metas claras e trabalhar com essa integração: os artistas do nosso lado, a sociedade do nosso lado, os parceiros do nosso lado.

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