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    Confira a entrevista com Regis Myrupu, premiado ator de ‘A Febre’

    Um ano após ganhar o prêmio de Melhor Ator no Festival de Locarno, Regis Myrupu se concentra na cultura indígena, mas não dispensa retornar às telonas

    Regis Myrupu ganhou premiação de Melhor Ator no Festival de Locarno
    Regis Myrupu ganhou premiação de Melhor Ator no Festival de Locarno | Foto: Divulgação

    Manaus – RRegis Myrupu, nascido em Pari-Cachoeira, comunidade indígena no Alto Rio Negro, próxima à fronteira da Colômbia, realizou um momento histórico ao vencer o prêmio de Melhor Ator na 72° edição do Festival de Locarno, na Suíça.

    Xamã do povo Desana, a estreia dele no cinema como ‘’Justino’’, no filme ‘’A Febre’’’, dirigido por Maya Da-Rin e gravada em Manaus em 2018, marcou não só o potencial do cinema amazonense, como transmitiu uma forte mensagem sobre o protagonismo indígena.

    Um ano após a premiação internacional em Locarno, além do reconhecimento no circuito audiovisual europeu, o sucesso do filme permanece, e a estrela de ‘’A Febre’’ continua com o mesmo objetivo ao gravar o longa-metragem: valorizar a cultura indígena.

    Em entrevista ao EM TEMPO, Regis Myrupu compartilhou um pouco sobre a visão dele na produção, a experiência com o cinema, e os passos que ele tomou após esse momento.

    Regis Myrupu, a estrela de ''A Febre''
    Regis Myrupu, a estrela de ''A Febre'' | Foto: Divulgação

    EM TEMPO: O que você acredita ser a ‘’A Febre’’ de Justino? E o que você interpreta com a aparição constante da criatura estranha?

    Regis Myrupu:  Nós, indígenas, somos muito ligados ao mundo visível e ao invisível. Na minha interpretação, quando o Justino saiu da aldeia e foi morar no meio urbano, com pessoas novas, uma rotina nova, com tudo novo, ele criou uma tensão dentro dele, que foi crescendo com o tempo. Pois começa assim, vem de dentro e vai para fora. Como ele é ligado muito à espiritualidade, quando ele vai para a cidade, ele sente falta do ritmo da aldeia, dos relacionamentos que ele tinha, o que é algo que ele não encontra na cidade, então ele fica doente, uma doença que não é algo natural, é uma febre que começou dentro dele.

    Mas ele já está inserido naquele sistema urbano, foi se adaptando, e a doença começa a abalar o desempenho dele no trabalho, então se ele perder o emprego, pode mudar tudo novamente, e gera uma tensão maior. No momento que o irmão dele visita à cidade, faz ele relembrar do que vivia antes, e cria um desejo dentro dele. No final, depois de 20 anos longe de onde veio, ele cria forças para voltar para a aldeia.

    ET: Como foi para você, essa experiência de estreia no cinema? É algo em que você pretende investir daqui para frente?

    RM: Eu sou um sucessor, um guardião do conhecimento da minha cultura, da medicina do povo Desana. Há toda uma cosmetologia, o saber da terra, e a medicina é apenas uma parte. A nossa base é guardar essa cultura indígena, algo que herdei do meu pai, que herdou do meu avô, então o meu compromisso é levar isso para frente. Nesse tempo, chegou a oportunidade do filme, algo que nunca pensei que fosse acontecer. Foi algo novo, que vai ficar marcado para sempre, mas vou deixar em aberto. Se aparecer outra oportunidade, que transmita uma mensagem boa, um conteúdo útil, com profundidade, participarei novamente, mas vou deixar em aberto. O meu compromisso é com meu povo.

    Cena de ''A Febre''
    Cena de ''A Febre'' | Foto: Divulgação

    ET: Inicialmente, você teve receio de participar de ‘’A Febre’’, ou foi um projeto em que você ‘’se jogou de cabeça’’?

    RM:  Eu nunca pensei em participar em uma experiência como essa e nunca procurei. Sempre fui um admirador do audiovisual, do cinema, da TV, era algo que eu admirava de longe. Quando a equipe do filme chegou na aldeia e me falou sobre o filme, o roteiro, a característica que me falaram era de uma pessoa mais velha e até me perguntaram: ‘’você conhece alguém que se encaixe nesse perfil, com uns 50 anos?’’.

    Na época eu tinha 37, então não criei expectativa, minha esposa até falou ‘’se não fosse pela idade, seria você’’. Mesmo assim, a diretora pegou meu contato, conversamos um pouco, e eu pensei assim, se me escolhessem, seria legal, mas se não me escolherem, tudo bem. A Maya, a diretora, entrou em contato depois, com boas notícias, e pedindo para eu dar uma olhada no roteiro. O que ela escreveu, foi bem amplo, então como o ator seria do povo Desana, teria que adaptar para os costumes do povo Desana. Reescrevemos uma parte do roteiro juntos, ela pediu essa colaboração, e sentamos juntos para reescrever. Minha missão foi exatamente essa, levar nosso costume para outros espaços.

    ET: O que significou para você ganhar o prêmio de Melhor Ator do Festival de Locarno? E qual foi a emoção ao ver todo o circuito de festivais e premiações que o filme percorreu?

    RM: A emoção de poder se reconhecido, particularmente, foi uma grande satisfação, ver que consegui transmitir minha mensagem, foi uma felicidade particular. Mas minha felicidade maior foi receber esse prêmio como indígena, pois não estava só eu naquele palco, eu não estava sozinho, eu estava lá representando todos os povos indígenas, mostrando que os indígenas também têm uma voz, algo a colaborar, a passar, a mostrar, a transmitir, e falar isso para o mundo ouvir. Minha felicidade foi essa, é um presente que dentro de mim, e é uma felicidade que vai permanecer por muito tempo.

    ''A Febre'' recebeu diversas premiações
    ''A Febre'' recebeu diversas premiações | Foto: Divulgação

    ET: Como está sendo o momento atual? Com o sucesso do filme, o que mudou na sua vida?

    RM: Na realidade, não mudou nada. Eu continuo fazendo o que eu já fazia antes do filme. Eu não me sinto famoso, e acredito que a pessoa não vive de fama, a pessoa vive daquilo que vem do trabalho, não adianta ser famoso. Vale a pena sentir que as pessoas te conhecem, sim, e é bom ver os espaços por onde eu já passei, mas minha vida é na floresta. A minha rotina, com minha família, é na floresta, mas de três em três meses eu viajo para a Itália, faço conferências, e as pessoas me procuram, querem ouvir quem vive na floresta. E quem não consegue resultados da medicina convencional, recorre a mim, à medicina indígena, que não provém de nenhum diploma, não precisa de nenhum papel. O meu momento agora é nessa ponte Itália-floresta. E não muda nada, com pandemia ou sem pandemia, o meu ritmo é esse.

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