Fonte: OpenWeather

    Misticismo


    Perfume da Bota é vendido como 'milagre' para atrair parceiros no AM

    Mito, crença, magia ou crime ambiental? Há pessoas que usam a genitália da bota como ingredientes em perfumes para atrair parceiros. Para evitarem fiscalização, produtos ganham novos nomes.

     

    O produto feito a partir da genitália da bota pode ser encontrada em diversas versões
    O produto feito a partir da genitália da bota pode ser encontrada em diversas versões | Foto: Marcely Gomes


    Manaus ­­– Entre lendas, costumes e tradições, a Região Amazônica possui misticismos que alimentam o imaginário popular.  Lendas como cobras gigantes, Matinta Pereira e até o boto que se transforma em homem para atrair ribeirinhas trazem um pouco desse 'folclore' que alimenta a magia na floresta. O boto inclusive é associado à fertilidade e ao poder de atração.

    Contrariando os ambientalistas e até mesmo a ciência,  é possível encontrar nas feiras de Manaus,óleos e perfumes que seriam produzidos a partir dos órgãos sexuais do boto-fêmea. Lembrando que matar animais silvestres é crime.

    O óleo, ou "perfume da Bota", é usado para aumentar a atração sexual de quem busca conquistar uma companhia amorosa ou apenas parceiros sexuais. A poção é vendida ao lado de milhares de ervas naturais vendidas no mercado da cidade. 

     

    O "Agarradinho" é um dos óleos da bota com mais saída no mercado municipal
    O "Agarradinho" é um dos óleos da bota com mais saída no mercado municipal | Foto: Marcely Gomes


    No Mercado Municipal Adolpho Lisboa, situado no Centro de Manaus, a comerciante Jaqueline Lobo, 30, trabalha vendendo ervas amazônicas em uma das bancas. Há pouco mais de 1 ano na atividade, ela conta que o espaço oferece chás para diferentes demandas, além de remédios naturais à base de plantas para limpeza do organismo e também para diversas infecções.

    Entretanto, segundo Jaqueline, o carro chefe das vendas são as bebidas, óleos e banhos para aumentar a libido.

    Entre as opções, está o "perfume da Bota". Considerado uma substância mágica em forma de aroma. O produto é elaborado com a mistura de algumas ervas, álcool e feromônios da genitália da bota.

     

    O 'Perfume da Bota' é preparado com um pedaço da vagina do animal que é colocado em conserva no álcool. Posteriormente a substância é misturada a essências
    O 'Perfume da Bota' é preparado com um pedaço da vagina do animal que é colocado em conserva no álcool. Posteriormente a substância é misturada a essências | Foto: Marcely Gomes

    A crença explica que o aroma, resultado da mistura dos ingredientes, "causa" atração sexual entre aqueles que sentem o cheiro na pele de quem usa.

    Jaqueline explica que além do perfume, a poção também pode ser aplicada a um lubrificante e usado em relações sexuais. Independente das formas usadas, a comerciante garante por experiência própria que o produto funciona. “Se eu soubesse que funcionava mesmo, eu nem tinha usado. Isso porque agora o ‘boy’ não quer mais sair do meu pé. Agora não quero segurar mais nada, quero só curtição. Mas para quem quer chamar homem ou mulher, o perfume realmente funciona”, confirma Jaqueline.

    Leia maisExtermínio: 7 mil botos são mortos na Amazônia todos os anos

    Na banquinha dela é possível encontrar o "perfume da Bota" e a versão da poção em lubrificante íntimo pelo valor de R$20. 

    As histórias relacionadas a crendice popular sobre o uso do perfume atravessam gerações. Ainda de acordo com a vendedora Jaqueline Lobo, a tradição é reflexo de um comportamento que nasceu nas comunidades do interior da Amazônia. "No interior as pessoas acreditam na Lenda do Boto. A história conta que um homem e sai da água para namorar com as meninas que ficam na beira do rio. Por isso a população passou a acreditar que usar a essência íntima da bota colabora para arrumar um parceiro, que sente o cheiro dos feromônios aplicados junto com o perfume", explica a comerciante. 

    Crime ambiental

    Em alguns locais no Centro de Manaus, onde é possível adquirir os produtos, comerciantes exibem uma composição orgânica, do que seria a genitália da bota em uma imersão de álcool e essência. O produto é manipulado a céu aberto e a substância pode ser produzida na hora, a gosto do cliente. Ao perceberem a chegada da equipe de reportagem, a maioria deles decidiu não se posicionar e alguns garantem que a ação faz apenas parte do misticismo da floresta, mas nao quiserem dar mais detalhes.

    Para evitarem a fiscalização, os comerciantes não colocam mais o nome do animal nos frascos. O "Perfume da Bota" ou "Óleo da Bota" ganham novas versões com os nomes: "Agarradinho" ou "Dama da Noite".

     

    O boto cor-de-rosa está em extinção e é natural da região amazônica
    O boto cor-de-rosa está em extinção e é natural da região amazônica | Foto: Divulgação

    Boto na lista de extinção - Pescá-lo é crime ambiental 

    Mesmo com os inúmeros relatos do poder de encantamento do produto, ambientalistas garantem que o uso desse tipo de produto é fruto da crendice popular. Eles informam que fazer uso de animais é crime ambiental, ainda mais se tratando do boto que encontra-se na lista de extinção.

    Um dos animais mais importantes do folclore amazônico, o boto cor-de-rosa, entrou para lista vermelha de animais em perigo de extinção da União Internacional para Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais  (IUCN), em dezembro do ano passado.

    O principal ‘vilão’ continua sendo a caça ilegal para a pesca da piracatinga, a captura acidental em redes de pesca e o abate para produção de produtos tidos como "mágicos".  

    A pesquisadora dos botos da Amazônia, Vera da Silva, que também é responsável pelo projeto Mamíferos Aquáticos da Amazônia, disse - na ocasião da divulgação da lista de extinção - que desde os anos 2000 as pesquisas mostram que a população de botos na região da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Mamirauá vem reduzindo drasticamente a cada década

    “A preocupação maior é a velocidade que esta espécie está sendo retirada da natureza, se isso acontece no entorno de uma reserva protegida, modelo na Amazônia, imagine em uma área sem proteção”, indagou a pesquisadora na ocasião.

     

    Espécie está reduzindo drasticamente no Amazonas
    Espécie está reduzindo drasticamente no Amazonas | Foto: Divulgação/Ampa


    Ritos

    O uso de animais em rituais de medicina popular ainda é muito comum em várias partes do mundo. Na Amazônia, o boto sofre com a crendice mística que resulta em sua caça.

    O biólogo amazonense Rodrigo Hidalgo destaca que as tradições, quase sempre sem nenhum embasamento científico, acabam colaborando para a diminuição das espécies assassinadas propositalmente.

    “Essa cultura de usar o 'perfume da Bota' para ficar sexualmente atrativo é bem mais forte no estado do Pará, mas também acontece em Manaus. Apesar de a crendice gerar um comércio, a atividade é totalmente ilegal pois a legislação de crimes ambientais proíbe a caça aos botos da Amazônia – que já são animais em extinção – e prevê multa e prisão para aos envolvidos”, ressalta Hidalgo, biólogo e mestrando em zoologia no Amazonas.

     

    Rodrigo Hidalgo é amazonense, biólogo e mestrando em zoologia no Amazonas
    Rodrigo Hidalgo é amazonense, biólogo e mestrando em zoologia no Amazonas | Foto: Reprodução/ Instagram


    Dicas para ser mais atrativo sexualmente

    Rodrigo informa ainda que, quando há intenções de parecer mais atraente para o parceiro (a), é indicado usar ervas medicinais que cientificamente comprovam o aumento da libido no organismo.

    “Existem outras formas de interação entre os seres humanos sem gerar dano e morte a esses animais. Algumas plantas da Amazônia são conhecidas como viagras naturais e são ótimas opções para quem busca estar sexualmente mais ativo”, diz o biólogo. 

    Viagra do Índio

    Entre os produtos citados pelo especialista está o viagra regional, também conhecido como ‘Viagra do Índio’. Composto por guaraná, catuaba, ginseng, mirantã e nó de cachorro, a vitamina é um misto de ervas amazônicas que proporciona mais energia, vigor e libido aos usuários.

    Em forma de pó, o viagra regional deve ser tomado uma vez ao dia e basta diluir uma colher da substância em um copo com água após o café da manhã.

    “O Viagra tem esse nome porque realmente dá uma animada no ‘cabra’, mas não serve apenas para apimentar as relações sexuais. O Viagra regional também serve para dar mais energia no dia a dia, e de quebra ajuda no tesão”, conta a vendedora Jaqueline Lobo.

    O produto pode ser comprado no Mercado Adolpho Lisboa por preços a partir de R$10.

     

    Outros produtos prometem o milagre da atração
    Outros produtos prometem o milagre da atração | Foto: Marcely Gomes


    Banhos

    Entre as poções amazônicas que fazem sucesso na banquinha de Jaqueline ainda estão os famigerados "banhos atrativos". As misturas são preparadas e vendidas em garrafas de vidro, como: o banho de patchouli, o banho de erva e ainda a água de chama. A intenção dos banhos não é só a de despertar atração sexual, mas de afastar a má sorte e atrair prosperidade na vida.

    “Os turistas adoram esses banhos e é uma das mercadorias mais vendidas aqui na banca. O ideal é tomar pelo menos três desses banhos, um a cada sexta-feira seguida. Além de atrativo sexual, ele também é ótimo para afastar mal olhado e atrair dinheiro”, garante a feirante que vende uma garrafa do preparado por R$15.

    Leia mais:

    Lendas amazônicas vivenciam cotidiano de Manaus em ilustrações

    Conheça cinco personagens do folclore amazônico

    Desmatamento na Amazônia pode estar agravando mudanças no clima






    Comentários