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    CULTURA RIBEIRINHA


    Histórias Ribeirinhas: "Mapinguari come gente que nem pão"

    O EM TEMPO lança a série “Histórias Ribeirinhas”, um novo espaço dedicado a narrativas e relatos que fazem parte do imaginário coletivo ribeirinho

     

    | Foto: Divulgação

    O EM TEMPO lança a série “Histórias Ribeirinhas”, um novo espaço dedicado a narrativas e relatos que fazem parte do imaginário coletivo ribeirinho, como forma de exaltar e valorizar a cultura e a forma singular de contar histórias do povo do Amazonas e do Norte

      O primeiro relato da série é sobre o Mapinguari, descrito pelos contos como um animal mitológico peludo, com apenas um olho e uma boca com dentes afiados no meio da barriga, que protagoniza a lenda de deixar as crianças tremendo de medo.  

    Mais conhecido como Seu Paulo, o arquiteto aposentado Paulo Barbosa, de 73 anos, natural de Itacoatiara, viveu, até os 18 anos, no município, vindo para Manaus com o objetivo de estudar e buscar emprego.

    Enquanto morou no interior e nas visitas ao município durante a vida adulta, Paulo sempre gostou de trocar com os amigos contos sobre a vida naquela terra - muitas delas com toques sobrenaturais e fantásticos. E ele garante que é tudo verdade.

    A história sobre o Mapinguari, Seu Paulo afirma que ouviu de um “mateiro”, nome comum para lenhadores no interior. “O Mapinguari era um bicho que andava por aí, livre pela mata da nossa região. Os caboclos diziam que o bicho tinha o costume de ficar seguindo os mateiros e os caçadores na floresta através da comunicação deles”, contou.

    Conforme o ribeirinho explicou, mateiros e caçadores têm o costume de se comunicar por gritos, barulhos ou mesmo tiros, como forma de deixar claro que estão seguros – ou até mesmo em perigo. O Mapinguari, com o passar do tempo, foi acompanhando os caboclos e entendendo esse código, além de usá-lo para atacar as pessoas na mata.

    “Certo dia, dois amigos foram caçar juntos. Quando eles chegaram a um determinado ponto da mata, um deles disse: ‘olha, nós vamos nos encontrar aqui. Mas tu não vai muito longe dentro dessa mata, que o pessoal fala que pra lá aparece o Mapinguari, pega as pessoas’. O outro desacreditou: ‘que nada, rapaz! Isso é lenda, deixa de ser besta’”, continuou Seu Paulo.

    O rapaz que não acreditou na existência do Mapinguari foi embora e sumiu de vista na mata. O outro ficou lá perto do ponto de encontro, onde podia rapidamente subir nas árvores. Mais tarde, ouve um grito lá longe, na direção que o amigo dele foi. Assustado, ele subiu rapidamente numa árvore alta.

      De cima da árvore, o rapaz buscava se proteger de qualquer bicho ou criatura que estivesse vindo, que dificilmente conseguiria escalar até onde ele estava. Uns minutos depois, ele sentiu um cheiro de podre e de carniça de arder os olhos e enjoar o estômago.  

    Foi quando ele viu: “rapaz, o Mapinguari tinha pegado o cara e vinha com ele debaixo do braço, arrancando os pedaços do coitado que nem se arranca miolo do pão, e o caboclo gritando, desesperado. Arrancava um naco de carne e ia comendo”, relatou Paulo, enquanto mergulhava na história.

    O arquiteto também fez questão de descrever a aparência do animal. “Era um maceta de um bicho, mais ou menos com o formato de um gorilão, cabeludo, e ele ia passando debaixo da árvore. Ele tinha só um olho, no meio da testa. O cheiro de carniça era da boca dele, uma boca enorme que ele tinha no meio da barriga e que ia mastigando os pedaços que tirava do cara ainda vivo. Ele ia quebrando as juntas do homem e puxando a carne para comer, e aquilo fazia um barulho horrível”, disse.

    Enquanto isso, o outro homem, abrigado na árvore, quase caiu várias vezes por causa do fedor medonho do Mapinguari. Esperou até o dia amanhecer, juntou as próprias coisas e sumiu dali, esquecendo até o chinelo. “Ele contava essa história lá em Itacoatiara para os jovens e para quem mais quisesse ouvir, para a gente ter cuidado na mata e não ficar perambulando perdido por lá”, finalizou Seu Paulo.

    Se é verdade ou não, não sabemos, acredite se quiser. Retornamos na edição do próximo domingo, para mais uma História Ribeirinha.

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