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    Lutheria


    Luthiers fabricam instrumentos musicais a partir de material amazônico

    Conheça as histórias dos artesãos amazonenses que produzem instrumentos musicais para o mundo inteiro

    No Amazonas temos profissionais tão capacitados que até exportam suas criações. | Foto: Lucas Silva

    Manaus - Uma sala cheia de pedaços de madeira e bastante poeira. Não se engane, este é o ateliê de um artesão um pouco diferente: o luthier. Lutheria é a profissão de quem faz a produção artesanal de instrumentos musicais de corda com caixa de ressonância, como violão, violinos, guitarras e muitos outros. 

    Apesar de não ser uma profissão muito popular, no Amazonas temos profissionais tão capacitados que até exportam suas criações. 

    A paixão que o luthier Márcio Costa tem pelos instrumentos começou ainda criança. “Com 14 anos eu já tocava na noite. O que me levou para a lutheria foi a procura por bons instrumentos”, conta.

    Hoje, com 42 anos de idade e 16 só de profissão, o músico produz em seu ateliê, violões e cavaquinhos. Ele não é muito de catalogar, mas já foram bem mais de 50 peças criadas com exclusividade para os clientes. Alguns destes bem especiais, como um para a Espanha. 

    O início da carreira de Márcio foi na Oficina Escola de Lutheria da Amazônia (Oela), projeto social que  surgiu em 1998, fundado por Rubens Gomes. Márcio dava aulas de música na Oela em troca do curso de lutheria.

    A escola é pioneira no ensino e referência em nível mundial no uso de madeiras amazônicas. Seus instrumentos são produzidos com madeiras certificadas de cadeia de custódia (CoC) FSC - atestado de rastreabilidade desde a produção da matéria-prima que sai das florestas até chegar ao consumidor final. 

    Matéria-prima 

    Cedro, macacaúba e timborana são algumas das madeiras regionais utilizadas na lutheria.
    Cedro, macacaúba e timborana são algumas das madeiras regionais utilizadas na lutheria. | Foto: Lucas Silva

    “Para construir os instrumentos eu uso madeiras da região e madeiras internacionais, como os grandes construtores do mundo inteiro”, relata Márcio. Cedro, pau-rainha, macacaúba,  timborana e coração de negro são algumas das madeiras que ganham vida em seu ateliê. 

    Um dos grandes desafios é encontrar fornecedores de manejo que disponham de madeira legal. Apesar disso, Márcio não se intimida. “Algumas vezes eu encontro no meio da rua uma janela, uma porta, uma gaveta, um guarda-roupa e reaproveito”, compartilha.

    As madeiras regionais nem sempre são a preferência. O luthier Zivan Queiroz é especialista em violões clássicos. Neste instrumento, as madeiras tradicionais como o abeto alemão e o jacarandá da índia fazem toda a diferença.

    Identidade

    Cada artista deixa sua marca. Na lutheria não é diferente. O luthier identifica seu instrumento aderindo a um design específico, seja no formato do instrumento ou no braço, parte em que as cordas se estendem e o músico pressiona para tocar e formar as notas. 

    Márcio optou por fazer uma homenagem ao primeiro violão criado no mundo. Sua marca se inspira nesta criação, com pequenas alterações. “Eu quis preservar a identidade do primeiro instrumento que foi formado com esta característica. O formato da mão é bem parecido com o primeiro violão que foi feito. Fiz pequenas alterações para saber que é meu, que tem minha marca”, diz. 

    Horas de trabalho

    Márcio dedica 10 horas por dia para a lutheria.
    Márcio dedica 10 horas por dia para a lutheria. | Foto: Lucas Silva

    A lutheria exige do artesão muita dedicação. Márcio trabalha em seu ateliê aproximadamente 10 horas diárias. Dos 35 anos de Zivan, 20 foram dedicados à lutheria. Das suas 24 horas, de 12 a 14 também são dedicadas a esta função. A paixão surgiu quando ainda tinha 12 anos e sonhava em ser um concertista. Decidiu aprender o ofício a fim de construir seu próprio instrumento, embora tenha descoberto que não tem aptidão para a música. 

    Mesmo com uma jornada tão longa, há quem seja realmente apaixonado por isso. Eduardo Oliveira de Lima, 38, relata que só não trabalha 24 horas por dia porque precisa dormir. No início de carreira, chegava a trabalhar até a madrugada, hábito que mantém até hoje. Para ele, é uma questão de dom, criatividade. “Tem que realmente amar e ter muita paciência”, explica. 

    “A lutheria mudou minha vida. Eu tenho minha casa, carro e sitio graças a este trabalho”, conta. Eduardo também tem orgulho em poder empregar dois caseiros e um funcionário que o ajuda no ateliê. Para ele, é uma questão de saber administrar as finanças. 

    O início de Eduardo nesta profissão foi bem interessante. Músico autodidata, começou a tocar aos 12 anos na Igreja Assembléia de Deus. Na época, morava no interior do Pará e teve que esperar a oportunidade de ter um instrumento. 

    Seu vizinho tinha um violão e sempre que o sobrinho saía para beber, levava o violão. Cansado desta situação, o vizinho deixou o violão na casa onde Eduardo morava, aos cuidados do seu padrasto. Foi aí quando começou a arranhar suas primeiras notas. 

    Ele observou que o instrumento não era difícil de ser construído. Este mesmo violão caiu, e ele teve que consertar com ajuda do padrasto, que era marceneiro. Pouco tempo mais tarde, o violão voltou para o dono, mas o tal sobrinho, bêbado, quebrou o instrumento de uma forma que achavam não ter jeito. Assim, Eduardo acabou ganhando o violão quebrado de presente.  

    As longas jornadas de trabalho têm explicação. A média de tempo para que um único instrumento fique pronto é de 60 a 120 dias. Tanto esforço tem recompensa. Além da alegria de ver o instrumento pronto e ter o reconhecimento do seu trabalho, uma peça exclusiva como esta pode sair bem cara.

    Para ter um cavaquinho, por exemplo, você pode desembolsar de R$ 900 até R$ 1,9 mil. Já um violão, de R$ 2,8 mil até R$ 4,5 mil. Estes são apenas valores-base, a personalização pode levar a preços muito maiores.  

    Capacitação

    Em Manaus, a Oela é a pioneira no ensino desta arte.
    Em Manaus, a Oela é a pioneira no ensino desta arte. | Foto: Lucas Silva

    Zivan investiu em cursos no Rio de Janeiro, Espírito Santo e até na Suíça. Famoso por seus violões clássicos, guitarras e contrabaixos, o artesão tem atualmente um público fora do Estado. Seus principais clientes são de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Curitiba.

    Eduardo se arriscou em São Paulo, na Luthieria Brasil. Ele conta que não foram fáceis os dois meses que esteve na cidade. Tinha que trabalhar para pagar o aluguel e o curso, mas às vezes não sobrava o que comer e acabou voltando para Manaus.

    Oela já formou mais de 2,3 mil alunos

    Não precisa ir muito longe para aprender esta arte. A Oficina Escola de Lutheria da Amazônia (Oela) já formou mais de 2,3 mil alunos por meio de parcerias como Petrobras, Coca-Cola e Cetam. Hoje, o espaço oferece ações de educação e sustentabilidade envolvendo instrumentos musicais. 

    Gean Dantas, 41, é um dos professores da instituição. Diferente da maioria, o luthier não é músico. Dantas trabalhava com marcenaria e ficou interessado no curso por conta de um anúncio na TV. 

    Naquela época, o curso da Oela era para jovens até 17 anos e Gean tinha 19 e insistiu para ser aceito como aluno especial. Ele retribui este favor dando oportunidade para quatro alunos de 35 a 40 anos, que assistem suas aulas em turmas de 18 a 30 anos. 

    Além de ser professor, Gean também tem uma lojinha de onde saem em média de 15 a 20 instrumentos por ano, atendendo músicos do Rio de Janeiro, Bahia, Estados Unidos e Alemanha. 

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