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    Milton Hatoum fala ao EMTEMPO sobre 'A noite da espera'

    O autor estará em Manaus no dia 04 de dezembro para o lançamento do livro

    Primeiro volume da série O Lugar Mais Sombrio, o novo romance de Milton Hatoum retrata a formação sentimental, política e cultural de um grupo de jovens na Brasília dos anos 1960 e 1970. | Autor: Reprodução/Companhia das Letras

    Para o escritor amazonense Milton Hatoum, de 65 anos, "a memória é a musa tutelar da literatura". Tanto é verdade que a história do mais novo romance do premiado escritor gira em torno de suas memórias, referentes ao período da ditadura militar no Brasil, dando base a fictícia história da busca de um filho pela figura materna. 

    'A noite da espera' é a primeira parte de uma trilogia intitulada 'O lugar mais sombrio',  e o primeiro romance do escritor que é retratado fora da Amazônia. O protagonista da trama é Martim, que vive em Paris por ter sido exilado do Brasil, e que relembra os anos que viveu em Brasília, após a separação traumática dos pais, aos 16 anos, no ano de 1967, além do abandono da mãe, na mesma época da confusão política e social que o Brasil enfrentava. 

    O romance, mesmo não sendo autobiográfico, está relacionado com as vivências de Hatoum, que morou em Brasília para estudar Arquitetura, em meados da década de 1960, aos 15 anos, e viveu em Paris na década de 1980. 

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    "A noite da espera" é um romance de formação, assim como Brasília naquela época, que mostra os tempos de violência e intolerância, o qual também tem reflexo nas relações mais exploradas no universo literário do autor: drama familiar,  relações sociais, políticas e históricas, subjetividades e até a solidão. 

    O lançamento da obra em Manaus será no dia 04 de dezembro às 19h na Banca do Largo. Na ocasião, Hatoum fará um noite de autógrafos.

    Confira a entrevista exclusiva do escritor ao EM TEMPO.

    Esse livro é a primeira parte de uma trilogia intitulada "O lugar mais sombrio"
    Esse livro é a primeira parte de uma trilogia intitulada "O lugar mais sombrio" | Foto: Divulgação

    EMTEMPO -  'A noite da espera' é o seu primeiro romance ambientado fora de Manaus. O que podemos esperar dessa obra?

    Milton Hatoum -  É um romance de formação de um grupo de jovens em Brasília num dos momentos violentos da ditadura. Tentei construir no percurso de cada personagem a formação sentimental, moral e intelectual desse pequeno grupo de estudantes. Mas não é um romance político. A política está em toda parte, até nos pequenos atos e decisões da nossa vida. O drama do narrador é a separação da mãe e a relação áspera com o pai. Há outros conflitos e relações amorosas, políticas, morais, mas não gosto de explicar meus livros. O leitor descobrirá essas e outras relações.    

    EMTEMPO - Você disse uma vez que escreve sem pressa. Como foi a criação dessa obra? Quando começou a escrevê-la? Como escolheu o tema? Qual horário que você costuma a escrever? Tem alguma regra?

    MH -  O primeiro esboço desse romance foi feito em 1980, quando eu vivia em Madri e Barcelona. O grande ensaio para escrever “A noite da espera” foi o “Cinzas do Norte” (2005), que é também um romance de formação.  Quando terminei o “Órfãos do Eldorado” comecei a escrever “A noite da espera”, mas o manuscrito cresceu muito e decidi dividi-lo em três partes. Quanto ao tema, penso que é a minha própria vida e as minhas leituras. É a experiência de vida e de leitura que me conduz à ficção. A literatura depende dessa experiência. Se eu não tivesse vivido em Brasília e em São Paulo, se eu não tivesse lido grandes livros de ficção e poesia não teria escrito o que escrevi. Não tenho disciplina para escrever, e sim para ler. Leio muito mais do que escrevo. Mas quando escrevo um romance, trabalho todos os dias por muito tempo. Para escrever essa trilogia, demorei dez anos. Às seis e meia da manhã já estou pronto para lutar com as palavras, “uma luta vã”, como escreveu Drummond.

    EMTEMPO- Você trata de conservadorismo e ditadura na obra. Chegou a ver isso em Manaus ou em Brasília? Ele é meio ideológico ou político?

    MH - Vivi isso em Brasília, para onde viajei em dezembro de 1967 com dois amigos de Manaus: Aurelio Michiles e Eneas Vale. De algum modo, o Aurelio está presente no romance. Claro que não é ele, pois os personagens são seres imaginados, construídos, mas o Aurelio e outros amigos de São Paulo, de Brasília e da França aparecem como fantasmas, projeções da minha imaginação, do que eu queria para cada personagem. São amigos que abriram o baú da memória, eles me escreveram cartas sobre aquela época, me deram documentos etc. Mas todo esse material foi filtrado e transformado pela imaginação para compor a narrativa. Não é um romance ideológico, a ideologia estraga uma ficção ou uma obra de arte. Mas há uma dimensão ética e estética, e isso é fundamental para mim. 

    EMTEMPO - Atualmente, como você enxerga essa tentativa de 'matar a arte', que os conservadores estão tentando fazer?

     MH - Isso não é novidade. O escritor Graciliano Ramos foi preso sem acusação formal pela polícia do Estado Novo. Vários artistas, músicos, escritores, jornalistas e professores foram presos e perseguidos durante a ditadura.  Essa tentativa vem de pessoas muito ignorantes, pessoas frustradas e extremamente agressivas, sem qualquer formação humanista. O que se pode esperar de um cara que encerrou sua carreira como ator pornô? Ou de um movimento que apoiou um golpe parlamentar e colocou no poder o governo mais impopular e mais vergonhoso da nossa democracia caricata? Eles odeiam a arte porque não há nada mais livre que o amor, a imaginação e o gesto artístico. Por isso muitos desses ultraconservadores apoiam o Bolsonaro, um homem tosco, violento, que teceu loas à tortura e ao estupro. Falta um mínimo de formação humanista a essas pessoas. Falta, principalmente, um pouco de sensibilidade à vida, ao gesto criativo, ao diálogo, ao amor. 

    EMTEMPO - Você trabalha muito a fratura social e o drama familiar em suas obras. Onde busca essas inspirações? Tudo é memória?

    MH - Tudo é memória e imaginação, essas irmãs siamesas. E, claro, linguagem. Para cada hora de trabalho com a linguagem só há dois minutos de inspiração.

    EMTEMPO - A presença feminina com poder e voz em seus romances é vital. O que isso representa na sua obra?

    MH - Na teia de conflitos e dramas de um romance, cada personagem é construído para agir e pensar de acordo com a sua particularidade. As personagens femininas ocupam um lugar central em vários romances. Domingas e Zana no “Dois irmãos”; Alícia no “Cinzas do Norte”; Lina, a Baronesa, Ângela e Dinah em “A Noite da espera”, Emilie e a narradora no “Relato de um certo Oriente”. Cabe ao leitor pensar no significado dessa presença feminina.

    EMTEMPO - O passado é também sempre presente nas suas obras. Por quê?

    MH - Por que a memória é a musa tutelar da literatura. O romance evoca o passado para, de algum modo, falar do nosso tempo. Quem fala diretamente do presente é o jornalismo.

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