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    Regionalidade


    Toada: a identidade musical do Amazonas

    As toadas lançam luz às temáticas regionais ligadas à floresta, ao indígena e ao caboclo, em uma clara valorização da cultura amazonense

     

    Levantador de Toadas David Assayag
    Levantador de Toadas David Assayag | Foto: Divulgação

    MANAUS - “No ritmo quente você vai dançar, preste atenção que eu vou lhe ensinar, veja o passinho, dois pra lá e pra cá. É boi-bumbá”. É impossível ler o trecho sem cantar a tradicional toada que conquistou a mente e o coração de todos amazonenses. Esse efeito segue muitas outras músicas típicas do Amazonas.

    As toadas viraram um símbolo da música amazonense e tem como uma das características mais fortes o regionalismo, sendo marca registrada do estado. “Musas” do Festival Folclórico de Parintins, esse gênero já circulou no Brasil, mas permanece como a identidade musical do Amazonas.

    Em entrevista ao EM TEMPO, o compositor de “Ritmo Quente”, ao lado de Alex Pontes, Mailson Mendes, reforçou essa afirmação. Ele tem 30 anos de carreira e mais de 150 toadas no currículo.

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    O Amazonas é um dos poucos estados que tem sua identidade própria na música. Pará tem o carimbó, Pernambuco tem o maracatu, mas são poucos estados que têm o privilégio de ter essa identidade cultural "

    Alex Pontes, compositor

     

     

    O boi-bumbá do Amazonas também é Patrimônio Cultural do Brasil reconhecido pelo IPHAN
    O boi-bumbá do Amazonas também é Patrimônio Cultural do Brasil reconhecido pelo IPHAN | Foto: Divulgação

    Específica de boi-bumbá, a toada surgiu muito antes da oficialização do Festival Folclórico de Parintins, mas sempre acompanhou a população amazonense, segundo o historiador e pesquisador no campo da História do Amazonas e do Patrimônio Cultural, Robério Braga.

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    Os ribeirinhos já faziam as suas toadas inspiradas pelo folclore tradicional para brincar de boi, depois vieram as toadas de desafio. O Festival de Parintins, nos últimos anos, que desenvolveu esse estilo, e, mais recentemente ainda, a toada virou um gênero musical comum, digamos assim, fora do bumbá. Mas esse é um gênero muito novo mesmo "

    Robério Braga, historiador

     

    O ritmo, inclusive, virou Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial após aprovação de projeto de lei na Assembleia Legislativa do Amazonas. O boi-bumbá do Amazonas também é Patrimônio Cultural do Brasil reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico (IPHAN).

    De acordo com o presidente do Instituto Cultural Ajuri (INCA), Marcos Moura, o reconhecimento do ritmo como Patrimônio Cultural Imaterial significa a valorização dos músicos, compositores, mestres, folcloristas e artistas que vivem o cotidiano dos bois-bumbás no Amazonas, mantendo viva a herança cultural.

    Vertentes da toada

    “A nossa característica de música regional está mais proeminente com a toada, deixando o beiradão, que também é muito popular aqui na nossa região, e se tornou muito importante na identidade cultural amazonense. Ela aposentou o beiradão e se impôs a partir da influência do Festival Folclórico de Parintins”, citou Robério Braga.

     

    Historiador Robério Braga
    Historiador Robério Braga | Foto: Divulgação

    Muitas são as toadas populares no Amazonas e que também conquistaram um público nacional e até mundial. “Tic Tic Tac”, da banda Carrapicho, é um exemplo de toada de sucesso que ganhou projeção internacional e chegou a vender mais de 15 milhões de discos em todo o mundo, especialmente na França.

    Essa é uma canção que entra em uma das vertentes da toada, conforme explicou Mailson Mendes. “A toada, eu vejo da seguinte forma: ela é igual ao samba. Eu faço essa comparação pois tem o samba raiz, que é aquele do desfile das escolas de samba, e tem o pagode, que nasceu de uma vertente do samba e é mais voltado para o comercial. A mesma coisa acontece com a toada”, explicou.

    Segundo Mailson, a toada também se organiza em duas vertentes. A mais cultural é a que ouve no Festival Folclórico de Parintins, com a marujada, a batucada e que conta com toda a energia da arena e a comercial surgiu com um ritmo mais dançante, adição de instrumentos e letras que falam em uma linguagem diferente do boi-bumbá – além de garantir mais projeção no cenário musical.

     

    Gravação de DVD da banda Canto da Mata
    Gravação de DVD da banda Canto da Mata | Foto: David Batista/Manauscult

    Um dos principais exemplos que o compositor citou para essa vertente comercial foi a atuação da banda Canto da Mata, onde Mailson também contribuiu como vocalista ao lado de Alex Pontes, e que David Assayag e Arlindo Júnior participaram da formação.

    “Fomos muito privilegiados em ter criado essa batida e esse outro estilo para ser divulgado comercialmente, enquanto nós pensamos em realmente fazer o nosso ritmo circular no Brasil e no mundo. Para o Amazonas, isso realmente foi algo muito positivo, pois conseguimos colocar com essa inovação, Parintins como um centro cultural, pois foi lá onde surgiu tudo isso”, finalizou.

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