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    Música Amazônica


    Bioinstrumentos: sons da floresta são transformados em música no AM

    Instrumentos são produzidos a partir de resíduos da floresta, como cuias, folhas e sementes

    Artista amazonense cria instrumentos com matéria-prima da floresta | Foto: Leonardo Mota

    Manaus - O barulho da chuva. O coaxar de um sapo. O vento passando pelas folhas da árvore. A buzina de uma embarcação. Esses e outros sons que fazem parte da realidade amazônica são reproduzidos por meio de instrumentos criados com elementos da natureza, como folhas, sementes e cuias. Nascidos da mão do poeta e músico Celdo Braga, os bioinstrumentos têm uma sonoridade única, com a cara e o som da Amazônia.

    Os bioinstrumentos reproduzem os sons da Amazônia
    Os bioinstrumentos reproduzem os sons da Amazônia | Foto: Leonardo Mota

    Com uma longa trajetória artística marcada pela valorização da cultura regional, Celdo explica que a função dos bioinstrumentos é conectar o homem amazônico com as coisas da região. “A gente passou a vida inteira tocando a música e os instrumentos dos outros. O bioinstrumento cria essa conexão com os pertences naturais”, diz. 

    “A intenção é disseminar o conhecimento e valorização das coisas feitas por nós, que tenham a sonoridade amazônica, para que Manaus e o Amazonas tenham seus próprios instrumentos”, completa.

    Nas mãos de Celdo, resíduos da floresta viram instrumentos de percussão
    Nas mãos de Celdo, resíduos da floresta viram instrumentos de percussão | Foto: Leonardo Mota

    Fabricando sons

    Celdo já usava instrumentos construídos com objetos da floresta no grupo Raízes Caboclas, do qual fez parte por 25 anos. Um deles era o aruré-ê, de origem ticuna. O uso de instrumentos amazônicos continuou durante a passagem pelo grupo Imbaúba, onde ficou por 10 anos. Foi só no grupo Gaponga que a confecção dos bioinstrumentos virou realidade. Isso porque, entre as propostas do conjunto, está a criação de música orgânica, feita com qualquer objeto que produza som. A criação de instrumentos foi uma alternativa criativa para captar recursos financeiros para o grupo.

    O grupo Gaponga
    O grupo Gaponga | Foto: Leonardo Mota

    “Os bioinstrumentos são feitos com matéria orgânica da própria floresta, ligado a vida. É diferente de pegar um instrumento feito de ferro, borracha, por exemplo”, esclarece Celdo.

    Os materiais usados para confeccionar os bioinstrumentos são vários: folhas, caroços de tucumã e açaí, cuias, palhas de inajá, sementes de aru, tubos de papelão, feixes de faveira, cerâmica, pedaços de madeira. Por retirar resíduos da floresta, o custo de produção dos objetos é quase nulo. Os sons produzidos são ainda maiores e surpreendentes, desde o canto do tucano até o coaxar da perereca e um bando de periquitos. 

    O tempo de concepção, projeto e fabricação de cada instrumento varia, diz Celso. Como se trata de um processo criativo, há muita experimentação até se chegar num artefato que produza o som desejado. Uma das grandes inspirações de Celdo é a cuieira que tem em casa, de onde já extraiu material para diversos aparelhos musicais. Ao todo, o grupo Gaponga já produziu 50 bioinstrumentos. 

    Cuias são a matéria-prima mais utilizada na construção dos bioinstrumentos
    Cuias são a matéria-prima mais utilizada na construção dos bioinstrumentos | Foto: Leonardo Mota

    “Cada instrumento é surpreendente. São instrumentos que são criados, outros adaptados. Pegamos o princípio e transformamos numa realidade da nossa matéria prima”, relata Celdo. Um dos exemplos é o tambor, geralmente feito com pele animal ou sintética, que foi adaptado para madeira e 'dá um som lindo', nas palavras do músico.

    Repercussão

    Com um ano e meio de existência, o projeto de bioinstrumentos já trouxe frutos valiosos. Entre eles está o curso de percussão amazônica do Liceu de Artes e Ofícios Claudio Santoro, que usa exclusivamente os instrumentos da natureza.

    O Gaponga também realiza oficinas para confecção de bioinstrumentos. Durante as aulas, os alunos aprendem a gostar e valorizar a cultura regional, preparam-se para o mercado artístico e ainda podem gerar renda com a venda da produção dos instrumentos. 

    Mas as oficinas estão longe de ser apenas técnicas. “Tem toda uma fundamentação de como olhar para as coisas da natureza. Você passa pela rua e não conhece as árvores, nunca se interessou. Mas elas existem e têm um significado. O primeiro passo é fazer uma conexão com aquilo que nos representa culturalmente. Daí vem a parte prática”, informa Celdo. 

    Celdo criou pelo menos 30 dos 50 bioinstrumentos do Gaponga
    Celdo criou pelo menos 30 dos 50 bioinstrumentos do Gaponga | Foto: Leonardo Mota

    Atualmente, há uma oficina do Gaponga em funcionamento na Fundação Universidade Aberta da Terceira Idade (Funati), no bairro Santo Antônio, Zona Oeste da cidade.

    Com os sons únicos produzidos pelos bioinstrumentos, o Gaponga está em processo de criação de um ritmo musical puramente amazônico. A base veio do estudo do sapo kambô. “Nós gravamos o parafraseado do sapo, fizemos o estudo da rítmica e vamos apresentar a música junto com a Orquestra de Câmara do Amazonas”, revela Celdo. A apresentação será no dia 6, no Teatro Amazonas.

    “Tenho certeza que, a partir desse projeto, o Amazonas vai se notabilizar. Somos o único estado do país que tem esse projeto de bioinstrumentos. A medida que isso formar uma nova geração, vai chegar um momento, daqui a 10 anos, que teremos um corpo de representatividade significativo a ponto de referenciar o Estado como protagonista de um movimento musical sem precedentes que valoriza a floresta”, sonha o artista

    Alguns dos bioinstrumentos criados por Celdo
    Alguns dos bioinstrumentos criados por Celdo | Foto: Leonardo Mota

    Alguns instrumentos

    Buzina de cuia: feito com uma meia cuia, com uma lâmina de látex cobrindo completamente a abertura. O som produzido é da buzina de um barco. 

    Cuia de chuva circular: baseado no pau de chuva dos saterê-mawé, produz o som de chuva ao girar a cuia de forma circular e ininterrupta. 

    Fava maraca: maraca natural feita com frutos desse tipo de faveira, dispostos em feixe.

    Saporeca: cuia inteira com quatro aberturas redondas e um balão inflado dentro. Para executar, molha-se o dedo e esfrega-se a superfície da borracha. Produz o coaxar do sapo e/ou perereca.

    A 'saporeca' reproduz o coaxar de sapos e pererecas
    A 'saporeca' reproduz o coaxar de sapos e pererecas | Foto: Leonardo Mota

    Tambor de vara: feito com tubo de papelão com tampo de madeira, encaixado no centro e uma meia cuia que funciona como caixa de ressonância.

    Xeque peito de moça: com a forma de seios femininos, o instrumento é feito com a ponta de uma cuia comprida, miçangas e tampo de madeira. A parte interna é seccionada com palha de inajá. 

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