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    Teatro regional


    Tem produção teatral no Amazonas? Tem sim senhor!

    O cenário do teatro no Amazonas e os desafios na produção da arte

    Teatro local é referência nacional e internacional
    Teatro local é referência nacional e internacional | Foto: Divulgação

    Amazonas - Nomes como Rosa Malagueta, Taciano Soares, Ednelza Sahdo, Ana Oliveira e Francis Madson são alguns dos grandes artistas que fazem a história no teatro do Amazonas. Embora às vezes não reconhecidos, eles levam no peito o amor pela arte e fazem questão de expressar, para quem quer que seja, porquê escolheram o teatro como estilo de vida e profissão.

    Homens e mulheres que veem na arte a oportunidade de combater preconceitos, levar a reflexão, representar a alma humana por intermédio da fala, gestos, sons ou o silêncio. As demonstrações culturais espalham empatia, alegria, emoções e sempre uma mensagem final para o público.

    Surgimento do teatro feito por amazonenses

    O movimento teatral regional surge efetivamente na década de 60 com a criação dos primeiros grupos amadores, sem orientação de federação ou associação. Mesmo com o Teatro Amazonas consolidado desde 1896, não há registros de representações teatrais profissionais criadas por artistas locais antes desta data.

    As grande óperas e peças vinham de outros países. No período de grande fluxo de imigrantes na cidade, as trupes europeias faziam a arte para os barões da borracha. 

    O teatro Variedade Cômica é considerado um dos pioneiros na cidade de Manaus em termos de produção que caracterizasse algo profissional. Porém, pesquisadores como Selda Vale e Mário Ypiranga atribuem para os teatros Éden e Beneficente as primeiras manifestações na cidade.

    Segundo historiadores, os jornais Correio de Manáos e Jornal do Rio Negro eram responsáveis pelas críticas da atuação dos atores, folhetins dos lugares e apresentações, geralmente rígidos e respeitados por todos.

    Apesar de ainda tímido, o cenário atual do teatro amazonense é indicado constantemente para prêmios no Brasil (Prêmio Brasil Musical). Os espetáculos de produção local ganham espaços nas Mostras de teatro nacional e artistas do cenário amazonense são temas de livros com histórias de resistência e representatividade da Região Norte.

    O teatro Amazonas

    Parecia loucura construir um teatro tão grandioso.
    Parecia loucura construir um teatro tão grandioso. | Foto: Divulgação

    O projeto de construir um teatro de alvenaria na cidade, apresentado no ano de 1881 parecia loucura do deputado A. J. Fernandes Júnior. As obras ficaram paralisadas por um período, foi então que o governador Eduardo Ribeiro retomou a construção do majestoso Teatro Amazonas.

    A grande cúpula colorida, e impossível de não ser notar, é uma das características do patrimônio amazonense, com pelo menos 36 mil peças de cerâmicas esmaltadas e telhas vitrificadas vindas da França.

    Estilo renascentista, europeu e com todas as partes trazidas de diversos lugares do mundo, como Itália e Escócia, o teatro é diferente que qualquer construção feita no Estado ou no país.

    A primeira ópera a estrear no Amazonas foi La Gioconda, no dia 7 de janeiro de 1897 de Amilcar Ponchielli, mesmo com a construção do teatro a finalizar, a estreia foi um sucesso.

    Depois da "loucura" ser possível, ele passou a ser prestigiado por pessoas de diversos lugares do Brasil e do mundo que passam por Manaus e não podem esquecer de tirar uma foto em frente ao grandioso Teatro Amazonas.

    Espaços que promovem cultura

    Os espaços promovem cursos, workshops e oficinas com incentivo à Cultura
    Os espaços promovem cursos, workshops e oficinas com incentivo à Cultura | Foto: Reprodução

    Na cidade há espaços que disponibilizam palestras, workshops e oficinas que promovem a produção cultural na cidade.

    O Casarão de Ideias abre inscrições para atividades durante todo o ano para quem deseja aprender sobre teatro, pintura, fotografia e dança, e disponibiliza seu espaço físico com cursos gratuitos. 

    O Centro Municipal de Arte e Educação (CEMAE) Antonio Nelson Neto é um dos espaços para o público estudar teatro sem pagar nada por isso e o Sesc-AM abre anualmente cursos para atores na cidade.

    O Ateliê 23 é um dos espaços privados que através de projeto promove oficinas, exposições e espetáculos semanais abertos ao público. 

    Artistas amazonenses são destaques no Brasil e no mundo
    Artistas amazonenses são destaques no Brasil e no mundo | Foto: Reprodução

    A Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) têm turmas com artistas atuantes na produção do teatro local e enviam para o cinema nacional e internacional atores manauaras de grande talento.

    O Em Tempo ouviu os artistas de Manaus e o secretário de cultura sobre as principais necessidades para o "Espetáculo nunca acabar".

    O teatro na cidade e seus artistas

    O teatro de rua cresce significamente no Amazonas
    O teatro de rua cresce significamente no Amazonas | Foto: acervo pessoal

    A Cacompanhia e o Projeto Roda na Praça são as companhias que trabalham nesse segmento de teatro de rua e o ator amazonense Klindson Cruz fala da importância desses movimentos para a cultura regional.

    “Para falar do teatro de rua, precisamos falar do movimento em si. O teatro de rua surge da necessidade de ir ao encontro do público, de manifestar-se e expressar a arte”

    Historicamente, o teatro de rua surgiu contra a ditadura em busca da liberdade de expressão e os movimentos ganharam força com o passar dos anos.

    “A crescente produção de teatro de rua é visível no Brasil e em Manaus", relata o artista.

    Outra possibilidade é ir onde o público está, levando manifestações culturais. Deixar o artista perto dos seus telespectadores é o que movimenta a ideia.

    “Com menos pessoas indo ao teatro, por diversos motivos, o artista vai aonde o público está. Muitas das vezes, ele vai para as zonas periféricas onde há o descaso do poder público e projetos culturais é escasso. A relação que o teatro de rua oferece é um estado de nirvana, da galera ver, contemplar e se questionar".

    As dificuldades na rua e no palco

    Os artistas enfrentam problemas antes, durante e após os espetáculos, além do clima da região que interfere no teatro ao ar livre. A dificuldade de acesso aos locais públicos para as apresentações são apenas algumas das reclamações por parte dos artistas e produtores.

    O teatro de rua vai onde o público está
    O teatro de rua vai onde o público está | Foto: Acervo pessoal

    “A gente é refém principalmente do tempo da região, porque se chover a galera não comparece. Existem outros fatores como a logística para transportar os materiais cênicos que impactam no produto final. Por mais que sejam públicos, temos que pedir autorização para entrar com os equipamentos. Isso eu acho errado", Klindson Cruz. 

    O amazonense não vai ao teatro? 

    Enquanto algumas pesquisas afirmam que o amazonense está num índice baixo para o consumo cultural, os artistas comentam que os fatores que levam o público a estar ausente nos espetáculos são diversos. Entretanto, eles explicam que isso não é uma realidade fixa. O ator Klindson vê essa realidade desde quando começou a participar dos projetos.

    “Pude perceber que as pessoas não eram acostumadas com isso nos bairros. A praça era apenas um encontro para refeições ou algum esporte, mas aos poucos fomos circulando nas zonas de Manaus. Vejo sim uma crescente participação do público, mas acredito que é uma participação que precisa crescer”

    O Teatro Amazonas, além de símbolo da região, é palco de grandiosos espetáculos
    O Teatro Amazonas, além de símbolo da região, é palco de grandiosos espetáculos | Foto: Reprodução

    Falta de divulgação

    O jornalista e professor Jhonnys Moura não concorda sobre a falta de divulgação dos eventos culturais realizados na cidade. Para ele, apesar de Manaus ter um movimento intelectual e artístico variado e intenso, o amazonense não busca informação sobre o que acontece de manifestação cultural.

    “O jornalismo cultural é só de divulgação e agenda de eventos. Eu recebo todo o dia diversos releases sobre a agenda cultural da semana e do fim de semana. Nos portais da secretaria e na mídia saem diariamente as programações, as pessoas deixam de pesquisar sobre as opções porque acham que para consumi-la precisam pagar sempre"

    Incentivo público

    Os incentivos por parte do Estado e da Prefeitura do município são importantes para o teatro local. Editais regulares são disponibilizados, segundo diretor e produtor Taciano Soares. 

    “A falta de uma estratégia mais clara de ações é um problema porque a gente não consegue visualizar um grupo de ações que, de alguma forma, privilegie a continuidade do teatro. Há ações pontuais, no caso dos editais, mas não é algo estabelecido.”

    Entre esses editais de incentivo público à cultura está o disponibilizado pela Manauscult - que tem como atribuição a coordenação, planejamento, promoção e execução de políticas públicas voltadas para a área. O órgão municipal está com seleção de projetos para Lei de Incentivo à Cultura (Concultura).

    Por outro lado, atualmente, não há editais disponibilizados por parte do Governo do Amazonas. O secretário de Cultura Marcos Apolo Muniz reconhece a falta do edital, mas diz que há sim apoio das secretarias.

    O teatro tem grande volume de apresentações e com público participante, afirma o Secretário
    O teatro tem grande volume de apresentações e com público participante, afirma o Secretário | Foto: Divulgação

    “O Governo do Amazonas apoia na disponibilização dos espaços, mesmo que ainda não tenha saído o edital do Estado. A secretaria está de portas abertas.”

    Há espaços públicos e privados disponíveis para as apresentações e as informações sobre locais e as programações culturais podem ser acessadas no portal da secretaria de cultura (cultura.am.gov.br) ou  pelo aplicativo disponível no Play Store para todos os formatos.

    O aplicativo possui o calendário dos eventos em tempo real e informações dos espaços com detalhes
    O aplicativo possui o calendário dos eventos em tempo real e informações dos espaços com detalhes | Foto: Divulgação/SEC

    “O teatro no Amazonas sempre foi referência, tem volume diário de apresentações com os públicos que participam e com boa receptividade. É sempre importante ampliar e interagir com o público, claro que sempre com seus altos e baixos, principalmente com a situação econômica do País. Isso não nos impede de continuar com os trabalhos", declarou Marcos Apolo.

    Veja alguns espaços culturais disponíveis para o público em Manaus:

    Teatro Amazonas

    Funcionamento: De terça a sábado, das 9h às 17h, e aos domingos, das 9h às 14h

    Entrada: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Amazonenses não pagam

    Endereço: Av. Eduardo Ribeiro, 659 – Centro – Manaus/AM

    Teatro da Instalação

    Funcionamento: Administração: De segunda a sexta-feira, das 8h30 às 17h

    Ocupação artística: De quarta-feira a domingo, das 16h às 21h

    Endereço: Rua Frei José dos Inocentes, s/nº – Centro – Manaus/AM

    Teatro Gebes Medeiros

    Funcionamento: De terça a sábado, das 8h às 17h.

    Endereço: Avenida Eduardo Ribeiro, 937 – Centro (antigo Ideal Clube) – Manaus/AM

    Centros Culturais

    Centro Cultural Palácio do Rio Negro

    Funcionamento: De terça-feira à sábado, das 9h às 17h e, aos domingos, das 9h às 14h- Entrada Gratuita

    Endereço: Avenida Sete de Setembro, 1546- Centro- Manaus- AM

    Centro Cultural Palácio da Justiça

    Funcionamento: De terça-feira à sábado, das 9h às 17h e, aos domingos, das 9h às 14h- Entrada Gratuita

    Endereço: Avenida Eduardo Ribeiro, 901- Centro- Manaus-AM

    Centro Cultural Povos da Amazônia

    Funcionamento: De segunda-feira à sábado, das 9h às 17h- Entrada Gratuita

    Endereço: Avenida Silves, 2.222- Distrito Industrial I (antiga Bola da Suframa) – Manaus –AM

    Centro Cultural Usina Chaminé

    Funcionamento: De segunda-feira à sábado, das 9h às 17h- Entrada Gratuita

    Endereço: Avenida Manaus Moderna, s/n – Centro – Manaus-AM

    Festivais de teatro no Amazonas

    Festival Amazonas de Ópera

    Festival de Teatro do Amazonas (FTA)

    Teatro amazonense e a perda de um estrela

    Conheça a trajetória de Selma Bustamante, a eterna palhaça Kandura

    Selma Bustamante sempre foi do teatro da resistência em busca do novo
    Selma Bustamante sempre foi do teatro da resistência em busca do novo | Foto: Acervo Roda na praça

    Ao abordar o teatro do Amazonas, não poderíamos deixar de falar de uma das maiores perdas desta arte no Estado neste ano. A atriz, palhaça e professora Sandra Bustamante era uma profissional dedicada ao riso, ao teatro de rua, às artes cênicas amazonense e incentivadora do circo. 

    Paulista, Selma Bustamante nasceu em 1◦ de outubro de 1955, mas nunca negou que seu coração já era amazonense. Ela dedicou 23 anos ao teatro local e morreu vítima de um câncer no último dia 5 de março.

    Início da carreira

    No teatro experimental, em meio à repressão da ditadura, Selma viu uma oportunidade de fazer o que mais gostava. Mesmo nas dificuldades da época, trabalhou de forma independente, longe da visão do governo e onde estava o seu público: nas ruas da cidade. Este era o local onde ela mais gostava de estar.

    Na companhia Ventoforte iniciou os trabalhos voltados para o público infanto-juvenil e buscava aliar os projetos da companhia com os estudos do curso de Artes Cênicas na Universidade de São Paulo (USP).

    Após a formação, ela foi para o Nordeste em busca de novas oportunidades. Selma fazia projetos com o teatro, mas trabalhava paralelamente na direção executiva de um programa televisivo. No ano de 2003, ela foi homenageada com honra no maior evento do teatro da região Norte: o Festival de Teatro da Amazônia. Selma foi premiada como melhor atriz no espetáculo “Beckett Sem Palavras”.

    Ao saberem da notícia do falecimento, amigos, admiradores e profissionais da área deixaram suas homenagens nas redes sociais. Eles agradeceram os ensinamentos compartilhados e a entrega da artista ao teatro local.

    Klindson Cruz relembra a participação da atriz em sua carreira.

    Selma descobriu o Pingo e me incentivou a continuar no teatro de rua, diz Klindson
    Selma descobriu o Pingo e me incentivou a continuar no teatro de rua, diz Klindson | Foto: Acervo pessoal

     "Foi ela e o Jean Paladino que descobriram o palhaço Pingo (minha outra versão). Selma sempre estava viva para o teatro e para o seu trabalho como atriz. Eu falo de Selma com saudade no coração e feliz por ter conhecido e ter convivido com ela".

    O jornalista César Nogueira produziu com a atriz o documentário Purãga Pesika, que visibilizava o projeto “Escambo sem palavras” nas comunidades altas do Rio Negro. Ele diz como foi trabalhar em parceria com Selma.

    “Ela era tagarela, intensa e profunda. Gostava de discutir o teatro da Amazonas, rediscutir, pensar em projetos, se inteirar do que estava sendo produzido. ”
    “Ela era tagarela, intensa e profunda. Gostava de discutir o teatro da Amazonas, rediscutir, pensar em projetos, se inteirar do que estava sendo produzido. ” | Foto: Acervo pessoal

    “Foi muito enriquecedor porque ela tinha uma sensibilidade e uma capacidade de observação muito grande. Ela falava muito, e eu penso muito em cada palavra. Esse encontro de temperamentos distintos me fez crescer como artista e como ser humano. Dessa troca intensa nos tornamos amigos”.

    O objetivo do projeto, além de levar o teatro aos lugares onde os espetáculos não costumam chegar, também formou uma nova geração de palhaços.

    Selma sempre queria levar a Kandura nos lugares mais difíceis, relembra Cesar
    Selma sempre queria levar a Kandura nos lugares mais difíceis, relembra Cesar | Foto: Cesar Nogueira

    Através da arte, Selma deixou seu legado ao teatro e para as próximas gerações.

    "Eu vi que podia mudar a vida das pessoas por meio do teatro" Selma Bustamante

    Relembre a entrevista feita pelo Em Tempo com a atriz meses antes do falecimento dela: 

    Reportagem feita com a artista meses antes do seu falecimento (Repórter João Gomes) | Autor: Ítala Lima

    Outra grande perda ao teatro ocorreu no último dia 9 de maio. O ator, diretor, professor e produtor cultural Luiz Vitalli, 60, figura importante para o teatro e cinema do Amazonas, morreu após sofrer uma parada cardíaca no Hospital e Pronto-Socorro 28 de Agosto. Artistas e autoridades lamentaram a perda.

    Edição: Bruna Souza

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