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    Mudança de hábitos


    Vídeo: casal abandona a vida executiva em SP pela ribeirinha no AM

    Eles cansaram da robótica rotina de viagens profissionais e escolheram o Lago Tarumã como endereço para obterem mais qualidade de vida

    "Hoje em dia a vida é muito mais leve", revela o casal.
    "Hoje em dia a vida é muito mais leve", revela o casal. | Foto: Marcely Gomes


    Manaus – Juntos eles já somam quase 20 anos de idas e vindas ao Amazonas, mas é há exatamente cinco anos que a dupla fez da região sua nova casa. A ideia de largar tudo na "cidade grande" e mudar completamente o estilo de vida parece arriscada, mas o casal Graziela e Diogo Vasconcelos decidiu topar o desafio e assumir as responsabilidades de padrões minimalistas. Os dois trocaram os carros por barcos, a casa de concreto pela de madeira e decidiram abraçar o estilo ribeirinho como qualidade de vida.

    Diogo e Graziela revelam que, já na região norte do país, moraram em Roraima antes de pousar em Manaus
    Diogo e Graziela revelam que, já na região norte do país, moraram em Roraima antes de pousar em Manaus | Foto: Marcely Gomes


    Ela é do interior de São Paulo e ele é do Rio de Janeiro. Casados há 14 anos, a dupla explica que passou quase uma década trabalhando como empresários no setor de linhas aéreas. A rotina de viagens constantes era exaustiva e ambos destacam que, apesar da rentabilidade ser positiva, o estilo de vida não compensava, pois não conseguiam ter tempo livre para priorizar valores que sempre falaram mais alto como, por exemplo, a necessidade de estar mais perto da natureza.

    A decisão

    “Nós estávamos passando por uma fase de reavaliar nossas prioridades e, mais do que tudo, de nos respeitar enquanto seres humanos - que podem fazer bem mais pelo coletivo do que apenas ganhar dinheiro. Não acreditávamos mais nos produtos que a gente vendia e estávamos insatisfeitos com nosso próprio setor. Queríamos fazer alguma coisa diferente na nossa vida, mudar totalmente de rotina”, conta Graziela, que também é psicóloga.

    Na nova casa, Graziela e Diogo também dividem espaço com os cães, que são como membros da família
    Na nova casa, Graziela e Diogo também dividem espaço com os cães, que são como membros da família | Foto: Marcely Gomes


    Os dois decidiram, então, que era hora de mudar, e com a experiência das viagens que faziam escolheram a região norte do país, pois já a conheciam bem. Ainda optando pelo turismo como ferramenta de expansão profissional na nova fase, Diogo e Graziela escolheram Manaus como a terra que daria vida a novos padrões de comportamentos.

    “Quando finalmente chegamos, tentamos abrir um hotel de selva, mas não deu muito certo. Foi aí que pensamos em abrir uma lanchonete, na verdade era uma espécie de tapiocaria, onde as pessoas pudessem fazer Stand Up Paddle e assistir ao pôr do sol, sem muitas pretensões. Nesse processo todo descobrimos o que gostávamos de fazer, de que forma queríamos viver, e o mais importante: conseguimos alinhar nossos valores ao nosso estilo de vida”, destaca Diogo que, além de formado em Direito, é mestre pela Universidade Federal do Amazonas.

    Diogo Vasconcelos, proprietário do Abaré Sup and Food
    Diogo Vasconcelos, proprietário do Abaré Sup and Food | Foto: Marcely Gomes


    Os empresários já tinham feito a compra de uma estrutura flutuante há pelo menos dez anos, mas usavam o espaço apenas para diversão particular. Com a possibilidade de mudar radicalmente a forma de viver, eles decidiram usar o flutuante para dar início a um novo negócio, algo que contribuísse tanto com a necessidade financeira como também com um estilo de vida mais minimalista.

    A consolidação

    “Foi em 2014 que nosso sonho começou a tornar-se realidade. Foi nessa época que pensamos em usar o flutuante, que já havíamos comprado há algum tempo, como ponto de partida. A decisão coincidiu com a realização da Copa do Mundo, que também sacudia o turismo em Manaus naquele ano. Pensamos em alinhar o nosso momento de mudança ao movimento turístico que acontecia na região”, diz o casal.  

    Flutuante Abaré
    Flutuante Abaré | Foto: Marcely Gomes


    A ideia inicial era fazer uma estrutura flutuante bem menor, mas a visão empresarial de Graziela e Diogo naturalmente contribuiu para que o negócio expandisse. As primeiras demandas comerciais do espaço logo foram contornadas e a possibilidade de crescer ainda mais foi agarrada.

    Longe de pensar apenas no lucro, Diogo e Graziela afirmam que a responsabilidade de abrir um restaurante em meio a uma unidade de conservação caminha ao lado de tais valores ambientais, sociais e espirituais que os dois tanto procuravam abraçar.

    Além de flutuante, o local também oferece serviço de hospedagem em um hostel, o primeiro em flutuante do mundo
    Além de flutuante, o local também oferece serviço de hospedagem em um hostel, o primeiro em flutuante do mundo | Foto: Marcely Gomes


    Da necessidade de um estilo de vida mais saudável, nascia então o "Abaré Sup and Food". Um espaço criado dentro da Unidade de Conversação Ambiental Lago do Tarumã, e que trabalha pela inclusão do rio como espaço de lazer coletivo. O projeto é de imensurável valor social e ambiental, mas as responsabilidades são gigantes, destaca o casal.

    Responsabilidade ambiental e social

    Diogo conta que o Abaré é a forma física do seu projeto de mestrado na Ufam, o trabalho falava sobre a possibilidade de unir Turismo às Unidades de Conservação Ambientais. O flutuante foi construído em cima do Lago Tarumã e, usando em sua arquitetura traços da cultura amazônica, acabou despertando no público o sentimento de identidade regional.

    A estrutura é um verdadeiro playground para os cães
    A estrutura é um verdadeiro playground para os cães | Foto: Marcely Gomes


    “A cidade tem um problema com a própria cultura, Manaus vira as costas para a água, onde existem poucos pontos de interseção. Os lazeres no rio só existiam em bares de baixíssimo ou pessoas milionárias que saiam em iates para aproveitar o final de semana. A classe média não tinha a água como opção de lazer e a gente trabalha cada vez mais para mudar isso e transformar o rio em um espaço coletivo, por meio do respeito à natureza”, ressalta o empresário.

    O cuidado com o meio ambiente no espaço é percebido não só por conta dos sistemas de encanamento do flutuante, que respeitam totalmente a limpeza do rio. O casal explica que é reserva os dejetos em um espaço específico, para que depois sejam despejados no local correto.

    Os empresários destacam que hoje conseguiram alinhar o ritmo de trabalho com os valores pessoais
    Os empresários destacam que hoje conseguiram alinhar o ritmo de trabalho com os valores pessoais | Foto: Marcely Gomes


    O compromisso do casal com a unidade de preservação também criou a iniciativa “Grito d’Água”, que reúne periodicamente dezenas de pessoas para limpar o Lago de forma voluntária. O projeto, que celebrou no final de 2018 a sua sétima edição, já retirou mais de 20 toneladas de lixo das águas do Tarumã.

    “Quando as pessoas acham que fazem parte da natureza, elas agem de forma menos predatória, e é ensinando que aprendemos a cuidar e proteger. Por isso demos início ao movimento 'Grito d’Água' e já tiramos mais de 20 toneladas de lixo de dentro da água com a ajuda de voluntários. Nós temos o dever de cuidar desse espaço porque é onde a gente trabalha e mora”, explica Diogo Vasconcelos.

    “Quando a imprensa abre um espaço para a gente falar sobre a água, é um momento muito importante porque antes só saíam notícias nos jornais sobre a cheia e a seca. Hoje,  as pessoas começam a olhar a saúde da água como um problema público”, conta o advogado.

    Veja entrevista com o casal | Autor: Marcely Gomes


    Curando as próximas gerações

    Isadora e Dimitri são filhos do casal e já nasceram em Manaus sob a decisão dos pais em viver como ribeirinhos. Apesar de ainda serem crianças, os dois já entendem a importância de respeitar a natureza como a própria casa. A ida para a escola é somente de barco e nem mesmo a chuva impede os irmãos de ir para a aula na ‘voadeira’ do pai. O pôr do sol também não passa em branco no local, cada fim do dia é selado por um mergulho das crianças no imenso Lago Tarumã.

    Unidos a voluntários, o casal já conseguiu retirar aproximadamente 20 toneladas de lixo nas águas do Tarumã
    Unidos a voluntários, o casal já conseguiu retirar aproximadamente 20 toneladas de lixo nas águas do Tarumã | Foto: Marcely Gomes


    “A gente compara a criação dos nossos filhos, que já nasceram aqui, com o estilo de vida de amigos que vem de fora, e é totalmente diferente. Amigos que vêm nos visitar e têm o mesmo padrão de vida financeira e educacional, que damos aos meninos, acabam percebendo que em cidades como São Paulo, por exemplo, o tempo de vida e esforço que eles gastam é muito maior que o nosso. Tenho amigos com extremo sucesso profissional, mas só encontra o filho uma vez por dia ou menos, e esse é um lado muito difícil da vida executiva. Não acho que vale a pena ter a presença financeira, moral, mas não ter a familiar, que é a mais importante’”, completa Diogo.

    No lugar de uma carro na garagem de uma mansão, eles preferem um barco e um flutuante
    No lugar de uma carro na garagem de uma mansão, eles preferem um barco e um flutuante | Foto: Marcely Gomes


    Questionados sobre a diferença na saúde psicológica desde que passaram a viver como ribeirinhos, Graziela responde:

    “Hoje nossa vida é muito mais leve! Antes tínhamos uma empresa grande e os problemas consequentemente eram muito maiores, nos desgastávamos muito mais por ter que resolver situações em dimensão institucional. É claro que continuamos tendo problemas como quaisquer outras pessoas, mas aqui eles são contornados facilmente de forma prática e rápida”, conta Graziela Vasconcelos.

    Desafios

    Morar em cima do rio não deve ser fácil. Não é tão comum assim sair para simples hábitos como, por exemplo, comprar pão de manhã, ir de carro para o trabalho ou para a escola, ou até mesmo uma simples saída para jantar durante a noite. Consolidar um estilo de vida ribeirinho tem seus desafios, mas os empresários contam que apesar dos contratempos, não se imaginam mais vivendo de outra forma.

    Graziela e Diogo contam que a paixão pela vida no rio também tem seus contratempos
    Graziela e Diogo contam que a paixão pela vida no rio também tem seus contratempos | Foto: Marcely Gomes


    “Comprar pão de manhã é um desafio, as crianças vão para a escola de barco mesmo quando está chovendo, o lixo é separado de forma particular. Às vezes estar aqui é estar sem acesso aos serviços públicos. Não temos policiamento, o fornecimento de energia é precário, não temos coleta de lixo ou água encanada. Estamos à margem dos serviços públicos. O estado sabe cobrar os impostos, mas os serviços nem sempre chegam”, denuncia Diogo.

    Mas, entre inúmeros problemas de logística, Diogo e Graziela revelam que a burocracia ainda é uma das maiores inimigas do projeto.

    A missão de levantar a bandeira da sustentabilidade deve seguir sendo sustentada pelo casal
    A missão de levantar a bandeira da sustentabilidade deve seguir sendo sustentada pelo casal | Foto: Marcely Gomes


    “O maior problema é continuar sobrevivendo dentro de um negócio brasileiro, cheio de impostos, de taxas, burocracias. Somos 100% legais, mas nem a prefeitura sabia como nos legalizar, e foi nesse momento que provamos que podíamos fazer uma empresa séria, gerando empregos e respeitando a natureza sem agredi-la”, explicam.

    Ao abraçar a Amazônia, o casal também foi abraçado e confirma que deve continuar desenvolvendo o projeto na região de forma saudável e eficiente, tendo como retorno a qualidade de vida de quem escolheu a natureza como seu habitat.

    *Edição: Isac Sharlon

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