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    Dia A Dia


    Os cinemas do Joaquim Marinho

     
    Não importava o dia da semana. Você reunia uma turma animada, abordava o pipoqueiro e ainda comprava Mentex ou aqueles inesquecíveis bombons de caramelo. Bastava isso para curtir um dos cinemas do centro de Manaus.
    Eram as salas do Joaquim Marinho, verdadeiros points das décadas de 1980 e 1990, quando não tínhamos shopping centers e, ainda assim, nos divertíamos bastante. Era época de Starship, Face’s, Spectron, Honey Honey, Ziza’s, Alemã e outros espaços frequentados por adolescentes e adultos. Ir ao cinema tinha a mesma importância que ir à missa.
    E quantos filmes bons assistimos naquelas salas que – você há de concordar, Joaquim – não eram exemplo de segurança, mas faziam a gente viajar e até interagir com produções como “Dirty Dancing”, por exemplo. Era 1987 e a última cena, com Patrick Swayze e Jennifer Grey, fez todo mundo bater palmas como se acompanhasse a dança dos protagonistas ao vivo.
    Sem falar em filmes como “A Mosca” e um tal de “A Maldição de Samantha”, que fizeram muita gente gritar – sem querer – com medo ou asco daquelas cenas mórbidas. Os longas brasileiros também tinham vez nos cinemas do Joaquim.
     
    Lembro-me de ter saído de minha casa – na rua Huascar de Figueiredo, à noite – para ver o Lauro Corona dar pinta no Cine Chaplin e divulgar “Bete Balanço”. Era na mesma Joaquim Nabuco onde vimos passar o papa João Paulo 2º, quando visitou o Brasil e incluiu Tambaquitown no roteiro.
    Não importava o horário, todo mundo se encontrava por uma daquelas salas, fosse no Grande Otelo, no Carmen Miranda, no Renato Aragão... sempre uma homenagem aos prováveis ídolos do Joaquim. Naquela época ainda havia lanterninhas, que orientavam as pessoas até a poltrona mais acessível ou davam bronca em quem começava a fazer bagunça ou a falar alto.
    Nas sessões mais aguardadas pelo público, muitos nem se importavam de pagar a entrada e ficar em pé, lá atrás, acompanhando a projeção. Sobre o Chaplin, a saída de emergência dava praticamente para o quintal da casa onde eu morava e uns dois filmes deu para a gente ver de graça (eu e meus amigos da Huascar – desculpa aí, Joaquim!).
    Só não era possível entrar com o uniforme da escola. Pelo menos, onde eu estudava. Colégio de freira. A diretora e as demais madres ficavam de olho para ver se alguma aluna matava aula ou fugia para os cinemas do Joaquim. Era preciso voltar para casa, mudar de roupa e, aí sim, ir ao cinema. Naquela época, tudo o que chegava à telona era obrigatório assistir, já que as locadoras levavam, às vezes, um ano para receber o filme.
    Hoje, temos as confortáveis salas das grandes redes de cinema do país. O telão é bem maior, o ar-condicionado é potente (até as 22h, pelo menos) e, de onde você estiver, é possível assistir ao filme sem nenhuma cabeçorra na frente para atrapalhar. Ir ao cinema continua sendo hábito em Manaus City, mas nenhuma sala – pelo menos, até agora – virou ponto de encontro de uma cidade inteira e deixou tantas histórias marcantes e tantas saudades como os cinemas do Joaquim.
       
    Esse texto também foi publicado no livro “Manaus - meu sonho”, do jornalista Joaquim Marinho
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