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    Arte indígena


    Uýra Sodoma leva arte indígena da Amazônia para a América

    Sendo a única artista brasileira na exposição internacional, Uýra Sodoma levou duas fotoperformances para a "Arboreal"

     

    | Foto: Hick Duarte

    “Temos muito a reaprender com as florestas e suas vidas para guiarmos bem os rumos da Terra”, é o que defende o biólogo e artista visual indígena contemporâneo Emerson Pontes. Essa também é a mensagem que ele leva à exposição internacional Arboreal, que ocorre em São Francisco, cidade na Califórnia, nos Estados Unidos da América, até o dia 26 de junho.

    Único participante brasileiro da exposição internacional, apresenta duas fotoperformances: A Mata Te/Se Come, com fotografia por Lisa Hermes, e Terra Pelada, com fotografia por Matheus Belém. Ambas serão performadas por Uýra Sodoma, entidade da floresta vivida por Emerson.

    “Recebi o convite para participar de ‘Arboreal’ através da curadora Juana Bérrio, que buscava artistas com diferentes linguagens e poéticas, que expressam a vida das florestas e suas relações com o resto do planeta. São artistas que trabalham com a pintura, com a bioacústica, esculturas... Em meu caso, literalmente me transformo numa árvore, híbrida de gente e planta, e esta peça, segundo a curadora, tornou-se importante na composição geral”, disse.

    A exposição “Arboreal” surgiu com a premissa de pensar as relações humanas com as florestas e com o planeta. Para executar essa ideia, artistas da Colômbia, do Chile e dos próprios Estados Unidos foram convidados a participar, além de Emerson Pontes.

     

    | Foto: Lisa Hemes

    “A preservação das florestas a nível político e a reflexão de suas realidades e relações no mundo a nível artístico, são de corresponsabilidade mundial. Todo o planeta pode e precisa se engajar na manutenção das florestas vivas. ‘Arboreal’ reúne artistas das Américas, territórios atravessados por muitas paisagens e realidades de muitos tipos de florestas e povos. Acho muito potente este conjunto de fala e expressões”, argumentou o artista que reside em Manaus, e se tornou conhecido na capital amazonense pelas obras que trazem uma reflexão sobre a natureza.

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    Habitamos um tempo que está distante de suas origens naturais, que são as florestas, e isto nos tem custado caro, pois a vida não pode ser compreendida apenas sob a ótica humana, antropocêntrica, capitalista e colonial, mas sim a nível ecossistêmico, onde todos os sistemas vivos são importantes e considerados como oportunidades de co-aprendizado "

    Emerson Pontes, biólogo e artista indígena

     

    A Mata Te/Se Come

    Uma das fotoperformances apresentada por Emerson Pontes foi produzida na floresta do Museu da Amazônia, em Manaus. Segundo o artista, a obra emergiu em um processo íntimo com a natureza, refletindo a geração e a decomposição da vida. “Nem sequer uma, das incontáveis folhas sobre o solo, deixa de ser importante para o funcionamento de Vovó floresta”, explicou sobre a composição da arte.

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    Sentada, enquanto por transferência, colava folhas e sementes no meu rosto, pude sentir que a cada fração de segundos, Morte e Vida se encontram na floresta, em ciclo, com nobreza, ao seu tempo. Quantas vezes não comemos de nós mesmas para seguir? Vovó, ao comer de si própria, nos relembra a potência de nossas próprias forças internas, que sempre podem se renovar, individualmente, mas conectadas ao resto dos mundos "

    Emerson Pontes, introdução da arte “A Mata Te/Se Come”

     

    Terra Pelada

    A inspiração para a segunda fotoperformance que o artista indígena levou para os Estados Unidos surgiu em um encontro com o pajé Davi Kopenawa, em 2018. Enquanto explicava sobre o desmatamento provocado pelo garimpo na do povo Yanomami, o líder indígena afirmou que “quando se desmata, a terra fica pelada”.

     

    | Foto: Matheus Belém

    “Nesta época, eu já pesquisava processos e curvas do desmatamento anual na Amazônia. Justamente neste ano e no próximo que viria, houve aumentos recordes do século no desmatamento da Amazônia - ano que coincide com a posse do atual presidente do país, cujo regime é de grande ameaça às florestas e seus povos”, relembrou.

    No cenário que Emerson Pontes citou, os focos de queimadas ameaçaram um número histórico no Brasil, com mais de 6 mil registros verificados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

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    É um registro para lembrar que as batidas de todos os corações desta terra, que tanto machucamos, possuem ainda o seu próprio ritmo, e que é somente a união natural de todos eles que permite o bom compasso da vida "

    Emerson Pontes, biólogo e artista indígena

     

    Sobre o artista

    Formado em Biologia e mestre em Ecologia, Emerson Pontes também participou de eventos artísticos na França, na Áustria e na Holanda. O artista indígena também é presença confirmada na 34º Bienal de São Paulo.

    “Para mim e para nós, indígenas e população da Amazônia, é muito importante que tenhamos visibilidade e possamos circular com nossa arte e narrativas no Brasil e no mundo. Só assim conseguimos que escutem as nossas realidades, para que haja apoio e fortalecimento de redes para mudanças políticas e de imaginário necessárias onde vivemos”, reafirmou, com orgulho, sobre a própria trajetória na arte como ferramenta de visibilidade.

     

    | Foto: Lisa Hemes

    Aos 30 anos, o biólogo se interessa pelos sistemas vivos e violações a partir da ótica da diversidade, do funcionamento e adaptação. Como a entidade da floresta Uýra Sodoma, a “árvore que anda”, Emerson realiza uma manifestação em carne de bicho e planta que atravessa falas em fotoperformances e performances.

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