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    Literatura brasileira


    Conheça Maria Firmina dos Reis, primeira escritora negra do Brasil

    Retratada com uma mulher branca por décadas, Maria Firmina dos Reis carrega um importante legado na literatura brasileira

    | Foto: Arte por Desirée Souza

    Por quase um século, a imagem de Maria Firmina dos Reis (1822-1917), hoje reconhecida como a primeira escritora negra do Brasil, foi retratada como uma mulher branca de nariz e lábios finos, cabelos lisos e longe da aparência negra que ela realmente possuía.

    Pioneira da literatura antiescravista no país, a falta de uma representação fiel à imagem da escritora escondeu por décadas a importância histórica que ela carrega.

    Maria Firmina é autora da obra "Úrsula’’ (1859), primeiro romance afro-brasileiro que se posiciona explicitamente contra a escravidão, antecedendo obras como O Navio Negreiro (1870) e A Escrava Isaura (1875).

    "Ou seja, uma mulher negra e livre teve a coragem de denunciar os horrores da escravidão num romance onde os personagens negros são humanizados, têm voz própria e são a referência moral da narrativa’’, revelou Ana dos Santos, especialista em História e Cultura Afro-Brasileira.

    Imagem da obra vencedora de um concurso realizado pela Flup (Festa Literária das Periferias) para recriar o rosto de Maria Firmina dos Reis
    Imagem da obra vencedora de um concurso realizado pela Flup (Festa Literária das Periferias) para recriar o rosto de Maria Firmina dos Reis | Foto: João Gabriel dos Santos Araújo/Reprodução

    O livro integra o período do Romantismo no Brasil, e pouco também é conhecido sobre a vida pessoal da autora, além de ser filha de uma escrava alforriada e de um pai negro. Sabe-se também que ela virou órfã e morou com uma tia, onde teve a oportunidade de estudar, algo raro para mulheres negras no período.

    Representatividade

    Segundo dados levantados pelo Centro de Pesquisa da Universidade de Brasília (UnB), 70% dos livros publicados entre 1965 e 2014 eram de homens. Destes, 90% eram de homens brancos, de classe média alta, nascidos no eixo Rio-São Paulo.

    Em 2015, a especialista e professora Ana dos Santos iniciou uma pesquisa sobre escritoras negras no Brasil para apresentar nas salas de aula, com o objetivo de preencher uma lacuna da literatura brasileira, constituída majoritariamente por escritores do sexo masculino.

    "Eu mesma conhecia poucas escritoras negras. Sendo uma escritora negra, a minha pesquisa também tinha um interesse pessoal em conhecer minhas predecessoras’’, afirmou a especialista.

    Pintura recria a imagem verdadeira de Maria Firmina dos Reis
    Pintura recria a imagem verdadeira de Maria Firmina dos Reis | Foto: André Valente/BBC

    Foi através dessa pesquisa que Ana dos Santos tomou conhecimento da existência de Maria Firmina dos Reis e outras escritoras negras, como Carolina de Jesus.

    O romance "Úrsula’’, de Firmina, ganhou espaço nas aulas de Ana dos Santos, e a entrada da escritora no currículo escolar alterou o estudo do período do Romantismo no Brasil. 

    "É uma obra que narra como era a vida na África, que retrata a personagem principal, Suzana, vivendo feliz com a família, com trabalho e liberdade. Ela conta do sequestro e da passagem no navio negreiro para a página vergonhosa da escravidão no Brasil’’, conta a especialista.

    Escravidão

    "

    A história do negro foi interrompida pela escravidão, como dizem nossos ancestrais "

    Ana dos Santos, especialista em História e Cultura Afro-Brasileira

    Com uma narrativa descolonial, Maria Firmina dos Reis escreveu um romance aos moldes românticos da época, tendo a natureza como cenário, o casal romântico formado pelo mocinho e mocinha brancos - no ideal esperado da época-, com uma linguagem rebuscada e cheia de adjetivos no português do século XIX.

    Como Maria Firmina, Ana dos Santos também é uma escritora negra
    Como Maria Firmina, Ana dos Santos também é uma escritora negra | Foto: Arquivo pessoal

    O contexto sócio histórico da escravidão, que até então não havia sido abordado pela visão do negro, é a contribuição de Maria Firmina dos Reis para a Literatura Brasileira, defende Ana dos Santos, e o estudo do romance nas escolas mostra que a história da população negra começa na África, com uma vida digna e liberdade.

    "Os alunos aprendem, desde cedo, que nenhum negro se deixou escravizar. As torturas e castigos físicos aos quais os negros foram submetidos não puderam aprisionar suas almas, como demonstra o personagem Túlio de ‘Úrsula’, em seus atos de heroísmo e fraternidade’’, ressalta a especialista.

    Reconhecimento

    Em um contexto desfavorável para a mulher negra, as publicações de Maria Firmina marcantes, e mesmo assim, foram invisibilizadas com o tempo e desconhecidas pelo público brasileiro. Ana dos Santos expõe que a falta de reconhecimento da escritora pioneira do gênero antiescravista é explicada pelo racismo.

    "Por que o romance não teve divulgação? Por que as livrarias não venderam? Por que não se escreveu sobre ele nos jornais? Por causa do racismo! O racismo é o legado da escravidão que invisibiliza todas nós, mulheres negras’’, criticou.

    "O que se esperava de uma mulher negra na época? Que continuasse na subalternidade, servindo aos brancos. Não se esperava uma mulher negra alfabetizada, com estudo’’, explicou Ana dos Santos.

    Comparando com os outros romances da época que tiveram mais reconhecimento, a especialista ressalta que ocultar a figura de Maria Firmina dos Reis e colocar a imagem de uma mulher branca no lugar, pode ter sido uma escolha.

    Ana dos Santos advoga pelo reconhecimento de escritoras negras
    Ana dos Santos advoga pelo reconhecimento de escritoras negras | Foto: Arquivo pessoal

    "Pois assim, nenhuma mulher negra se imaginaria nesse papel de intelectual, nesse lugar de fala, nessa escrita divergente que ousou denunciar uma sociedade injusta e criminosa’’, reconheceu.

    "Se não nos incomodarmos com a tardia aparição de escritoras como Conceição Evaristo, Míriam Alves, e tantas outras mulheres negras, vamos continuar com esse ciclo de silenciamento, invisibilidade e apagamento", acrescentou.

    "

    Chegou a hora do Brasil conhecer sua história completa e verdadeira, sem omissões, e a mulher negra não pode estar de fora "

    Ana dos Santos, especialista em História e Cultura Afro-Brasileira

    Ana dos Santos

    Ana Paula Freitas dos Santos é professora de Literatura Brasileira e autora dos livros "Flor" e "Poerotisa". Atualmente, ministra a oficina de escrita criativa "Mulher Negra, Meu Corpo, Minha Voz", onde apresenta cerca de 40 escritoras negras brasileiras.

    Ana dos Santos carrega a obra ''Poerotisa''
    Ana dos Santos carrega a obra ''Poerotisa'' | Foto: Arquivo pessoal

    Especialista em História e Cultura Afro-brasileira e mestranda em Estudos Literários/UFRGS, integra o catálogo "Intelectuais Negras Visíveis" (UFRJ/Editora Malê) e ocupa a cadeira 100 da Academia de Letras do Brasil/RS.

    Foi na internet, em páginas de Literatura Negra, que conheceu Carolina de Jesus, a primeira escritora negra que levou para as classes e teve excelente repercussão entre os alunos.

    Por conta dessa pesquisa, a especialista realizou duas especializações sobre a lei 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira em todas as escolas, públicas e particulares, do ensino fundamental até o ensino médio.

    A pesquisa ganhou força em 2018, quando a Universidade Federal do Rio Grande do Sul colocou "Quarto de despejo: diário de uma favelada" de Carolina Maria de Jesus na lista das Leituras Obrigatórias do vestibular.

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